A eleição de 2026 ainda não chegou oficialmente, mas o PL em Minas Gerais já entrou em uma espécie de labirinto político. A legenda sabe que precisa montar um palanque forte para Flávio Bolsonaro no segundo maior colégio eleitoral do país, mas ainda não sabe se abraça o governador Mateus Simões, se compõe com Cleitinho Azevedo, líder nas pesquisas ou se tenta lançar nome próprio ao Palácio Tiradentes. Nesse cenário, o partido passa a imagem de quem corre de um lado para o outro, mais perdido que cachorro em mudança, sem conseguir bater o martelo sobre o caminho mais seguro.
A política mineira sempre teve peso decisivo nas disputas nacionais. Minas conversa com diferentes campos, mistura interior, região metropolitana, agronegócio, indústria, funcionalismo, evangélicos, conservadores, centro político e eleitorado pragmático. Por isso, nenhum projeto presidencial competitivo ignora o estado. Quem deseja chegar ao Planalto precisa ter palanque organizado em Minas, discurso afinado e aliados capazes de pedir voto sem constrangimento.
Esse é justamente o problema do PL. O partido tem um nome nacional em construção, Flávio Bolsonaro, mas ainda não conseguiu resolver o quebra-cabeça estadual. A legenda tenta equilibrar interesses locais, ressentimentos de 2022, ambições de lideranças mineiras e a necessidade de evitar que a direita chegue novamente fragmentada ao primeiro turno.
A acontece terça-feira (12), em Brasília, busca destravar esse impasse. O encontro deve reunir nomes nacionais e estaduais do PL para discutir alianças, candidatura própria e a formação do palanque de Flávio Bolsonaro em Minas Gerais. A articulação envolve o presidente nacional Valdemar Costa Neto, o senador Rogério Marinho, Flávio Bolsonaro, Domingos Sávio, Nikolas Ferreira, Zé Vitor, Flávio Roscoe, Vittorio Medioli e outros interlocutores da sigla.
Três caminhos e nenhuma decisão
O PL mineiro trabalha hoje com 3 possibilidades principais. A primeira seria apoiar a reeleição do governador Mateus Simões, do PSD. A segunda seria fechar uma aliança com o senador Cleitinho Azevedo, do Republicanos, caso o parlamentar confirme entrada na disputa pelo governo de Minas. A terceira seria lançar candidatura própria ao Palácio Tiradentes.
O problema é que cada caminho carrega vantagens e riscos. Mateus Simões tem a máquina estadual, a herança administrativa de Romeu Zema e o discurso de continuidade. No entanto, Zema também aparece como pré-candidato à Presidência da República, o que complica a construção de um palanque totalmente fiel a Flávio Bolsonaro.
Cleitinho, por sua vez, tem apelo popular, comunicação direta e forte presença nas redes sociais. Dentro do PL, há quem reconheça sua força eleitoral, mas também existem incômodos com posições do senador em pautas vistas como mais próximas do campo do governo Lula, como a defesa do fim da escala 6×1.
Já a candidatura própria agrada quem deseja preservar a identidade do PL em Minas. Porém, essa alternativa exige nome competitivo, estrutura, tempo de rua e capacidade de unificar o bolsonarismo no estado. E é justamente aí que o partido parece tropeçar.
O fantasma de 2022 ainda pesa
A preocupação da direção nacional do PL não nasce do nada. Em 2022, a direita chegou dividida em Minas. Romeu Zema caminhou separado de Jair Bolsonaro no primeiro turno e só declarou apoio ao ex-presidente no segundo turno. Esse histórico ainda pesa nas conversas internas e cria resistência a uma aliança automática com o grupo de Zema.
Para o PL, repetir esse erro pode custar caro. Minas tem peso eleitoral enorme e pode definir o tamanho da vantagem ou da desvantagem de um candidato presidencial. Um palanque ambíguo, dividido ou sem comando claro pode enfraquecer a campanha de Flávio Bolsonaro logo no estado onde ele mais precisaria demonstrar força.
Por isso, a legenda vive uma contradição. Quer união, mas não sabe com quem. Quer identidade própria, mas teme isolamento. Quer palanque forte, mas ainda flerta com alternativas que competem entre si.
É nesse ponto que a expressão popular cabe com precisão. O PL em Minas parece mais perdido que cachorro em mudança porque olha para Mateus Simões, calcula Cleitinho, testa candidatura própria, escuta Roscoe, avalia Medioli e ainda tenta preservar o projeto nacional de Flávio.
Cleitinho segue como peça incômoda e indispensável
O senador Cleitinho Azevedo ocupa uma posição delicada nesse tabuleiro. Mesmo filiado ao Republicanos, aparece como nome com apelo popular e capacidade de dialogar com uma base conservadora e antipetista. Para o PL, ignorá-lo pode significar abrir mão de um ativo eleitoral importante.
Domingos Sávio, presidente estadual do PL em Minas, adotou tom amistoso ao falar de Cleitinho. Disse manter relação de amizade com o senador e o classificou como popular, generoso e alguém que deseja fazer o bem. Ao mesmo tempo, a reportagem registra que setores do partido demonstram incômodo com algumas posições do parlamentar.
