Advogado especialista ouvido pelo Divinews contesta “rombo” no Diviprev e alerta para reforma sem diálogo

Especialista em Direito Previdenciário afirma que déficit atuarial não pode ser tratado como rombo imediato e defende debate técnico, transparente e responsável

Publicado por: Geraldo Passos

A crise envolvendo a Previdência dos Servidores Públicos Municipais de Divinópolis entrou em uma fase de disputa narrativa, jurídica, política e atuarial. De um lado, a Prefeitura sustenta que a reforma do Diviprev seria indispensável para evitar colapso financeiro, comprometer salários e atingir serviços essenciais. De outro, servidores e representantes da categoria contestam a forma de condução da proposta, denunciam falta de diálogo real e afirmam que o déficit atuarial vem sendo apresentado à população como se fosse um “rombo” imediato no caixa do instituto.

O Divinews ouviu um advogado com especialização em Direito Previdenciário, que preferiu o anonimato por  ser também servidor do município.  Sua avaliação   ajuda a separar conceitos que, no debate, muitas vezes aparecem misturados: déficit atuarial, rombo financeiro, equilíbrio de longo prazo, contribuição patronal, responsabilidade de gestão e impacto real sobre servidores ativos, aposentados e pensionistas.

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A análise, pelo que ele viu da prestação de contas da Diviprev,  não nega a necessidade de discutir a sustentabilidade do instituto de previdência do servidor. Ao contrário, reconhece que tal previdência exige planejamento sério, cálculos consistentes e medidas capazes de garantir o pagamento futuro dos benefícios. O ponto central, porém, está na forma como a reforma vem sendo apresentada e conduzida. Para o advogado, transformar déficit atuarial em sinônimo de rombo imediato pode alarmar a população e jogar a opinião pública contra os servidores.

O tal “rombo” foi retratado pelo secretário de Fazenda, Gabriel Vivas, em entrevista a um outro veículo de comunicação. E ficou por isso mesmo, a fala do secretário. Contudo, o balanço do Diviprev não vê rombo atual, e sim déficit ao longo de décadas.

Déficit atuarial não é o mesmo que rombo financeiro

O especialista/servidor ouvido pelo Divinews fez uma distinção considerada essencial para compreender o debate. Segundo ele, “rombo” e déficit atuarial não significam a mesma coisa. Rombo, na interpretação apresentada, remete a má gestão, desvio, uso indevido ou falta concreta de recursos no caixa. Já o déficit atuarial representa uma projeção técnica de longo prazo, calculada para verificar se o regime próprio terá capacidade de pagar aposentadorias e pensões futuras, bem lá na frente.

A diferença é importante porque o déficit atuarial considera cenários projetados por décadas. Ele estima quanto dinheiro o instituto precisaria ter ou acumular para honrar obrigações futuras com servidores que ainda vão se aposentar, aposentados atuais, pensionistas e dependentes, considerando expectativa de vida, regras previdenciárias, arrecadação, contribuição patronal e evolução da folha.

Na avaliação do advogado, falar em déficit de bilhões como se todo esse valor tivesse que estar disponível imediatamente no caixa do Diviprev distorce a compreensão pública. Previdência trabalha com horizonte de 30, 35 ou 40 anos. Portanto, o enfrentamento do problema precisa ocorrer com responsabilidade, planejamento e visão de longo prazo, não apenas com medidas de efeito imediato.

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Especialista critica uso político do medo

A análise apresentada ao Divinews também critica o que o advogado classificou como tentativa de alarmar a população. Para ele, ao tratar o déficit atuarial como rombo iminente, a gestão municipal corre o risco de colocar moradores contra servidores, como se o funcionalismo fosse responsável direto por uma crise que envolve decisões administrativas, contribuição patronal, política fiscal e gestão previdenciária ao longo dos anos.

Essa crítica toca no coração do conflito atual. Quando a Prefeitura afirma que, sem reforma, serviços essenciais poderão ser comprometidos, o debate ganha dramaticidade. A gestão menciona risco para remédios na UPA, operação tapa-buraco, complemento da merenda escolar e pagamento em dia dos salários.

O advogado ouvido pelo Divinews, porém, alerta que esse tipo de comunicação pode simplificar um problema complexo. Na avaliação dele, a discussão precisa mostrar números, causas, responsabilidades, alternativas e impactos de cada medida. Sem isso, a reforma passa a ser apresentada como escolha única, quando poderia haver outros caminhos de equalização do déficit.

