Da comunidade conhecida como Lajinha, na região do bairro São Luiz, em Divinópolis, para uma cadeira na Câmara dos Deputados, em Brasília. A trajetória de Ana Elisa Santos Silva (PT) ganhou dimensão nacional depois das eleições de 2026. Aos 21 anos, em sua primeira disputa eleitoral, a estudante de Direito recebeu 524.219 votos e terminou como a segunda candidata a deputado federal mais votada de Minas Gerais, atrás somente de Nikolas Ferreira (PL). Dentro do campo da esquerda, entretanto, ninguém teve votação maior que a jovem divinopolitana, que agora passa a ocupar espaço de destaque na política nacional brasileira.
A Câmara dos Deputados registra Ana Elisa em segundo lugar na classificação mineira, seguida por Duda Salabert, Reginaldo Lopes e Rogério Correia. Portal da Câmara dos Deputados A votação também fez dela a mulher mais votada da história de Minas para a Câmara Federal, conforme levantamento publicado após a apuração.
A ascensão aconteceu de forma extremamente rápida. Ana Elisa nasceu em 31 de agosto de 2005, em Divinópolis, chegou à eleição com 21 anos recém-completados e grau de instrução superior incompleto. No registro eleitoral, declarou como ocupação estudante, bolsista e estagiária.
Até poucos meses antes de aparecer entre os maiores nomes das urnas mineiras, dividia a rotina entre a graduação em Direito, estágio e produção de conteúdo para as redes sociais. Foi justamente no ambiente digital que começou a construir a trajetória política nacional que, em questão de meses, seria convertida em mais de meio milhão de votos.
Da comunidade da Lajinha para as redes
Ana Elisa é de Divinópolis e mora na região do bairro São Luiz conhecida popularmente pelos moradores como Lajinha. Para quem é de fora da cidade, trata-se de uma comunidade tradicional do município, nome que faz parte da identificação popular daquela região. A origem passou a ganhar ainda mais simbolismo depois da eleição: uma jovem que cresceu longe dos centros tradicionais de poder político de Belo Horizonte e Brasília chegará ao Congresso Nacional aos 21 anos.
Sua história familiar também aparece na construção de sua identidade política. Ana Elisa é filha de professora e cresceu em um ambiente familiar que acompanhava movimentos sindicais. Antes de entrar formalmente na disputa partidária, trabalhava como estagiária no Tribunal Regional do Trabalho de Minas Gerais. A política institucional veio depois, mas debates sobre trabalho, educação, desigualdade e direitos sociais já apareciam no conteúdo que ela produzia na internet.
Foi nas redes que Ana Elisa ganhou escala. Seus vídeos passaram a abordar racismo, feminismo, educação pública, direitos trabalhistas, juventude, fim da escala 6×1 e temas políticos nacionais. Antes da eleição, ela já possuía aproximadamente 1,9 milhão de seguidores em uma das principais plataformas; depois do resultado das urnas, esse número ultrapassou 2,4 milhões. A força nas redes tornou-se a principal estrutura de comunicação de uma campanha que não nasceu apoiada em décadas de mandato ou em uma máquina política tradicional.
Entrada no PT aconteceu somente em 2026
Outro elemento que torna sua eleição pouco convencional é o tempo entre a filiação partidária e a chegada à Câmara. Ana Elisa entrou formalmente no PT apenas em março de 2026, poucos meses antes das eleições. A disputa para deputado federal foi sua primeira experiência como candidata.
A idade também chama atenção. A Constituição estabelece 21 anos como idade mínima para assumir uma cadeira de deputado federal, justamente a idade que Ana Elisa alcançou pouco antes da votação. Veículos nacionais passaram a apontá-la como a deputada federal mais jovem eleita no país.
A campanha, portanto, colocou na Câmara alguém que praticamente alcançou a idade constitucional mínima ao mesmo tempo em que disputava seu primeiro cargo público.