Essa ambiguidade revela o tamanho do dilema. O PL sabe que Cleitinho pode ajudar Flávio Bolsonaro em Minas. Mas também sabe que apoiar o senador ao governo pode significar abrir mão de uma candidatura própria ou de uma composição com a estrutura do atual governo estadual.
Cleitinho, por sua vez, já sinalizou que apoiará Flávio Bolsonaro mesmo se o PL não apoiar sua eventual candidatura ao governo mineiro. Essa postura deixa a legenda em situação ainda mais desconfortável, porque o senador tenta se mostrar leal ao projeto nacional sem depender da chancela estadual do partido.
Simões tem estrutura, mas carrega Zema na bagagem
Mateus Simões aparece como opção natural para setores que defendem continuidade administrativa em Minas. O governador tem a máquina, o cargo e o argumento de estabilidade. No entanto, sua ligação direta com Romeu Zema atrapalha uma aproximação limpa com o PL.
Zema tenta se viabilizar nacionalmente. Se mantiver esse projeto, a aliança entre PL e Simões pode virar um palanque confuso, com um governador ligado a um grupo que também pretende disputar espaço contra Flávio Bolsonaro na corrida presidencial.
Domingos Sávio tentou tratar esse ponto com prudência. Afirmou que Mateus Simões comunga com princípios do grupo, mas destacou o problema político de Zema ter projeto presidencial e de o PSD também ter movimentações próprias.
Na prática, o PL enxerga Simões como aliado possível, mas não totalmente seguro. O partido teme construir um palanque em Minas que, no momento decisivo, não entregue a fidelidade necessária ao candidato presidencial da legenda.
Candidatura própria vira plano de emergência
A terceira alternativa em debate é lançar candidatura própria ao governo de Minas. Dentro do PL, os nomes mais citados são de Vittorio Medioli e Flávio Roscoe. Ambos, mesmo sem voto e apelo popular algum passaram a ser tratados como opções diante da dificuldade de construir consenso com PSD e Republicanos.
Essa saída pode resolver o problema da identidade partidária, mas cria outro desafio. O PL precisaria transformar uma candidatura própria em projeto viável, com densidade eleitoral, discurso regional, alianças e presença no interior. E o prazo já incomoda lideranças da legenda.
Domingos Sávio reconheceu que o tempo ficou curto. Segundo o parlamentar, caso o nome seja Roscoe ou Medioli, a decisão precisa ocorrer agora. Apesar disso, rejeitou a ideia de que o partido esteja em cima do muro e afirmou que a legenda trata o caso com prudência.
A frase tenta organizar o discurso, mas a realidade política mostra outro cenário. Quando um partido precisa dizer que não está em cima do muro, geralmente é porque muita gente já percebeu o muro.
Nikolas, Domingos Sávio e a disputa pelo comando político
O impasse também passa pela reorganização interna do PL mineiro. Nikolas Ferreira afirma ter sido escolhido por Jair Bolsonaro para conduzir as negociações da sigla no estado. Já Domingos Sávio, presidente estadual, segue como figura central nas conversas e trabalha para aproximar Zema e Flávio Bolsonaro.
Além disso, Zé Vitor deve assumir o comando do diretório estadual para permitir que Domingos Sávio se dedique à pré-campanha ao Senado. A movimentação mostra que a disputa de 2026 envolve não apenas o governo estadual, mas também o Senado, a bancada federal, o controle partidário e a montagem de palanques regionais.
No fundo, cada decisão afeta outra. Se o PL apoiar Simões, muda a composição ao Senado. Se apoiar Cleitinho, altera a relação com Zema e PSD. Se lançar candidatura própria, precisa organizar palanque, vice, tempo, discurso e estrutura.
Por isso, a legenda tenta bater o martelo, mas parece segurar vários martelos ao mesmo tempo.
PL precisa decidir se quer protagonismo ou carona
O dilema central do PL em Minas é simples, mas politicamente incômodo. O partido precisa decidir se quer protagonismo estadual ou apenas uma carona segura para Flávio Bolsonaro.
Apoiar Mateus Simões pode oferecer estrutura, mas cobra o preço da convivência com o projeto nacional de Zema. Apoiar Cleitinho pode garantir apelo popular, mas reduz o controle direto do PL sobre a candidatura ao governo. Lançar Roscoe ou Medioli preserva a marca partidária, mas exige uma construção eleitoral difícil e rápida.
Enquanto isso, o eleitor acompanha um partido que fala em prudência, mas transmite indefinição. E na política, indefinição prolongada pode virar fraqueza pública.
Minas exige clareza. O eleitor mineiro costuma observar com atenção quem tem rumo, quem tem palavra, quem tem grupo e quem apenas tenta se acomodar na melhor canoa. Até agora, o PL parece olhar para todas as margens ao mesmo tempo, sem decidir em qual rio pretende navegar.
A reunião em Brasília pode até produzir um encaminhamento. Mas, até que o martelo bata de fato, a fotografia política é uma só: o PL mineiro tenta montar o palanque de Flávio Bolsonaro, mas segue mais perdido que cachorro em mudança.
Cleitinho






