“BANQUETE DA MISÉRIA” reafirma a situação calamitosa da educação no Estado de Minas Gerais – Em Belo Horizonte professores se acorrentam e entram em greve de fome

Publicado por: suporte

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Em ato simbólico, professores acorrentaram-se a um monumento para reivindicar o pagamento do piso nacional

Foto: Ney Rubens/Especial para Terra

Ney Rubens
Direto de Belo Horizonte

Em greve há 98 dias, professores da rede estadual de educação de Minas Gerais realizam nesta segunda-feira uma manifestação na Praça Sete, no centro de Belo Horizonte. Em um ato simbólico, cerca de 40 docentes se acorrentaram ao monumento localizado na praça para reivindicar o cumprimento da lei 11.738, aprovada pelo Supremo Tribunal Federal, que estabeleceu o piso salarial nacional de R$ 1.187 para uma jornada de trabalho de 40 horas semanais.

De acordo a professora Cláudia Simões Santos, os professores continuarão acorrentados e em greve de fome até o final do dia. “É um ato com tempo determinado para que a gente possa mostrar para a sociedade a intransigência do governo”, afirma. Ela conta que a greve vai muito além do piso salarial. “Ela é pela melhoria da qualidade da educação. Nossas escolas estão sucateadas, os nossos alunos têm uma merenda muito ruim. Então nós precisamos rever esse processo em Minas Gerais”.

No dia 31 de agosto o governo de Minas apresentou a proposta de um piso salarial de R$ 712 para uma jornada de trabalho de 24 horas semanais, correspondente à realizada pelos profissionais mineiros. O Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação do estado (Sind-Ute) rejeitou a proposta e desde então o sindicato disse esperar uma nova negociação com o estado.

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Segundo a psicopedagoga Rosimarie Vilela, além do cumprimento da lei, uma das maiores reivindicações dos professores é o cumprimento do plano de carreiras. “Eu sou graduada e pós-graduada. Eu vou receber 712 reais? Eu tenho 700 alunos e mais de 10 anos de trabalho. Eu vou receber o mesmo tanto que um professor que chegou agora na escola? É uma falta de respeito com os profissionais”, afirma.

Denise Romano, diretora da Sub-sede Betim do Sind-Ute, afirma que esse impasse se tornou uma decepção para os professores. “Não sou eu quem está dizendo, todo mundo diz. Os cursos de licenciatura, que formam professores, estão cada vez mais esvaziados. Há muitos que estão fechando. Nós já temos dificuldade para professores do ensino médio, de ciências exatas. Você não encontra mais essas pessoas. Não é uma carreira que é atrativa, então os jovens não se sentem estimulados a serem professores”, diz.

Além disso, sem receber os salários há dois meses, alguns professores começam a enfrentar problemas financeiros. A professora Diliana Márcia de Barros conta que seu aluguel já está atrasado há dois meses. Com 13 anos de carreira, ela conta que “é desanimador você ficar o tempo todo com um governo que não negocia e não oferece nada decente para a categoria. A população está sofrendo, as crianças estão fora da escola. Nós lamentamos profundamente a situação dos alunos, mas a responsabilidade não é nossa. A responsabilidade é do governador”, conclui.

Cerca de 20 docentes se acorrentam no centro de Belo Horizonte, MG / crédito: Sind-Ute

Inicialmente, os mais de 150 mil trabalhadores que cruzaram os braços exigiam equiparação ao piso nacional, instituído pela Lei Federal 11.738/08 que, segundo o Ministério da Educação é de R$ 1.187 e R$ 1.597, conforme a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE).

“Chegando aos 98 dias de greve, concordamos com o pagamento proporcional com base nos R$ 1.187, além do plano de carreira. É preciso levar em conta o tempo de trabalho e capacitação do professor”, explicou Rafael Calado Alves Pereira, diretor do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sindi-Ute).

Munidos de nariz de palhaço, cartazes e panfletos, os manifestantes estão na praça abordando a população para explicar o impasse nas negociações com o governo estadual. Eles prometem permanecer no local até as 19h.

Como Thiago Luiz Ferreira Miranda, 30 anos, que há sete é professor da rede. Atualmente, pelas 24 horas semanais de trabalho recebe um salário base de R$ 550. “Com os benefícios o valor chega a R$ 950. Após descontos, recebo em conta R$ 801,20. Tenho curso superior, tenho a responsabilidade de conduzir uma sala de aula e recebo menos que o piso nacional”, indigna-se o acorrentado, que promete permanecer no local até as 19h somente bebendo água.

Thiago também comentou o fato do governo estadual ter substituído os grevistas por outros profissionais. “Estamos com os salários cortados há 2 meses por conta da greve e sendo substituídos, o que é inconstitucional, já que o direito de greve é assegurado pela Constituição”, declarou o docente. Com relação a isso, a categoria entrou com ação no Ministério Público, que ainda não foi julgada.

Hoje, o Sindi-Ute protocolou pedido de investigação no Ministério Público sobre denúncias de que alguns professores estão sofrendo intimidações de policiais mineiros. “Já fizemos o pedido oficialmente e alguns deputados estaduais estão acompanhando ”, confirmou Rafael Calado.

O professor Thiago reforçou: “Eu mesmo já fui seguido por dois policiais durante uma das manifestações”. O governo mineiro nega todas as acusações.

Próximos passos

Os próximos passos dos grevistas já estão traçados. Amanhã, eles partem para a Assembleia Legislativa onde, segundo Rafael Calado, o governo pretende fazer com que os deputados aprovem o projeto de lei do Executivo, enviado na terça-feira, que estabelece piso salarial de R$ 712 para toda a categoria.

Para o governo, as mudanças beneficiam principalmente os profissionais de educação que têm mais tempo de serviço. Mas, os servidores estaduais contestam o projeto: para eles, ele coloca toda a categoria no mesmo patamar. “Como pode um professor com mais de 15 anos de carreira, com título de especialização, receber o mesmo que um iniciante. Vamos todos para lá tentar impedir a votação”, indagou o dirigente mineiro.

Deborah Moreira, da redação do Vermelho com agências

 

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