A prestação parcial de contas das campanhas para deputado estadual em Minas Gerais abre uma janela para acompanhar como centenas de milhões de reais circulam antes das urnas. Em um pente-fino realizado pelo Divinews nos dados declarados à Justiça Eleitoral, aparecem despesas que se destacam pela dimensão ou pela concentração: Adriano Alvarenga (PP) contratou R$ 205 mil em táxi aéreo em um único lançamento; Noraldino Júnior (PSB) declarou R$ 154,7 mil em impulsionamento; Bruno Engler (PL) destinou R$ 216,6 mil a uma única gráfica para adesivos; Gustavo Santana (PL) já contabiliza R$ 826,1 mil em despesas, com R$ 410,5 mil classificados genericamente como serviços prestados por terceiros. Outros cruzamentos mostram fornecedores que aparecem simultaneamente nas contas de vários candidatos e empresas relativamente novas que conquistaram espaço relevante no mercado eleitoral mineiro.
O Tribunal Regional Eleitoral registrou inicialmente 988 pedidos de candidatura a deputado estadual em Minas Gerais. O TSE divulgou nesta terça-feira (15) a prestação parcial, que reúne a movimentação ocorrida do início da campanha até 8 de setembro. Como candidaturas também enviam informações financeiras durante a campanha, alguns bancos que espelham os dados do TSE já apresentam atualizações posteriores. Os números, portanto, continuam sujeitos a novas declarações e retificações.
O teto de gastos para uma candidatura a deputado estadual em Minas é de R$ 1.270.629,01. Outro detalhe é essencial: despesa contratada e despesa paga representam etapas diferentes. Por isso, uma campanha pode apresentar naquele momento obrigações contratadas superiores aos recursos já informados sem que essa diferença, isoladamente, configure irregularidade.
O mapa inicial do Divinews
| Candidato | Despesas localizadas | Despesa/fornecedor em destaque | Ponto para aprofundar |
|---|---|---|---|
| Gustavo Santana (PL) | R$ 826,2 mil | Bigrafica: R$ 200,9 mil; serviços de terceiros: R$ 410,5 mil | Detalhar contratos da rubrica genérica de serviços |
| Alê Portela (PL) | R$ 657,7 mil contratados | Vowe Air Mobility: R$ 32,4 mil | Comparar itinerário e horas de voo com outras campanhas |
| Sargento Rodrigues (PL) | R$ 621,8 mil | Impressos: R$ 163,6 mil; pessoal: R$ 115,2 mil | Conferir preços unitários e contratos |
| Adriano Alvarenga (PP) | cerca de R$ 600 mil | VIP Aviation: R$ 205 mil | Maior contratação aérea localizada nesta varredura |
| Ulysses Gomes (PT) | R$ 572,4 mil | Facebook: R$ 109,9 mil | Serviços de terceiros também chegam a R$ 209,1 mil |
| Renato Loffi (PSB) | R$ 468 mil | Inove: R$ 159 mil | Forte concentração gráfica em um fornecedor |
| Bruno Engler (PL) | R$ 396 mil | SC Editora Gráfica: R$ 216,7 mil | 55% das despesas estão em adesivos |
| Noraldino Júnior (PSB) | R$ 392,5 mil | Facebook: R$ 154,7 mil | Impulsionamento consome 39% da despesa declarada |
| Carol Caram (Avante) | R$ 362,5 mil | Helic Fly: R$ 42,8 mil | Comparar custo do fretamento com Adriano e Alê |
| Chiara Biondini (PL) | R$ 266,7 mil | GMP: R$ 153,4 mil | Fornecedor concentra 70,6% das despesas empresariais no recorte |
Esses nomes não representam um ranking completo das 988 candidaturas. São as campanhas e relações empresariais que, nesta etapa, apresentaram valores e concentrações que permitem comparações documentais mais produtivas: Adriano Alvarenga: R$ 205 mil em um único contrato de táxi aéreo. O caso que mais se destaca nos deslocamentos aéreos é dele.
Sua campanha declarou R$ 205 mil em um único pagamento à VIP Aviation Táxi Aéreo Ltda.. A despesa representa aproximadamente 34% de todos os gastos declarados naquele recorte. Na mesma campanha, a Inove Impressões Gráficas e Marketing Político Ltda. aparece com R$ 138.450 em sete lançamentos. A Resultado Virtual Ltda. recebeu R$ 50 mil por serviços prestados por terceiros. Outros R$ 20 mil foram destinados ao Facebook para impulsionamento. É na comparação aérea que a disparidade fica mais evidente.
Carol Caram declarou R$ 42.800 para a Helic Fly Táxi e Serviços Aéreos, divididos em três pagamentos. Alê Portela apresenta R$ 32.400 contratados com a Vowe Air Mobility. Portanto, o valor de Adriano corresponde a aproximadamente 4,8 vezes o declarado por Carol e 6,3 vezes o de Alê.
