O tamanho das estruturas políticas montadas dentro das assembleias legislativas voltou a jogar luz sobre uma das engrenagens mais sensíveis da vida pública brasileira: os cargos comissionados. Levantamento nacional mostrou que algumas Casas estaduais mantêm quadros de confiança muito superiores à proporção existente na Câmara dos Deputados, em Brasília. O caso ganha peso ainda maior porque estados como Goiás e Minas Gerais, diretamente citados no levantamento, também aparecem no tabuleiro nacional com nomes que orbitam a disputa pela Presidência da República em 2026.
A Assembleia Legislativa de Goiás lidera o levantamento, com 5.874 servidores comissionados para 41 deputados estaduais. A proporção chega a 143 cargos de confiança por parlamentar, a maior entre as Casas analisadas. O número chama atenção porque supera, com folga, a estrutura da Câmara dos Deputados, onde existe limite de 25 cargos de confiança por congressista.
A presença de Goiás no topo do ranking tem efeito político inevitável. O estado é comandado por Ronaldo Caiado, do PSD, nome lançado ao debate presidencial de 2026. Embora a estrutura da assembleia não se confunda automaticamente com o governo estadual, o dado cria constrangimento em um momento no qual postulantes ao Planalto tentam vender ao eleitorado discursos de eficiência, moralidade administrativa, austeridade e combate aos privilégios.
Goiás lidera com folga e escancara modelo de poder baseado em comissionados
O dado mais explosivo está em Goiás. A Assembleia goiana possui gabinetes de cerca de 100 m² para 41 deputados, mas abriga 5.874 servidores comissionados. A conta revela uma engrenagem política de grande porte, com 143 cargos de confiança para cada parlamentar.
Esse tipo de estrutura não depende de concurso público. Os cargos comissionados têm natureza temporária e costumam acompanhar a troca de mandatos, o que reforça a crítica sobre uso político da máquina legislativa. Quando novos deputados chegam, equipes mudam, nomeações se reorganizam e a estrutura pública passa a funcionar também como instrumento de sustentação política.
O problema não está na existência do cargo comissionado em si. A Constituição permite funções de direção, chefia e assessoramento. O ponto sensível é o volume. Quando a proporção foge completamente do razoável, a pergunta deixa de ser apenas administrativa e passa a ser política: quantos cargos são necessários para o mandato funcionar, e quantos servem apenas para alimentar base, influência e conveniência?
Parente de Caiado já apareceu no radar
O levantamento também lembra que, em abril, veio à tona a informação de que ao menos um servidor comissionado da Assembleia de Goiás seria parente do ex-governador Ronaldo Caiado, pré-candidato à Presidência da República.
Esse dado não transforma automaticamente toda a estrutura em irregularidade. Mas aumenta a necessidade de transparência. Quando um estado com pré-candidato presidencial lidera um ranking de cargos de confiança por deputado, qualquer conexão familiar, política ou partidária passa a ser examinada com mais rigor.
Caiado tenta se apresentar nacionalmente como alternativa de gestão, segurança e força administrativa. Por isso, o tamanho da estrutura comissionada em Goiás cria uma vitrine incômoda. Quem quer governar o país precisa também explicar o ambiente político do próprio estado.
Minas entra pela ausência de resposta e pelo peso de Zema
Minas Gerais aparece no levantamento por outro caminho. A Assembleia Legislativa de Minas Gerais foi uma das Casas acionadas por e-mail e telefone, mas não respondeu até a conclusão da reportagem. A falta de resposta também comunica algo, especialmente quando se trata de transparência pública.
No caso mineiro, o peso político é ainda maior porque Romeu Zema, do Novo, é tratado como pré-candidato à Presidência. Em maio de 2026, ele declarou ser o único pré-candidato da direita de origem no setor privado, reforçando a tentativa de se diferenciar de políticos tradicionais.
A ausência de resposta da ALMG, portanto, não pode ser lida como detalhe burocrático sem importância. Minas é um dos maiores colégios eleitorais do país, tem protagonismo histórico em disputas nacionais e abriga um nome que busca espaço no campo da direita para 2026.
Se Goiás chama atenção pelo excesso informado, Minas chama atenção pela opacidade no levantamento. Em ambos os casos, o tema bate na mesma porta: transparência, cargos públicos e coerência entre discurso eleitoral e prática institucional.
Assembleias superam a Câmara dos Deputados
O levantamento mostra que, entre 18 estados com informações completas, 14 possuem relação entre deputado estadual e comissionado superior à da Câmara dos Deputados. Em 9 estados, os dados estavam incompletos ou inacessíveis.
