A greve dos motoristas do transporte coletivo de Divinópolis ganhou um novo capítulo no fim da tarde desta sexta-feira (18). Em nova assembleia, os trabalhadores decidiram manter a paralisação ao menos até a próxima quarta-feira (22), data marcada para audiência de conciliação no Tribunal Regional do Trabalho. A decisão saiu depois de uma reunião entre diretores do consórcio Transoeste e o presidente do Sinttrodiv, Erivaldo Adami, quando foi informado que o sindicato patronal havia recebido uma liminar determinando o retorno de 60% da operação, sob pena de multa diária de R$ 30 mil para cada entidade sindical.
O ponto central da confusão estava justamente aí. Naquele momento, segundo o próprio sindicato dos trabalhadores, o Sinttrodiv ainda não havia sido formalmente intimado da decisão. O advogado Wesley, que representa a entidade laboral, afirmou que o sindicato só tomou conhecimento da liminar na mesa de negociação convocada pelo consórcio e que, até então, não havia recebido comunicação oficial por e-mail, WhatsApp, ligação ou qualquer outro meio.
Segundo Wesley, a decisão apresentada pelo patronal determinava que o transporte voltasse a operar com 60% das linhas, sob pena de multa diária de R$ 30 mil tanto para o sindicato dos trabalhadores quanto para a entidade patronal. Ele também confirmou que a audiência de conciliação foi marcada para o dia 22 de abril no próprio tribunal, mas reforçou que, até aquele instante, o Sinttrodiv não considerava formalmente iniciado o prazo para cumprimento da liminar, justamente por não ter sido oficialmente intimado.
Na assembleia, Erivaldo Adami relatou aos trabalhadores que Fernando, ligado ao consórcio, apenas reafirmou a proposta apresentada pela prefeita mais cedo e já rejeitada pela categoria. Segundo ele, não houve qualquer contraproposta nova, apesar da tentativa de arrancar algum avanço na negociação. A proposta ratificada, conforme dito na reunião, era de salário de R$ 3.180 e R$ 800 no tíquete.
A frustração com essa falta de avanço foi determinante para a decisão dos trabalhadores. Um dos integrantes da comissão resumiu o sentimento da categoria ao dizer que o consórcio se manteve irredutível e apenas repetiu os valores já recusados. Quando a pergunta foi feita em assembleia, a resposta veio em coro: a proposta não foi aceita. E, sem proposta nova, a greve foi mantida.
Outro trabalhador, identificado como Aguinaldo Mendonça, reforçou que a assembleia terminou da mesma forma que começou. Segundo ele, como Fernando não apresentou nenhuma proposta nova além daquela já levada pela prefeita, a categoria não aceitou e a greve continua.
No calor da assembleia, o sindicato deixou claro que orientava juridicamente o cumprimento da decisão do tribunal, mas que a manutenção do movimento paredista partia da vontade soberana dos trabalhadores. Erivaldo fez questão de repetir que o sindicato precisava esclarecer o risco da multa, mas que não podia obrigar ninguém a voltar ao trabalho sem que a categoria aceitasse a proposta. Também afirmou que greve não é brincadeira, que é fácil entrar e difícil sair, e que a entidade continuaria dando assistência na medida do possível, desde que ficasse claro que a escolha pela permanência da paralisação era dos trabalhadores, e não uma imposição do sindicato.
Na prática, a leitura feita pela categoria foi a seguinte: como o Sinttrodiv ainda não havia sido formalmente intimado, os trabalhadores entenderam que poderiam manter a greve até o dia 22, quando o TRT tentará uma conciliação. Um motorista ouvido no local resumiu essa posição ao afirmar que, enquanto a liminar não chegasse oficialmente ao sindicato, a paralisação seguiria dentro daquilo que eles entendiam estar amparado pela lei.
Mas o cenário mudou pouco tempo depois. Já após a assembleia, um oficial de justiça apareceu no local e deu ciência formal da decisão, primeiro à Polícia Militar e, em seguida, ao próprio Sinttrodiv. Ao explicar o teor da liminar, o oficial leu a determinação de que o sindicato garantisse a presença de 60% dos empregados necessários à prestação do serviço de transporte coletivo, além de se abster de atos que pudessem colocar em risco a integridade física e moral dos trabalhadores, impedir a entrada e saída de quem quisesse trabalhar ou barrar a circulação dos veículos da frota.
A decisão também fixou multa diária de R$ 30 mil em caso de descumprimento e marcou a audiência de conciliação para quarta-feira (22), às 10h, por videoconferência. O próprio oficial destacou que, por se tratar de serviço essencial, a liminar precisava ser encaminhada também à Prefeitura, à Polícia Militar e ao Ministério Público do Trabalho.
Depois de receber formalmente a intimação, o sindicato passou a reconhecer que, a partir dali, ficava sujeito à multa caso a determinação judicial não fosse cumprida. Ainda assim, o discurso seguiu no sentido de que a decisão dos trabalhadores pela greve havia sido tomada antes da ciência formal e que a assessoria jurídica estudaria recurso para tentar derrubar ou modificar a liminar.
O que ficou desenhado no fim do dia foi um cenário de impasse total. De um lado, o consórcio ratificou a proposta rejeitada e não avançou um centímetro. Do outro, os trabalhadores mantiveram a paralisação até o dia 22, apostando na audiência de conciliação e numa eventual proposta melhor. No meio, surgiu a liminar do TRT, inicialmente conhecida apenas pelo patronal e só formalizada ao sindicato laboral depois da assembleia.
Com isso, a greve dos ônibus em Divinópolis entrou oficialmente em uma nova fase: agora, além da pressão política e social sobre a cidade, existe também uma disputa judicial com multa pesada no horizonte e uma audiência marcada para tentar destravar um conflito que, até aqui, segue sem solução.
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