Redução da alíquota patronal entra no centro da discussão

Um dos pontos levantados pelo especialista envolve a contribuição patronal da Prefeitura ao Diviprev. Segundo a análise, a redução da alíquota patronal de 28% para 14%, que foi feita na gestão do prefeito Gleidson Azevedo, com aquiescência da então vice-prefeita, Janete Aparecida, que agora tornou-se a prefeita,  teria colaborado para aumentar a pressão financeira sobre o instituto.

Atualmente existe uma situação deficitária mais grave, é preciso avaliar também a parcela de responsabilidade da própria administração municipal nas decisões que reduziram receitas do fundo. Esse argumento ganha peso porque desloca a discussão. Em vez de tratar o problema como se a solução dependesse apenas de aumento de contribuição, endurecimento de regras ou sacrifício dos servidores, a análise cobra uma revisão da trajetória de financiamento do instituto.

A pergunta central passa a ser: se a Prefeitura reduziu sua participação patronal em algum momento, é justo exigir agora que a conta recaia principalmente sobre servidores ativos, aposentados e pensionistas?

Reforma pode ser necessária, mas precisa ser responsável

A avaliação técnica reconhece que regimes próprios de previdência em todo o país enfrentam dificuldades, especialmente por causa do envelhecimento da massa de servidores, aumento de aposentadorias, queda no número de contribuintes ativos, mudanças demográficas e obrigações de longo prazo.

No entanto, qualquer reforma deve buscar equilíbrio real, com medidas graduais, estudo atuarial transparente, participação dos sindicatos, avaliação de alternativas de financiamento e respeito às regras legais.

O problema não está em discutir a reforma. O problema está em tentar aprová-la com pressa, sem convencimento amplo da categoria e sem debate suficientemente aberto sobre seus efeitos. Previdência não se resolve no grito, nem no trator. Resolve-se com cálculo, transparência, negociação e responsabilidade.

Servidores temem pagar a conta sozinhos

A crise ganhou força porque os servidores municipais enxergam a reforma como ameaça direta à aposentadoria, à renda futura e ao planejamento de vida.

Muitos trabalhadores ingressaram no serviço público com expectativa de regras determinadas. Alguns já se aproximam da aposentadoria após 15, 20, 25 ou 30 anos de contribuição. Para esse grupo, qualquer mudança brusca pode representar sensação de injustiça e quebra de confiança.

A categoria também teme que aposentados passem a contribuir mais, que servidores ativos tenham aumento de idade mínima e que regras de transição não protejam suficientemente quem está próximo de se aposentar.

Na avaliação do advogado ouvido pelo Divinews, essa insegurança não pode ser ignorada. Previdência envolve matemática, mas também envolve confiança. Se o servidor não confia nos números apresentados, a reforma nasce fragilizada politicamente.

Lei Orgânica e participação sindical são pontos sensíveis

Outro ponto citado na análise envolve o rito legal para discussão da reforma. O material encaminhado ao Divinews sustenta que a Lei Orgânica do Município prevê necessidade de ouvir o sindicato representativo da categoria em matérias que alterem regime jurídico e aposentadoria dos servidores, com emissão de parecer opinativo circunstanciado.

Essa discussão reforça a cobrança por formalidade, prazo, transparência e participação efetiva. Para os servidores, não basta a Prefeitura afirmar que conversou. É preciso demonstrar que o rito legal foi respeitado, que os sindicatos tiveram acesso ao projeto, que puderam opinar tecnicamente e que suas contribuições foram consideradas. Se houver dúvida sobre o cumprimento desse caminho, a reforma pode enfrentar desgaste não apenas político, mas também jurídico.

Crítica ao “falso diálogo”

Reuniões segmentadas ou encontros em que a Prefeitura apenas apresenta uma proposta já fechada não configuram negociação real. Para existir diálogo efetivo, a categoria precisa ter possibilidade de discutir, propor alterações, contestar números e avaliar alternativas.

Essa crítica tem sido repetida por servidores e lideranças sindicais. A reclamação não se limita ao conteúdo da reforma. Ela alcança a forma: prazos apertados, informações desencontradas, reuniões consideradas insuficientes e percepção de que a proposta já chegou pronta.

Esse ambiente ajuda a explicar a aprovação do estado de greve e a mobilização dos servidores para ocupar a Câmara Municipal. A categoria quer mostrar que não aceitará apenas assistir à tramitação de um projeto que afeta seu futuro.

