“Lives não podem parar; músicos tem famílias para criar e contas para pagar”


Leonardo Junqueira, pai da cantora Lara Lacerda, e vô coruja de kiara Lacerda em um emocionante artigo narra o difícil e angustiante momento que muitos músicos estão passando diante desta insuportável e mortal pandemia, que não apenas tira o ganha pão de milhões de artistas Brasil afora, mas pior, ceifa milhares de vidas.

 

Tenho acompanhado uma novidade, que aparentemente tomou conta das redes sociais: são as “Lives” de músicos e artistas de todas as tendências e para todos os gostos. Num primeiro momento achei uma excelente ideia para o entretenimento em tempos de confinamento, quando precisamos combater um inimigo comum à espécie humana.

Depois de assistir algumas apresentações pensei no óbvio motivo de estarem fazendo suas apresentações pela internet.

Tenho uma filha cantora, Lara Lacerda, que escolheu essa profissão por puro amor à música. Porém, a situação calou seu canto e seu entusiasmo. Na mesma linha familiar, meu irmão e seu filho, que vinham alçando sucesso com uma banda de rock, também perderam a alegria de suas apresentações, quando dezenas (e até centenas) de pessoas se aglomeravam em pubs e bares de Belo Horizonte para cantarem e se divertirem ao som de músicas lendárias e de grupos, como Titãs, Legião Urbana, Barão Vermelho, Skank entre outras de grande sucesso em épocas diferentes. Eu mesmo tive que engolir minhas pretensões de um dia me tornar um músico reconhecido ou admirado como tantos que estão por aí, na estrada da vida, com sua arte e seu talento.

Quando assistimos artistas famosos, tudo parece maravilhoso. São lives com produção esmerada, caprichada e com recursos técnicos espetaculares. E os objetivos variam entre arrecadar doações ou ajudar determinados setores sociais, que em função da crise em que vivemos encontram-se abandonadas e carentes.

No caso específico dos meus pensamentos fico imaginando “- e esses músicos do dia a dia, que precisam se apresentar todos os dias e em algumas ocasiões duas ou três vezes em apenas uma noite?” Como esses artistas estão fazendo para pagarem seus compromissos e se manterem inteiros e motivados a promover a alegria e o sorriso de tantas pessoas? Bem, minha gente, o caminho é a live. Uma forma quase desesperada de dizer “precisamos de ajuda!”

Na minha vida não foram poucas as vezes que precisei pedir ajuda. Não foram poucas as vezes que recebi sonoros “nãos” como resposta, mas os “sins” que vieram foram fabulosos. Acho que pedir ajuda é algo muito maior do que o sofrimento pela impotência de não alcançar objetivos de forma prática e merecedora.

Quantos músicos, quantos artistas, quantos sonhos estão rolando pelo chão nesse momento? Quantas explicações estão sendo dadas a esposas, filhos, pais ou amigos por não conseguir o sustento elementar? Nesse momento a tecnologia aparece como um salva-vidas ao náufrago, que pede socorro desesperadamente para não se afogar.

Dizem que Minas Gerais é um seleiro de talentos musicais e isso é uma verdade. Por inúmeras vezes eu saí com amigos para juntos, comparecer a shows de grandes artistas pagando preços que comprometiam o aluguel, a conta de luz ou outro compromisso para que nossos ídolos pudessem ganhar o dinheiro justo ao talento que era apresentado.

Gastamos dinheiro com a condução cara, com a bebida e comida vendida a preços elevados, pagamos a consumação e nossos músicos iam pra casa satisfeitos por mostrarem seus talentos e receberem por isso. Mas agora, vejo que a classe musical não é tão unida assim, como tentaram mostrar aquele movimento musical “Amigos”. Ser amigo em tempo de paz é fácil. Acho que seria a hora da classe musical, como um todo, se unir para criarem uma ajuda mútua, quando os mais ricos possam ajudar os mais necessitados. As lives estão aí, todos os dias nas redes sociais, mas normalmente são cantos sufocados pela dor da falta de dinheiro, músicas de alegria triste e sorrisos de humilhação.

Centenas de municípios mineiros, onde a música quase que milagrosamente uniu pessoas, divertiram multidões agora pede socorro nas lives. Não se enganem, minha gente! O vídeo mostrado para nossa diversão esconde a apreensão, a expectativa e o choro de muitos artistas num réquiem de profunda tristeza. Por isso, hoje eu gostaria que minhas palavras fossem enfiadas por minha garganta abaixo e que eu fique sufocado pelo que disse, porque nossa gente se levantaria em socorro desse mundo fantástico da música e seus talentosos artistas… E a vida seria mais feliz.

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