Esse dado é grave porque revela uma distorção estrutural. A Câmara dos Deputados, por atuar no plano federal, possui maior volume de matérias nacionais, fiscalização de ministérios, articulações partidárias amplas e representação de estados inteiros. Ainda assim, tem limite de 25 cargos de confiança por parlamentar.
Quando assembleias estaduais ultrapassam esse padrão de forma tão ampla, a pergunta se impõe: o que justifica estruturas locais tão inchadas?
A resposta padrão das Casas costuma girar em torno de legalidade, função constitucional, autonomia dos gabinetes e controle interno. Mas esse argumento não enfrenta a questão central. Legalidade formal não elimina dúvida sobre eficiência, necessidade, produtividade e moralidade administrativa.
Mato Grosso, Rondônia, Tocantins e Rio também aparecem no topo
Depois de Goiás, a Assembleia de Mato Grosso aparece com 3.168 comissionados para 24 deputados, o equivalente a 132 por parlamentar. Rondônia registra 93 cargos por deputado, Tocantins chega a 82, e o Rio de Janeiro aparece com cerca de 77 por parlamentar.
No Rio, o Ministério Público estadual ajuizou ação civil pública questionando a proporção entre cargos de confiança e servidores efetivos. A promotoria afirma que esse tipo de prática pode comprometer a eficiência administrativa e afrontar princípios como impessoalidade e moralidade.
Esse ponto amplia a discussão. O problema não se limita a um estado, nem a um partido. Trata-se de um modelo disseminado em diferentes assembleias, com forte potencial de uso político da máquina.
Cargos de confiança não podem virar moeda política
Especialistas citados no levantamento apontam que o excesso de comissionados pode comprometer funcionalidade e aumentar risco de práticas ilegais, como funcionários-fantasmas e rachadinhas. Também há crítica à ideia de que estruturas muito grandes possam operar como forma silenciosa de burlar o processo público de seleção por concurso.
O cargo de confiança tem finalidade legítima quando serve para direção, chefia e assessoramento. Um deputado precisa de equipe técnica, assessoria legislativa, comunicação, articulação e apoio político. Isso faz parte do mandato.
O problema começa quando o número perde proporção. Aí a estrutura deixa de parecer instrumento de trabalho e passa a se parecer com uma rede de acomodação política.
Em ano eleitoral, esse debate fica ainda mais sensível. Comissionados podem operar como base de influência, capilaridade regional, mobilização e sustentação de grupos políticos. Por isso, o volume importa.
Presidenciáveis precisarão responder sobre o entorno institucional
Goiás e Minas merecem destaque porque seus nomes no tabuleiro presidencial tentam se apresentar como alternativas de gestão.
Caiado, em Goiás, precisa conviver com o fato de que a Assembleia de seu estado lidera nacionalmente a relação de comissionados por deputado. Zema, em Minas, precisa conviver com o fato de que a Assembleia mineira não respondeu ao levantamento sobre o tema.
Nenhum dos dois responde diretamente pela estrutura das assembleias, que têm autonomia administrativa. Mas política não se resume a competência formal. Ela envolve ambiente, cultura institucional e coerência pública.
Quem disputa Presidência precisa ter discurso nacional. Mas também precisa explicar o que ocorre no próprio território político.
Transparência não pode ser seletiva
As assembleias que responderam ao levantamento defenderam, em geral, que os cargos existem dentro da lei, cumprem função constitucional e passam por controles internos e externos. Nenhuma, segundo a reportagem, questionou o volume dos comissionados ou apresentou dados de produtividade e presença.
Esse é o ponto mais frágil da defesa institucional.
A sociedade não quer apenas saber se o cargo existe legalmente. Quer saber se o servidor trabalha, onde trabalha, o que faz, quanto custa, qual resultado entrega e se sua nomeação atende ao interesse público.
Transparência não é despejar planilhas em portais difíceis de navegar. Transparência é permitir que qualquer cidadão compreenda o gasto público e fiscalize o uso da máquina.
Um retrato da velha política em pleno 2026
O levantamento expõe uma contradição brasileira.
Enquanto campanhas eleitorais falam em modernização, eficiência, corte de privilégios, Estado enxuto e responsabilidade fiscal, muitas estruturas legislativas seguem infladas por cargos de livre nomeação.
É a velha política com roupa nova. Muda o discurso, muda o marketing, muda o slogan. Mas, nos bastidores, a engrenagem continua dependente de nomeações, acomodações e estruturas que raramente passam pelo crivo do cidadão comum.
Goiás aparece no topo com 143 comissionados por deputado. Minas aparece sem resposta. E os dois estados têm personagens mirando o Planalto.
Esse é o tipo de coincidência que a política prefere tratar como detalhe. Mas o eleitor deveria tratar como alerta.
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