O governador eleito de Minas Gerais, Cleitinho Azevedo (Republicanos), afirmou que pretende continuar morando em Divinópolis, no Centro-Oeste do estado, mesmo depois de assumir o comando do Executivo mineiro. Em entrevista à TV Integração, após a vitória nas urnas, ele disse que não pretende se mudar para a estrutura residencial oficial do governo em Belo Horizonte e que quer preservar a rotina mantida na cidade natal.
Segundo Cleitinho, a decisão também está relacionada à intenção de evitar despesas adicionais para os cofres públicos. Ele afirmou que pretende continuar na mesma casa onde mora há aproximadamente dez anos.
“Eu quero levar uma forma de vida que não traga custo para o Estado. Eu queria realmente ficar, não mudar da minha casa, continuar morando na mesma casa que eu moro há exatamente 10 anos”, declarou.
Em outra fala, o governador eleito resumiu a intenção de não utilizar a estrutura oficial destinada ao chefe do Executivo: “Eu não quero ir para o palácio. Eu quero é ficar na minha casa, e servir. Eu não quero ser servido, não”.
A declaração foi dada depois de Cleitinho ser eleito governador de Minas Gerais no primeiro turno das eleições de 2026. Divinópolis, a cerca de 140 quilômetros de Belo Horizonte, é sua cidade natal e também sua principal base política.
Uma promessa alinhada ao discurso político
A decisão de permanecer em Divinópolis não surge isoladamente na trajetória de Cleitinho. Desde o primeiro mandato eletivo, o político utiliza a defesa da redução de gastos públicos e a crítica aos chamados privilégios da classe política como parte de seu discurso.
Quando assumiu o primeiro mandato como deputado estadual, em 2019, Cleitinho afirmou ter aberto mão de benefícios a que teria direito. Em pronunciamento na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), declarou que não utilizava auxílio-moradia, auxílio-paletó ou auxílio-creche.
“Quem quiser ver lá que eu não uso auxílio-moradia, auxílio-paletó… auxílio-creche eu não uso”, afirmou na tribuna da Assembleia em novembro de 2019. Na mesma ocasião, disse que utilizava uma parcela menor da verba indenizatória disponível e defendia que parlamentares poderiam exercer o mandato com menos recursos.
Meses antes, em fevereiro daquele ano, o então deputado também havia afirmado que abriu mão do auxílio-moradia e do chamado auxílio-mudança. Na ocasião, chegou a sugerir a possibilidade de passar algumas noites no próprio gabinete quando estivesse em Belo Horizonte, proposta que não foi autorizada pela Assembleia.
“Eu não quero receber e estou abrindo mão. Quanto ao auxílio-moradia, acho a mesma coisa”, afirmou Cleitinho em discurso na ALMG.
A alternativa de dormir no gabinete acabou não sendo autorizada, mas o episódio reforçou o discurso de que o parlamentar pretendia evitar despesas relacionadas à permanência na capital.
Críticas aos benefícios parlamentares
Ainda no primeiro mandato, Cleitinho chegou a propor uma mudança na Constituição de Minas Gerais para reduzir benefícios concedidos aos integrantes dos Três Poderes. Em setembro de 2019, chamou a proposta de “PEC do Miserê” e defendeu o corte de auxílios como moradia, mudança, creche e saúde.
Na ocasião, argumentou que os representantes dos Poderes deveriam dar exemplo diante das dificuldades econômicas enfrentadas pela população.
“Os poderes precisam entender que a gente tem que usar o poder é com sabedoria e humildade e, principalmente, para servir”, declarou durante discurso na Assembleia.
A posição permaneceu presente durante sua passagem pelo Senado. Em dezembro de 2024, Cleitinho criticou despesas e benefícios dos Três Poderes e defendeu que os cortes começassem pelos próprios representantes da população.
“É necessário uma reforma política urgente para nós pagarmos essa conta, e não o povo brasileiro”, afirmou em pronunciamento no Senado.
