Divinópolis: Direção do São João de Deus esclarece envolvimento de ex-profissionais após Justiça condenar empresários por propinas em cirurgias

Após reportagem do jornalista Lucas Ragazzi, publicada pelo portal O Fator, sobre condenação de empresários por pagamentos indevidos a médico entre 2011 e 2015, a direção do Complexo de Saúde São João de Deus afirma que os profissionais mencionados não integram mais seu corpo clínico, destaca a mudança de gestão ocorrida em 2016 e defende a idoneidade dos atuais procedimentos administrativos e assistenciais; e cobra ética jornalistica

Publicado por: Geraldo Passos

A direção do Complexo de Saúde São João de Deus (CSSJD), em Divinópolis, veio a público contestar a forma como a instituição foi relacionada a uma reportagem publicada nesta segunda-feira (19) pelo jornalista Lucas Ragazzi, do portal O Fator, sobre um esquema de pagamento de propinas envolvendo o fornecimento de órteses, próteses e materiais especiais utilizados em cirurgias, inclusive pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A publicação teve como base uma decisão da Justiça Federal que condenou dois empresários da distribuidora Signus do Brasil por repasses de aproximadamente R$ 524 mil ao médico Augusto Lima Filho, realizados por meio da empresa Angiolab Sociedade Médica, entre 2011 e 2015. O profissional também foi denunciado, mas firmou acordo de não persecução penal com o Ministério Público Federal. Em manifestação pública, a atual direção do São João de Deus representada pela CEO, Elis Regina Guimarães, ao lado dos diretores André Waller e Amarildo Souza,  esclareceu que assumiu a administração no final de 2016, que os profissionais envolvidos não integram mais seu corpo clínico e que a instituição não foi condenada pelos fatos. O posicionamento também reacende a discussão sobre a importância do contraditório e da contextualização de informações em reportagens baseadas em decisões judiciais.

Reportagem do O Fator abordou condenação por pagamentos de propinas

A reportagem publicada pelo jornalista Lucas Ragazzi, do portal O Fator, em 19 de outubro, revelou detalhes de uma sentença proferida pela juíza federal Gabriela de Alvarenga Silva Lipienski, da 3ª Vara Federal Criminal de Belo Horizonte, envolvendo a chamada “máfia das próteses”. A decisão condenou por corrupção ativa os empresários Marcello Telles de Souza Júnior, sócio-administrador da distribuidora de produtos médicos Signus do Brasil, e Marcos Flávio de Moura Barbosa, representante comercial da empresa. Segundo a Justiça, os dois realizaram 46 pagamentos que totalizaram aproximadamente R$ 524 mil ao médico Augusto Lima Filho, entre janeiro de 2011 e janeiro de 2015, em contrapartida à utilização de materiais médicos em procedimentos realizados nos hospitais São João de Deus, em Divinópolis, e Ibiapaba, em Barbacena. Parte das cirurgias era custeada pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Continua depois da publicidade

O esquema investigado envolvia o fornecimento de órteses, próteses e materiais especiais utilizados em procedimentos cardiovasculares. Conforme a sentença relatada pelo O Fator, Augusto Lima Filho, que chefiava o serviço de hemodinâmica dos dois hospitais, recebia os repasses por meio da Angiolab Sociedade Médica, empresa da qual era sócio-administrador. Para justificar as transferências financeiras, a Angiolab emitiu 46 notas fiscais referentes a supostos serviços de intermediação e, posteriormente, de biomedicina. Os empresários reconheceram, em seus depoimentos, que esses serviços não haviam sido efetivamente prestados. Os pagamentos variavam conforme a quantidade de procedimentos realizados com materiais fornecidos pela Signus.

A decisão judicial estabeleceu pena de um ano, um mês e dez dias para cada empresário, em regime inicialmente aberto, posteriormente substituída por penas restritivas de direitos, incluindo prestação de serviços à comunidade e pagamento de cinco salários mínimos. A redução das penas ocorreu em razão dos acordos de colaboração firmados com o Ministério Público Federal. Já o médico Augusto Lima Filho, denunciado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, firmou acordo de não persecução penal com o MPF em 2021, deixando de responder à ação criminal mencionada. Os empresários ainda podem recorrer da condenação.