Isso não significa que Adriano tenha pago mais caro pelo mesmo serviço. Uma campanha pode contratar aeronave diferente, realizar mais viagens ou percorrer distâncias maiores. Mas existe uma vantagem importante para a apuração: o documento detalhado tem de existir.
A norma do TSE determina que a comprovação do fretamento de aeronaves inclua contrato com tempo de voo, beneficiários, datas e itinerários. Com esses documentos, o Divinews consegue transformar uma simples comparação de valores em comparação de custo por hora de voo e por trecho.
Noraldino coloca R$ 154,7 mil no Facebook. No ambiente digital, Noraldino Júnior apresenta uma das maiores despesas encontradas entre os candidatos estaduais examinados. A campanha declarou R$ 154.740 em oito pagamentos ao Facebook, equivalentes a 39% dos R$ 392.510 registrados em despesas.
Para comparação: Ulysses Gomes declarou R$ 109.900; Alê Portela, cerca de R$ 60 mil no recorte localizado; Bruno Engler declarou R$ 31.911 na categoria, sendo R$ 30 mil diretamente para o Facebook; Macaé Evaristo, R$ 25 mil; Chiara Biondini, R$ 22.400; Adriano Alvarenga, R$ 20 mil; e Gustavo Valadares, também R$ 20 mil.
Nesse grupo, Noraldino contratou aproximadamente 41% a mais que Ulysses e mais de cinco vezes o valor informado por Bruno Engler diretamente ao Facebook.
A investigação mais interessante aqui não é perguntar apenas quem gastou mais, mas conferir quanto desse crédito virou anúncio efetivamente veiculado, para quais públicos, em quais regiões e durante quanto tempo.
Gustavo Santana: metade da campanha está na rubrica “serviços prestados por terceiros”
A campanha de Gustavo Santana declarou R$ 826.193 em despesas, cerca de 65% do teto permitido. É um dos maiores valores que apareceram entre as prestações examinadas. O elemento que chama atenção está na composição.
Nada menos que R$ 410.500, ou 50% do total, aparece na categoria “serviços prestados por terceiros”, distribuído em 27 pagamentos. Outros R$ 297.101 correspondem a material impresso. Entre os fornecedores, aparecem: Bigrafica Embalagens Ltda.: R$ 200.875; Kerr Indústria e Comércio de Brindes e Suprimentos: R$ 95.950; Advocacia Wilde: R$ 50 mil; e diversos prestadores pessoas físicas, incluindo contratos individuais de R$ 40 mil, R$ 35 mil e R$ 25 mil classificados como serviços de terceiros.
Uma empresa aparece em material gráfico de candidatos de vários partidos
Outro CNPJ merece um capítulo próprio: A Inove, CNPJ 56.019.930/0001-41, aparece em várias campanhas mineiras. Somente entre candidatos a deputado estadual, o cruzamento localizou: João Magalhães (PSD): R$ 186.827,50; Renato Loffi (PSB): R$ 159 mil; Adriano Alvarenga (PP): R$ 138.450; Luciano Causa Autista (PSB): R$ 65.710; Dr. Jorge Ali (Agir): R$ 54.803,50; Carlos Henrique (Republicanos): R$ 41.800.
Há uma peculiaridade cadastral interessante. Nas prestações eleitorais, o fornecedor aparece associado ao nome “Inove Impressões Gráficas e Marketing Político Ltda.” e recebe despesas classificadas como materiais impressos. Entretanto, o retrato cadastral mais recente localizado para o mesmo CNPJ traz a razão social Inove Inteligência em Tecnologia Desenvolvimento de Sistema e Marketing Ltda., aberta em 22 de julho de 2024, com capital social de R$ 50 mil e atividade principal cadastrada como consultoria em tecnologia da informação.
Isso não prova incompatibilidade da prestação eleitoral. Empresas podem alterar razão social e atividades ao longo do tempo, e é necessário verificar a ficha cadastral vigente na data de cada contratação, além de eventuais atividades secundárias que constavam naquele momento.
Mas o cruzamento cria uma pergunta objetiva: qual estrutura produz os impressos, qual era o CNAE vigente quando os serviços foram contratados e a empresa realiza a produção diretamente ou terceiriza?
No caso de João Magalhães, os R$ 186.827,50 contratados com o CNPJ representam uma das maiores relações dessa empresa com candidato estadual em Minas.
Renato Loffi concentra R$ 159 mil na Inove
A prestação de Renato Loffi reforça a importância desse fornecedor. O candidato declarou R$ 467.959 em despesas. Desse valor, R$ 184.687 aparecem na categoria de material impresso. A Inove responde sozinha por R$ 159 mil em três pagamentos, cerca de 34% de toda a despesa da campanha.