Em fevereiro e março de 2026, o senador voltou ao assunto ao criticar benefícios como auxílio-moradia, auxílio-alimentação, auxílio-saúde e outros pagamentos adicionais existentes nos Poderes. Para Cleitinho, enquanto agentes públicos tiverem acesso a essas vantagens, faltaria autoridade moral para negar benefícios à população.
Fundo eleitoral também entrou na mira
A rejeição ao uso de recursos públicos para campanhas eleitorais é outro ponto recorrente no discurso de Cleitinho.
Em pronunciamento no Senado em outubro de 2025, o então senador declarou: “Eu nunca usei R$ 1 de fundo eleitoral e nunca vou usar”. Ele argumentou que o cidadão precisa arcar com seus próprios gastos para procurar emprego e questionou por que o eleitor deveria financiar campanhas políticas.
Em maio de 2024, durante a discussão sobre os recursos do fundo eleitoral, Cleitinho afirmou que havia disputado eleições para vereador, deputado e senador sem utilizar esse dinheiro.
“Eu fiz política três vezes, para Vereador, para Deputado e para Senador, e eu nunca precisei usar esse dinheiro. Eu usei do meu próprio bolso”, declarou no Senado.
A postura foi mantida durante a própria corrida pelo governo de Minas em 2026. Em julho, quando ainda dependia da definição do Republicanos sobre sua candidatura, Cleitinho prometeu que não utilizaria recursos do fundo eleitoral caso fosse candidato.
“Eu não vou usar nem fundo eleitoral, que eu nunca usei nas minhas campanhas”, afirmou em entrevista coletiva em Divinópolis. Posteriormente, o acordo partidário para sua candidatura também previu que ele não utilizaria o fundo eleitoral da legenda.
Transparência
Embora o discurso de Cleitinho seja marcado pela defesa da redução de privilégios, registros oficiais do portal da transparência fazem uma distinção importante: abrir mão de determinados benefícios, não significa não utilizar nenhuma estrutura pública disponível ao parlamentar.
Dados disponíveis no Senado constatam que Cleitinho não utilizou auxílio-moradia durante os anos de 2023, 2024, 2025 e 2026. Por outro lado, os registros indicam utilização de imóvel funcional durante esses períodos.
Também constam nos registros alguns gastos com a cota parlamentar, incluindo despesas de escritório, locomoção, hospedagem, alimentação, combustíveis, materiais e serviços de apoio. Em 2026, até o relatório disponível em 6 de outubro, foram registrados R$ 42.977,25 em cotas parlamentares e R$ 2.736,06 em outros gastos relacionados à atividade parlamentar.
Da Assembléia ao Palácio da Liberdade
A permanência em Divinópolis também recupera uma característica presente desde o início da carreira política de Cleitinho. Em 2019, ao assumir o mandato de deputado estadual, ele ressaltava que continuava morando em Divinópolis e que não via sentido em receber auxílio-moradia para exercer a função em Belo Horizonte.
“Eu tenho casa, eu moro em Divinópolis”, afirmou na Assembleia naquele período.
Agora, eleito governador, a distância entre a cidade natal e a capital se torna um desafio logístico muito maior. O chefe do Executivo precisa cumprir uma agenda permanente de reuniões, despachos e compromissos institucionais em Belo Horizonte, além de viagens pelo estado.
Ainda assim, Cleitinho afirma que pretende manter a residência em Divinópolis e deslocar-se para cumprir as atividades de governo.
A escolha também tem dimensão simbólica. Ao declarar que não pretende morar no Palácio e que prefere permanecer na própria casa, o governador eleito procura manter uma imagem de proximidade com a vida cotidiana e de resistência à incorporação de estruturas e privilégios associados ao cargo.
“Eu não quero voltar ao Palácio. Quero ficar na minha casa lá e servir meu povo”, afirmou.
A proposta, portanto, coloca à prova uma das principais marcas construídas por Cleitinho ao longo da carreira: a defesa de uma política com menos privilégios e gastos. A partir de 2027, já no comando do governo de Minas, essa promessa deixará de ser apenas uma bandeira parlamentar e passará a ser observada na prática da administração estadual.