Direção do São João de Deus esclarece que fatos ocorreram antes da atual gestão

Diante da repercussão da reportagem, a direção do Complexo de Saúde São João de Deus divulgou uma manifestação pública para esclarecer a relação entre os acontecimentos investigados e a administração que atualmente conduz o hospital.

A diretora executiva e CEO, Elis Regina Guimarães, ressaltou que os fatos mencionados no processo ocorreram entre 2011 e 2015, enquanto a atual gestão assumiu suas funções somente no final de 2016.

Segundo a dirigente, a administração atual não participou dos acontecimentos investigados e não seria adequado associar os fatos daquele período aos procedimentos atualmente adotados pelo complexo hospitalar.

Elis Regina também afirmou que o nome da instituição não aparece entre os responsáveis pelas condutas denunciadas, embora procedimentos realizados no hospital sejam mencionados no contexto da investigação.

Continua depois da publicidade
Profissionais citados não pertencem mais ao corpo clínico da instituição

Um dos principais esclarecimentos apresentados pela direção diz respeito ao vínculo dos profissionais mencionados na investigação judicial. Na manifestação gravada, um representante do complexo hospitalar afirmou que os profissionais envolvidos nos acontecimentos daquele período já não integram o corpo clínico do São João de Deus.

A informação é particularmente relevante porque permite diferenciar a atuação de profissionais vinculados à instituição há mais de uma década da realidade administrativa e assistencial atual. A direção também ressaltou que os processos de aquisição de materiais hospitalares seguem procedimentos internos de conformidade e mecanismos de controle.

A declaração da instituição não altera o conteúdo da sentença judicial, mas acrescenta informações sobre a situação atual dos profissionais e sobre a administração do hospital.

CEO destaca mecanismos de compliance e transparência nas compras

Elis Regina Guimarães também procurou demonstrar que o São João de Deus adota procedimentos destinados a assegurar a regularidade das compras e das atividades administrativas. A dirigente citou o programa de compliance, expressão utilizada para designar o conjunto de normas, controles e procedimentos voltados ao cumprimento das obrigações legais e institucionais.

Segundo ela, o complexo mantém um portal de transparência com informações sobre seus processos de aquisição, além de mecanismos de acompanhamento das atividades administrativas e assistenciais. A existência desses instrumentos foi apresentada pela direção como parte do compromisso da atual gestão com a integridade. A manifestação, entretanto, não substitui eventual auditoria ou verificação independente dos procedimentos mencionados.

Hospital destaca importância regional e volume de atendimentos

A CEO também ressaltou a dimensão assistencial do Complexo de Saúde São João de Deus e sua importância para Divinópolis e para municípios da região. Na manifestação, Elis Regina afirmou que a instituição atende uma população de referência de aproximadamente 1,3 milhão de pessoas e realiza mais de 1,5 milhão de atendimentos, conforme os números apresentados pela administração.

A dirigente relacionou esses dados à necessidade de preservar a confiança dos pacientes, dos profissionais e da população na assistência prestada pelo complexo hospitalar.

A preocupação manifestada pela direção está relacionada ao risco de que acontecimentos antigos, envolvendo profissionais que já não integram a instituição, sejam interpretados como reflexo das condições atuais de funcionamento do hospital.

Direção critica notícias que considera sensacionalistas e defende a imagem do hospital

O posicionamento divulgado pela direção do São João de Deus também apresenta críticas à forma como determinadas notícias envolvendo a instituição são divulgadas. Em outro trecho da manifestação, um representante do complexo hospitalar afirma que a instituição repudia publicações consideradas inverídicas ou sensacionalistas, especialmente quando, na avaliação da direção, podem comprometer sua imagem perante a sociedade.

A manifestação reforça que o hospital está disposto a prestar esclarecimentos sobre os acontecimentos e sobre os procedimentos atualmente adotados. A crítica institucional, entretanto, deve ser diferenciada da existência da condenação judicial noticiada. A decisão contra os empresários constitui um fato jornalisticamente relevante, e os esclarecimentos da atual administração não afastam a obrigação de informar sobre as irregularidades reconhecidas pela Justiça.

