Nesta quarta-feira (08), ao completarmos mais um aniversário de uma das datas mais dramáticas da história democrática recente o 8 de janeiro, e é impossível não refletir sobre como cidadãos de bem, muitos com histórico ilibado em diversas partes do Brasil, foram levados a acreditar em uma narrativa golpista que jamais teve sustentação.
Em cidades de todos os portes, inclusive em Divinópolis (MG), há imagens e relatos que nunca deveriam existir: adultos se reunindo em frente a quartéis, acampando por dias a fio, fazendo orações, marchas e até cultos em nome de uma promessa que não veio uma intervenção militar que justificaria a anulação de resultados eleitorais.
O Divinews acompanhou esses episódios de perto no ano anterior, documentando cenas que hoje reverberam com peso histórico.
Acampamento em frente ao Tiro de Guerra (Divinópolis)
No final de novembro de 2022, bolsonaristas mantiveram um acampamento contínuo em frente ao Tiro de Guerra de Divinópolis, em um ambiente de euforia e expectativa.
O Divinews registrou inclusive um momento no qual os manifestantes — já em êxtase — prestaram um verdadeiro culto a dois caminhões do Exército brasileiro que passavam pela via, exaltando a presença dos veículos como se fossem sinais místicos ou promessa de algo iminente. A expressão “Aleluia, glória a Deus” chegou a ser entoada diante das máquinas, em um vídeo que viralizou localmente na época.
Poucos dias antes, em 25 de novembro de 2022, o mesmo acampamento promovia marchas e orações com pedidos explícitos de intervenção militar, rejeição à Copa do Mundo e clamores por um golpe. Imagens publicadas pelo Divinews mostravam os manifestantes fazendo orações junto à rodovia, portando faixas e entoando palavras de ordem contrárias ao Estado Democrático de Direito.
E a promessa do golpe? Nunca aconteceu…
Enquanto parte desses manifestantes depositava fé em uma intervenção que jamais foi anunciada oficialmente pelos comandantes das Forças Armadas, a situação escalou em 8 de janeiro de 2023 com um dos episódios mais vergonhosos da história republicana recente: atos de vandalismo contra as sedes dos Três Poderes em Brasília — o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto.
O Divinews também cobriu esse momento, registrando vídeos de bolsonaristas de Divinópolis que se deslocaram até a capital federal — muitos vindos das manifestações anteriores em frente ao Tiro de Guerra, e participaram dos atos de violência contra símbolos máximos da república.
O saldo foi de milhares de pessoas feridas, dezenas de milhões em prejuízo material e centenas de prisões e processos, muitos dos quais envolvendo cidadãos que até então nunca tinham antecedentes criminais.
O silêncio que se tornou palavra
Após o fracasso do golpe que jamais foi declarado por nenhuma autoridade militar ou constitucional, o próprio Jair Bolsonaro — cuja narrativa foi central para alimentar as expectativas desses cidadãos — chegou a chamar seus apoiadores mais exaltados de “bando de malucos”, em um episódio que simboliza bem a desumanidade com a qual tantos foram tratados.
Pessoas que acreditaram, que sacrificaram tempo, trabalho, família, que atravessaram estados inteiros em viagens caras, que expuseram seus nomes em redes sociais e órgãos públicos… foram, em última instância, descartadas e ridicularizadas pelo chefe máximo de uma campanha que os havia motivado.
O Divinews lamenta profundamente
Não se trata aqui de relativizar a gravidade dos atos antidemocráticos. Muito pelo contrário. É preciso que se diga com clareza:
a integridade das instituições e a proteção da democracia são inegociáveis.
Mas também é necessário acompanhar a trajetória humana por trás disso tudo:
cidadãos manipulados, alimentados por uma narrativa golpista sem base fática, que lhes prometeu algo que não veio, e que, em muitos casos, hoje enfrentam processos penais, restrições legais e estigma social.
Em Divinópolis, como em tantas outras cidades, o episódio deixou marcas profundas:
• acampamentos em ruas e praças;
• cultos improvisados a máquinas militares;
• marchas com pedidos por intervenção;
• deslocamentos a Brasília para atos violentos;
• processos e prisões que ainda continuam.
Alguns ainda hoje defendem essas práticas, mas a maioria das pessoas comuns que foram lá não buscava conflito, queriam respostas, acreditavam em uma promessa e seguiram um discurso político sem saber onde isso os levaria.
Relembrar é um dever civil
Relembrar o 8 de janeiro e as semanas que o antecederam não é revanchismo.
É memória política, é responsabilização histórica e é também alerta para que narrativas enganosas não transformem cidadãos de bem em massa de manobra.
A democracia não vive apenas na Constituição ou nos tribunais. Ela vive na consciência e na proteção dos mais vulneráveis, inclusive daqueles que foram levados a acreditar que um golpe era possível, legítimo ou desejável.






















