GloboNews admite erro e pede desculpas após comentário gerar associação de Flávio Bolsonaro a projeto arquivado sobre Nossa Senhora Aparecida

Fala de Maria Cristina Fernandes no Em Pauta repercutiu nas redes como se houvesse atualmente uma articulação ligada ao candidato do PL para retirar da santa o título de Padroeira do Brasil; proposta semelhante é de 2007 e está arquivada desde 2008

Publicado por: Geraldo Passos

A GloboNews reconheceu, na madrugada desta sexta-feira (25), que divulgou uma informação incorreta ao tratar de um suposto movimento para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. O episódio começou durante o programa Em Pauta, na noite de quinta-feira (24), e rapidamente ganhou dimensão eleitoral nas redes sociais, onde publicações passaram a associar a suposta iniciativa ao senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). O canal corrigiu a informação no Jornal GloboNews Edição da Meia-Noite e pediu desculpas pelo erro.

A controvérsia começou durante um comentário da jornalista Maria Cristina Fernandes. Ela falou sobre uma suposta mobilização de evangélicos em torno de um projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida a condição de Padroeira do Brasil e inseriu o tema no contexto da disputa pelo eleitorado religioso na eleição presidencial.

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Há uma diferença importante entre o que foi efetivamente dito no programa e a forma como o assunto se espalhou. Segundo o Estado de Minas, a comentarista não afirmou literalmente que Flávio Bolsonaro fosse autor da proposta, mas o trecho passou a circular nas redes como se o candidato apoiasse ou pretendesse implementar a medida. Outros veículos registraram que a abordagem feita no programa associou politicamente o assunto à candidatura do senador.

Projeto existe, mas é de 2007 e está arquivado

O ponto factual que derrubou a narrativa que circulou nas redes está nos próprios registros da Câmara dos Deputados.

O Projeto de Lei 2.623/2007 realmente propôs modificar a Lei nº 6.802/1980. O texto pretendia substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”, mantendo o feriado nacional de 12 de outubro.

O autor, porém, foi o então deputado federal Professor Victório Galli, à época filiado ao PMDB de Mato Grosso. O projeto foi apresentado em dezembro de 2007, recebeu parecer pela rejeição na Comissão de Educação e Cultura e acabou arquivado em 22 de agosto de 2008. Não está em tramitação atualmente.

Os registros oficiais consultados também não apontam participação de Flávio Bolsonaro naquele projeto. A própria Câmara já precisou esclarecer o assunto anteriormente. Em 2018, diante de informações falsas que voltaram a circular sobre a proposta, o Legislativo publicou uma nota informando que o projeto havia sido arquivado dez anos antes.

GloboNews volta ao ar para corrigir informação

Horas depois da exibição do Em Pauta, a GloboNews levou a correção ao ar. A apresentadora Marcelly Setúbal, no Jornal GloboNews Edição da Meia-Noite, esclareceu que o projeto mencionado havia sido apresentado em 2007 e arquivado em agosto de 2008. O canal reconheceu que a informação anteriormente apresentada estava incorreta e terminou a correção com um pedido público de desculpas.

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A própria edição do Em Pauta de 24 de setembro permanece identificada no catálogo oficial do Globoplay.

O episódio evidencia a velocidade com que uma afirmação feita em televisão pode ser recortada, reinterpretada e incorporada à disputa eleitoral nas redes sociais.

Flávio Bolsonaro nega qualquer participação

Flávio Bolsonaro também reagiu: O candidato afirmou que não existe projeto de sua autoria ou apoiado por ele com a finalidade de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Em vídeo divulgado durante agenda em Minas Gerais, classificou a história como uma mentira e afirmou respeitar diferentes religiões e também pessoas sem religião.

A campanha também passou a avaliar medidas judiciais e a identificação dos perfis responsáveis pela disseminação da informação nas redes, segundo o Estado de Minas. Flávio posteriormente compartilhou a própria correção feita pela GloboNews.

Religião já ocupa espaço na disputa presidencial

O caso ganhou repercussão especialmente porque a religião já ocupa espaço importante na campanha presidencial. O debate envolve a movimentação de setores católicos e evangélicos, manifestações de religiosos e declarações dos próprios candidatos. Nesse ambiente, uma informação envolvendo Nossa Senhora Aparecida, figura de enorme importância para os católicos brasileiros, rapidamente adquiriu dimensão eleitoral.

Nossa Senhora Aparecida é reconhecida na legislação brasileira desde a Lei nº 6.802, de 1980, que declara 12 de outubro feriado nacional para homenagem à Padroeira do Brasil. O projeto de 2007 pretendia alterar justamente essa denominação, mas não prosperou.

O episódio também reacende uma discussão particularmente sensível em períodos eleitorais: a responsabilidade na verificação de informações antes de vinculá-las, direta ou indiretamente, a candidatos. No caso desta quinta-feira, a GloboNews fez a correção poucas horas depois e reconheceu publicamente o erro.

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