Sacrifício mais amplo

Na avaliação apresentada ao Divinews, uma reforma previdenciária dura exigiria sacrifício mais amplo do poder público, não apenas dos servidores de carreira. Medidas como enxugamento de cargos comissionados, revisão de gastos do alto escalão, estudo sobre bens municipais que poderiam reforçar o fundo previdenciário, vinculação de receitas específicas, alienação planejada de ativos e fortalecimento da arrecadação municipal.

A lógica é simples: se o Diviprev enfrenta uma situação tão grave, a solução deveria envolver esforço institucional de todo o município, e não apenas aumento de contribuição ou mudança de regra para servidores.

Essa abordagem amplia o debate. Em vez de restringir a solução à folha de pagamento, coloca na mesa patrimônio público, receita municipal, gestão de despesas, reforma tributária local, combate à sonegação e políticas de atração de empresas.

Prefeitura fala em escolha sem escolha

Do lado da administração municipal, a prefeita Janete Aparecida já afirmou ao Divinews que a reforma é uma decisão difícil, mas necessária para tentar salvar o Diviprev.

Segundo a prefeita, o instituto estaria à beira do colapso. Ela argumenta que, sem mudança, o município poderá comprometer serviços essenciais e até a capacidade de manter salários em dia.

Janete também sustenta que a situação foi explicada aos sindicatos e que a escolha do município, hoje, seria “não ter escolha”. Para ela, deixar de fazer a reforma significaria prejudicar cerca de 240 mil habitantes.

Essa posição revela a estratégia do Executivo: apresentar a reforma como medida inevitável de proteção do interesse coletivo.

O desafio da Prefeitura, entretanto, será provar tecnicamente essa inevitabilidade e convencer servidores de que a proposta não apenas transfere a conta para quem trabalha ou já trabalhou pelo município.

Câmara será o palco decisivo

Com a crise instalada, a Câmara Municipal passa a ocupar papel central. Qualquer reforma previdenciária dependerá de votação legislativa. Isso coloca os vereadores sob pressão de 2 lados. De um lado, a Prefeitura cobra responsabilidade fiscal e aprovação de medidas para reequilibrar o Diviprev. De outro, servidores cobram defesa de direitos, transparência e rejeição a mudanças consideradas abusivas.

A presença da categoria nas sessões tende a aumentar o custo político da votação. Cada vereador precisará explicar sua posição, especialmente se a tramitação avançar em ritmo acelerado.

O Legislativo também pode decidir se será apenas carimbador da proposta do Executivo ou se assumirá papel de mediador, exigindo estudos, audiências, pareceres, participação sindical e debate público mais profundo.

Guerra de narrativas

A situação do Diviprev não comporta simplificações. Se há déficit atuarial, ele precisa ser explicado com clareza. Se houve decisões administrativas que reduziram receitas, elas precisam ser examinadas. Se a reforma é necessária, a Prefeitura deve demonstrar por que, em quais pontos, com quais impactos e quais alternativas descartou. Se os servidores serão afetados, a categoria tem direito de saber como e por quanto tempo.

A sustentabilidade da previdência é inadiável, mas não pode ser construída sob medo, atropelo ou comunicação distorcida. O tema exige seriedade porque envolve o futuro de milhares de famílias e a estabilidade financeira do município. Uma reforma mal conduzida pode até produzir ganho imediato de caixa, mas deixar cicatrizes jurídicas, políticas e sociais profundas.

Diviprev exige transparência, técnica e coragem administrativa

A crise previdenciária de Divinópolis chegou a um ponto em que nenhuma das partes pode fingir que o problema não existe. A Prefeitura precisa enfrentar o déficit. Os servidores precisam participar do debate. A Câmara precisa cumprir seu papel institucional. Os sindicatos precisam apresentar contrapontos técnicos. E a população precisa receber informação clara, sem terrorismo fiscal e sem romantização do problema.

A análise ajuda a colocar ordem no debate: déficit atuarial não é rombo imediato, reforma previdenciária precisa mirar o longo prazo e servidores não podem ser tratados como responsáveis únicos por uma conta que envolve decisões de gestão, financiamento público e política previdenciária municipal. O Diviprev pode precisar de reforma. Mas Divinópolis precisa, antes de tudo, de verdade técnica, transparência pública e respeito a quem sustenta a máquina municipal.

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