Direito ao contraditório poderia esclarecer situação atual do São João de Deus

A repercussão também levanta uma discussão sobre uma das práticas mais importantes do jornalismo: procurar ouvir instituições e pessoas diretamente mencionadas em reportagens que possam afetar sua reputação. A publicação do O Fator apresenta informações sobre uma decisão judicial e identifica o São João de Deus como um dos hospitais onde o médico mencionado na sentença realizou procedimentos. Entretanto, na versão da reportagem consultada pelo Divinews, não consta manifestação da atual administração da instituição.

A ausência desse posicionamento no texto não comprova, isoladamente, que o jornalista deixou de procurar o hospital. Ainda assim, os esclarecimentos oferecidos pela direção acrescentam contexto relevante sobre a mudança de gestão e a situação atual dos profissionais.

Também é importante observar que decisões judiciais são fontes legítimas para reportagens e podem, por si só, fundamentar notícias de interesse público. Porém, o contraditório jornalístico ganha especial relevância quando existem informações adicionais capazes de contextualizar os fatos e evitar interpretações equivocadas.

Lucas Ragazzi possui trajetória no jornalismo investigativo nacional

O autor da reportagem, Lucas Ragazzi, possui experiência na cobertura política e investigativa. Conforme o currículo apresentado pelo próprio portal O Fator, o jornalista integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e trabalhou no jornal O Tempo. Durante sua passagem pelo O Tempo, cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, diretamente de Brasília. Também atuou na Rádio Itatiaia e é autor do livro-reportagem Brumadinho: a engenharia de um crime.

A trajetória profissional de Lucas demonstra experiência com investigações, documentos judiciais e assuntos de interesse público. Por isso, a discussão sobre a contextualização da reportagem ganha relevância também sob a perspectiva dos procedimentos jornalísticos utilizados na apuração.

Divinews tentou ouvir Lucas Ragazzi sobre a manifestação do hospital

O Divinews procurou contato com Lucas Ragazzi para conhecer seu posicionamento sobre os questionamentos relacionados à reportagem e à manifestação pública do Complexo de Saúde São João de Deus. Até o fechamento desta matéria, não havia sido obtida resposta do profissional.

O espaço permanece aberto para que Ragazzi ou a direção do portal O Fator apresentem manifestação, inclusive sobre eventual tentativa anterior de ouvir o hospital e sobre os critérios de apuração adotados na reportagem original.

Condenação judicial não representa condenação do complexo hospitalar

Um aspecto essencial para a correta compreensão do caso é a identificação de quem foi efetivamente condenado pela Justiça Federal. Conforme a reportagem baseada na sentença, a condenação por corrupção ativa foi imposta a dois empresários ligados à distribuição de materiais médicos. O profissional que recebeu os pagamentos foi investigado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, mas firmou acordo de não persecução penal com o Ministério Público Federal em 2021.

Esclarecimento da direção acrescenta informações à repercussão da sentença

A manifestação pública do Complexo de Saúde São João de Deus apresenta uma dimensão que não aparece na reportagem original: a situação atual da instituição, mais de dez anos depois dos acontecimentos investigados. A direção afirma que assumiu a administração no final de 2016, que os profissionais citados não integram mais o corpo clínico e que os processos de compras seguem mecanismos de compliance e transparência. Essas declarações não contestam necessariamente a existência dos pagamentos reconhecidos na sentença, mas procuram impedir que os acontecimentos sejam associados automaticamente à gestão atual.

Continua depois da publicidade

comentários

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

🛈 Aviso sobre comentários no Divinews

Os comentários publicados nesta página são de inteira responsabilidade de seus autores. O Divinews Portal de Notícias Ltda não se responsabiliza pelas opiniões, acusações, ofensas ou informações expressas por terceiros.

Comentários que contenham conteúdo difamatório, injurioso, racista, discriminatório, ameaçador ou que incentivem a violência poderão ser removidos sem aviso prévio.

Em caso de requisição judicial, o Divinews fornecerá às autoridades competentes as informações de identificação do usuário, incluindo o endereço de IP da máquina utilizada, conforme prevê a legislação brasileira.

Continua depois da publicidade

artigos  relacionados