Sua candidatura foi registrada pela Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV. Entre as bandeiras apresentadas durante a disputa estavam cotas raciais, combate à desinformação e ao racismo, fortalecimento da educação pública, políticas de primeiro emprego, proteção aos trabalhadores e passe livre universitário intermunicipal.
Mais de meio milhão de votos na primeira eleição
O tamanho da votação surpreendeu inclusive a própria candidata. Ana Elisa terminou a eleição com 524.219 votos, equivalentes a 4,57% dos votos válidos para deputado federal em Minas Gerais. Apenas Nikolas Ferreira conseguiu uma votação superior no Estado, com 3.119.318 votos, número que também estabeleceu um recorde nacional para a Câmara dos Deputados.
Atrás de Ana Elisa ficou Duda Salabert (PSOL), com 229.535 votos. Reginaldo Lopes (PT) obteve 215.192; Rogério Correia (PT), 185.912; Ana Pimentel (PT), 144.496; Gleide Andrade (PT), 130.253; Paulo Guedes (PT), 126.974; e outros representantes de partidos identificados com a esquerda aparecem abaixo dessa faixa. A comparação confirma que Ana Elisa foi, no recorte da eleição para deputado federal, a candidata da esquerda mais votada de Minas Gerais.
A distância também é expressiva. Ana Elisa recebeu mais que o dobro da votação de Duda Salabert, segunda colocada entre os nomes desse campo político no Estado. O resultado transformou uma candidata estreante em um dos principais puxadores de votos da Federação Brasil da Esperança em Minas e ajudou o PT a eleger uma bancada numerosa para Brasília.
A mulher mais votada da história de Minas para a Câmara
O desempenho produziu ainda outro marco. Com os 524.219 votos, Ana Elisa tornou-se a mulher mais votada da história de Minas Gerais para a Câmara dos Deputados, segundo levantamentos divulgados após a eleição. O dado ganha dimensão adicional quando se observa que sua campanha começou sem mandato eletivo anterior e foi estruturada principalmente a partir da internet.
O resultado também recolocou Divinópolis em posição de destaque na representação política mineira. Além de Ana Elisa, a cidade terá nomes ligados a ela no Governo de Minas, Senado, Câmara dos Deputados e Assembleia Legislativa a partir de 2027. A própria projeção nacional da jovem petista passou a fazer parte dessa nova configuração política do município.
No caso de Ana Elisa, porém, existe uma particularidade: sua votação não ficou concentrada apenas em Divinópolis ou no Centro-Oeste. A capacidade de alcançar eleitores por meio das plataformas digitais permitiu que sua candidatura ultrapassasse as fronteiras regionais, característica que ela própria apontou depois da eleição como fundamental para explicar o resultado.
Estágio no TRT antes da campanha
Pouco antes da candidatura, Ana Elisa ainda vivia uma rotina muito distante da estrutura do Congresso Nacional. Estudante de Direito, atuava como estagiária no Tribunal Regional do Trabalho de Minas Gerais. A própria futura deputada afirmou posteriormente que deixou o estágio para se dedicar à eleição.
Essa experiência aparece também em algumas de suas pautas. Trabalho, renda, transporte universitário e permanência estudantil passaram a integrar o discurso da candidata. Durante entrevista concedida ao Divinews depois da eleição, ela destacou a tarifa zero estudantil como uma das propostas que pretende priorizar no mandato e relacionou o tema à própria experiência como universitária.
A pauta combina com outras propostas apresentadas durante a campanha, como o fim da escala 6×1, proteção aos trabalhadores de aplicativos, fortalecimento do ensino público e políticas para ingresso de jovens no mercado de trabalho. A agenda do mandato deverá ganhar forma legislativa a partir de fevereiro, quando Ana Elisa tomar posse.
Uma campanha construída pelo telefone
Se existe uma característica central para explicar a trajetória de Ana Elisa até aqui, ela está na comunicação digital. Diferentemente de candidatos que passam anos acumulando estruturas municipais, mandatos e alianças regionais antes de disputar uma vaga federal, ela chegou às urnas com uma rede de seguidores construída principalmente por vídeos.
