Para a psicanalista carioca Joana de Vilhena Novaes, esse tipo de situação revela um traço marcante do tratamento que as pessoas acima do peso recebem no país.
“Desde Gilberto Freyre, o Brasil não reconhece o preconceito. Frases como ‘ele é gordo, mas é bonito de alma’ revelam bem isso”, diz Joana, que é coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social da PUC-Rio.
“É claro que a saúde é importante e que a obesidade é um quadro de risco, mas o que não se entende por aqui é que a estética é um direito e não um crime. E assim se coloca os gordinhos em um estado de invisibilidade, de exclusão.”
Formatos alternativos
Esse era um cenário mais comum para Alessandra Linder e outras de suas colegas plus size, que desfilaram na última edição do evento Fashion Weekend Plus Size, que ocorreu no mês passado em São Paulo.
Mas é justamente a moda que ajudou a mudar a realidade dessas jovens consideradas acima do peso e que vem impulsionando uma reviravolta na auto-estima das gordinhas.
Se antes elas se escondiam em roupas largas, sofriam para comprar um vestido de festa ou jamais desfilavam um biquini novo, hoje a situação é diferente.
“Nos últimos anos, houve um boom na área plus size, principalmente na moda”, diz Marcella Uceda Betti, antropóloga e pesquisadora da USP. “É claro que ainda vivemos em uma sociedade lipofóbica, mas vemos cada vez mais ações para reverter esse esteriótipo negativo e transformar a imagem da gordinha, mostrar que ela também pode ser bonita, sexy, feliz.”
Exclusão
O crescimento do nicho plus size agora faz com que as pessoas se sintam retratadas em um mercado de consumo em que antes elas não tinham espaço. O Brasil registra hoje um crescimento no número de marcas plus size e de grandes lojas que investem no gênero.
“Para uma gordinha, é um grande alívio não mais ter de ir em lojas de tamanhos maiores e poder fazer compras em lojas de departamento”, diz Joana Novaes, autora de dois livros sobre a relação das mulheres com seus corpos.
“É claro que não soluciona o problema, mas diminuiu a exclusão à qual elas eram e ainda são submetidas, algo totalmente cruel”, acrescenta. “Além de ajudar a melhorar a auto-estima delas.”
Um dos fatores que fizeram com que o mercado da moda passasse a incluir as pessoas acima do peso foi a pressão das próprias gordinhas, que passaram a demonstrar seu interesse por esse mundo. E essa bandeira vem sendo levantada especialmente por blogueiras acima do peso.
Fora do país, o crescimento desses blogs é tamanho que ganhou uma matéria recente no jornal The New York Times.
“O mundo fashion não é conhecido por ser, digamos, acolhedor com qualquer pessoa cujo peso é maior do que o esperado. Então, as blogueiras plus size se uniram para formar uma comunidade própria”, diz o texto, que destaca as blogueiras mais acessadas, que combatem a “ditadura da magreza”.
No Brasil, há um movimento parecido, embora em menor escala. Um dos mais populares é o blog Mulherão, idealizado pela jornalista e consultora Renata Poskus. Criado em 2009, já tem mais de 10 mil seguidores no Facebook.
O sucesso foi tanto que pouco depois de criar o blog, Renata percebeu a demanda e começou a organizar a Fashion Weekend Plus Size, que está em sua sexta edição.
Fonte: BBC-Brasil





