Divinópolis talvez seja uma das poucas cidades de Minas onde a política, de vez em quando, faz algo que parece impossível no resto do país: obriga adversários políticos com ideológias totalmente díspares a dividir a mesma fotografia sem que um tente rasgar o retrato do outro.
De um lado, está a família Azevedo, que em menos de uma década saiu da borda do mapa político para o centro do tabuleiro mineiro. Cleitinho já tem a candidatura ao governo tratada como projeto do Republicanos, Gleidson deixa a prefeitura para buscar uma vaga na Câmara dos Deputados, e Eduardo entra em 2026 como candidato à reeleição na Assembleia. É uma engrenagem familiar, regional e ambiciosa, dessas que não pedem licença para existir.
Do outro lado, Gleide Andrade ocupa um posto central no PT nacional, justamente na secretaria de Planejamento e Finanças. Seu campo político é o de Lula, Haddad, Gleisi e, em Minas, de uma aliança mais próxima de Rodrigo Pacheco do que de Mateus Simões. Isso não é detalhe. É identidade. É lado. É trincheira.
E, no entanto, quando o assunto vira Hospital Regional de Divinópolis, a cidade parece pedir uma trégua à ideologia. A obra avançou por várias mãos: o governo Zema sancionou a lei de doação do imóvel à UFSJ; Lohanna França foi autora do projeto, mas a dupla quer esconder, que autorizou a transferência; Gleidson e Gleide atuaram juntos em Brasília na defesa da solução federal; e o anúncio do início de funcionamento foi vendido como conquista institucional ampla. Em Divinópolis, portanto, a matemática da política virou soma onde, em tese, só caberia subtração.
É aí que a cidade entende. O divinopolitano olha para a cena e pensa: “Se for para o hospital abrir, que deem as mãos, tirem foto, façam vídeo, postem o que quiserem.” Em Divinópolis, o pragmatismo costuma vencer a liturgia ideológica quando a pauta é concreta. Leito fala mais alto que slogan. Cirurgia pesa mais que rótulo. E talvez por isso essa convivência improvável, meio civilizada, meio desconfiada, ainda seja tolerável por aqui.
Mas a eleição de deputado federal não será decidida só em Divinópolis. Minas tem 853 municípios. A pergunta, então, não é se Divinópolis aceita esse arranjo. A pergunta é se os outros 852 aceitarão.
Fora de Divinópolis o amor à cidade pode perde potência e a ideologia voltar a cobrar pedágio
Como o eleitor bolsonarista mais duro de cidader distantes vai ler a proximidade política circunstancial entre uma dirigente petista que representa, institucionalmente, o lulismo, e um grupo político que construiu sua identidade combatendo Lula, o PT e a esquerda? O histórico de enfrentamento existe. Em 2023, o próprio PT de Minas denunciou Gleidson por ofensas dirigidas a Lula. Não se trata, portanto, de divergência suave. Trata-se de antagonismo público e documentado.
E, do outro lado, como a militância petista mais aguerrida recebe a ideia de que uma liderança nacional do partido possa dividir o mérito de uma conquista local com um clã que simboliza, em Divinópolis, uma direita ruidosa, popular e agressiva nas redes? O discurso republicano até funciona quando o palco é o Hospital Regional. A dúvida é se ele sobrevive quando o palanque for de campanha.
No fundo, essa aproximação não se sustenta apenas no amor por Divinópolis, embora esse argumento exista e tenha apelo real. Há também cálculo. Há geografia eleitoral. Há conveniência. E há um ingrediente político que salta aos olhos: a disputa pelo crédito do Hospital Regional. Lohanna França é autora do projeto de lei que viabilizou a doação à UFSJ e comemorou publicamente a sanção; ainda assim, ficou fora de atos em que aliados de Zema e dos Azevedo ocuparam o centro da cena. Isso sugere que, para setores distintos da direita local e da esquerda petista local, interessa muito que o hospital seja lembrado como conquista de quem está hoje no tabuleiro federal, e não como troféu exclusivo da deputada que também mira Brasília.
Em português claro: o namoro republicano tem afeto por Divinópolis, sim, mas também tem ciúme político. E talvez mais do que ciúme, tenha medo de dar à adversária o monopólio da maternidade de uma obra tão simbólica.
É por isso que a cena é bonita e incômoda ao mesmo tempo. Bonita porque mostra que, diante de uma causa grande, a política ainda pode simular maturidade. Incômoda porque revela que até a maturidade pode ter cálculo por trás.
Divinópolis, talvez, perdoe essa contradição. A cidade já esperou demais por esse hospital para perder tempo fiscalizando pureza ideológica. O problema é que a campanha estadual e federal não será feita apenas com o coração de Divinópolis. Ela passará por cidades onde o eleitor verá menos hospital e mais contradição. Menos pacto local e mais incoerência nacional. Menos pragmatismo e mais traição simbólica ao próprio campo.
No fim, a pergunta não é se Gleide e os Azevedo conseguem posar juntos em nome da cidade. Conseguem. Já conseguiram.
A pergunta é outra: quando a urna se espalhar por Minas, esse idílio entre petismo e bolsonarismo municipal será lido como maturidade republicana ou como conveniência de ocasião?
Veja os Instagram de ambos
Nos perfis e posicionamentos públicos dos dois lados, o contraste ideológico aparece com nitidez. De um lado, Gleide Andrade, dirigente nacional do PT, se apresenta vinculada ao campo lulista e a uma militância de confronto direto com nomes da direita mineira e nacional, como contra, principalmente Bolsonaro, Romeu Zema, Nikolas Ferreira, Mateus Simões, Tarcisio de Freitas, De outro lado, Gleidson Azevedo construiu imagem pública associada ao bolsonarismo e já virou alvo formal do PT mineiro por declarações ofensivas contra Lula, inclusive quando o partido registrou queixa após o prefeito relacionar a violência em Divinópolis ao presidente e chamá-lo de “ladrão”. Esse abismo de linguagem e de trincheira ajuda a explicar por que a aproximação em torno de Divinópolis e do Hospital Regional pode soar pragmática para a cidade, mas tende a parecer contraditória, e até indigesta, para militantes e eleitores mais radicalizados de PT e Novo fora daqui.