Esse modelo também produziu insegurança dentro da própria campanha. O voto das redes é difícil de mapear territorialmente. Um vídeo pode atingir simultaneamente eleitores de Belo Horizonte, Divinópolis, Uberlândia, Montes Claros ou pequenos municípios do interior. Por isso, até a última semana, sua equipe não conseguia dimensionar com precisão quantos seguidores realmente se transformariam em votos. O resultado respondeu à dúvida: foram mais de 524 mil.
A experiência transformou Ana Elisa em um exemplo importante dentro da própria esquerda sobre como as plataformas digitais podem produzir resultados eleitorais concretos, tema que ganhou ainda mais força depois do primeiro turno presidencial.
De Divinópolis para a campanha de Lula
A projeção alcançada nas urnas teve consequência quase imediata. Depois do primeiro turno, Ana Elisa foi chamada pela campanha do presidente Lula para colaborar com a estratégia digital na disputa contra Flávio Bolsonaro. Ela esteve em Brasília ao lado do presidente e de outros nomes com forte alcance nas redes, entre eles parlamentares ligados à esquerda.
A escolha não ocorreu por acaso. Ana Elisa havia defendido publicamente que a esquerda precisava rever sua relação com as plataformas digitais e aprender a disputar narrativas de maneira mais eficiente. Poucos dias depois de fazer essa cobrança, passou a ser chamada para contribuir diretamente com a campanha presidencial petista.
Aos 21 anos, portanto, a jovem que até 2026 não havia disputado uma eleição passou, no intervalo de poucos meses, da condição de estudante e influenciadora para deputada federal eleita e integrante de discussões nacionais sobre comunicação política.
Um contraponto eleitoral a Nikolas Ferreira
A comparação com Nikolas Ferreira tornou-se inevitável porque os dois terminaram nas duas primeiras posições em Minas e possuem forte presença digital, embora representem campos políticos opostos. Nikolas recebeu mais de 3,1 milhões de votos; Ana Elisa, 524.219. Ambos chegam à próxima legislatura com audiências expressivas fora das estruturas tradicionais dos partidos.
A semelhança termina principalmente aí. Ana Elisa construiu sua comunicação a partir de pautas vinculadas à esquerda, como igualdade racial, feminismo, educação pública e direitos trabalhistas, enquanto Nikolas atua no campo conservador e é um dos principais nomes do PL.
Essa diferença tende a levar para dentro da Câmara uma disputa que já existe nas redes. Ana Elisa já declarou que pretende cobrar a atuação parlamentar de Nikolas e reconhece que os dois ocupam espectros ideológicos muito diferentes. Mais do que uma competição pessoal, os dois representam maneiras distintas de utilizar a comunicação digital para mobilizar eleitorados.
De uma comunidade de Divinópolis para o Congresso
A história de Ana Elisa ganha um significado particular para Divinópolis justamente por unir dois extremos geográficos e políticos. De um lado está a comunidade da Lajinha, na região do São Luiz, onde sua história pessoal foi construída. Do outro está Brasília, onde funcionam a Câmara dos Deputados e os principais centros de decisão do país.
Entre esses dois pontos houve uma passagem extremamente rápida pelas redes sociais, pelo PT e pelas urnas. Ana Elisa entrou no partido em março, completou 21 anos em agosto, foi às urnas em outubro e saiu delas com a segunda maior votação para deputado federal em Minas Gerais.
A partir de fevereiro de 2027, o desafio será diferente. A votação, por maior que tenha sido, passa a dar lugar ao exercício efetivo do mandato, à apresentação de projetos, atuação em comissões, negociação política e fiscalização do Executivo.
Mas o resultado de 2026 já está registrado: Ana Elisa saiu de Divinópolis, conquistou 524.219 votos, tornou-se a deputada federal mais votada da esquerda em Minas e ficou atrás apenas do candidato mais votado do país no Estado.