Também aparecem LSG Aluguel de Veículos, com R$ 45 mil, e Depósito de Construção JK, com R$ 39.953 classificados como serviços prestados por terceiros. Além das notas da Inove, os documentos dos R$ 39.953 pagos ao depósito de construção como “serviços prestados por terceiros”, para entender exatamente qual serviço eleitoral o estabelecimento forneceu.
GMP abriu no fim de 2025 e já aparece em várias campanhas
Outra empresa que merece acompanhamento é a GMP Publicidade e Serviços Gráficos Ltda. A companhia iniciou suas atividades em 29 de dezembro de 2025, em Belo Horizonte, com capital social de R$ 200 mil e atividade principal de impressão de material para uso publicitário. Poucos meses depois, já aparece em diversas campanhas eleitorais. No universo estadual, a base localizou, entre outros: Vitório (PP): R$ 158 mil; Chiara Biondini (PL): R$ 153.380; Laiza Avelar: R$ 140.758; Gustavo Valadares: R$ 40.600; Sargento Rodrigues: R$ 30.240.
Quando se incluem candidaturas a outros cargos, a base já reúne aproximadamente R$ 1,795 milhão em despesas eleitorais contratadas com a GMP em 2026. A rapidez do crescimento não significa irregularidade. Uma gráfica pode estruturar-se justamente para atender grande volume eleitoral.
Mas é um caso excelente para comparar preço unitário entre clientes. Se Chiara, Vitório e outros candidatos compraram adesivos ou impressos com as mesmas características, a pergunta deixa de ser “quem gastou muito?” e passa a ser: quanto cada candidatura pagou por mil unidades do mesmo produto? Essa comparação pode revelar preços semelhantes, justificando os contratos, ou disparidades que mereçam explicação.
Chiara concentra mais de R$ 153 mil em uma gráfica
Na prestação de Chiara Biondini, a GMP aparece com R$ 153.380 em sete despesas, equivalentes a 70,6% do total contratado com empresas no recorte da base consultada. O Facebook aparece depois, com R$ 22.400. Os registros detalham a divisão da GMP em pelo menos R$ 93 mil para adesivos e R$ 53,8 mil para materiais impressos. Esse é exatamente o tipo de material que permite uma comparação objetiva com outras campanhas atendidas pela mesma gráfica.
Bruno Engler: 55% da despesa em adesivos
Bruno Engler declarou R$ 395.973 em gastos. Só a categoria publicidade por adesivos absorveu R$ 216.690, ou 55% do total. Todo esse valor foi destinado à SC Editora Gráfica Ltda., por meio de 21 pagamentos. Diferentemente de algumas empresas mais recentes que aparecem no levantamento, a SC existe desde 1997 e já acumula histórico em campanhas anteriores. A linha investigativa não é idade ou capacidade aparente da empresa. É quantidade e preço unitário. Quanto material foi produzido por R$ 216.690? Qual dimensão? Qual tipo de adesivo? Qual acabamento?
O TSE exige que o documento fiscal relativo ao material impresso informe as dimensões do produto, o que abre caminho para uma comparação real de preços.
Carol Caram: quase R$ 43 mil em transporte aéreo
Carol Caram declarou R$ 42.800 para a Helic Fly Táxi e Serviços Aéreos Especializados, em três pagamentos. A despesa representa aproximadamente 12% dos gastos que constavam no recorte consultado. Seus maiores fornecedores eram a Pontocom Comunicação Visual, com R$ 81.850, e a Mister Kap Import, com R$ 45.085. O impulsionamento somava R$ 19.755 entre Facebook e DLocal. A contratação aérea de Carol é muito inferior aos R$ 205 mil de Adriano. É exatamente por isso que os contratos precisam ser colocados lado a lado.
Alê Portela tem R$ 657 mil contratados, mas R$ 191 mil marcados como pagos
A prestação de Alê Portela oferece outro exemplo de como os valores eleitorais precisam ser lidos corretamente. A candidata apresentava R$ 657.669,19 em despesas contratadas, mas apenas R$ 191.154,07 estavam marcados como pagos no retrato da base. As receitas somavam R$ 510.500. Entre fornecedores empresariais aparece a Vowe Air Mobility, com R$ 32.400.
A diferença entre contratado e pago mostra por que não se pode chamar automaticamente uma campanha de “deficitária” ou apontar irregularidade apenas porque as obrigações contratadas ultrapassam as receitas registradas naquele momento. A própria base acompanha retificações e atualizações durante a campanha.
Ulysses também apresenta despesas contratadas acima das receitas
Situação semelhante aparece na prestação de Ulysses Gomes. O candidato declarou R$ 295.500 em receitas e R$ 572.436 em despesas no retrato consultado. Os R$ 572,4 mil incluem: R$ 209.100 em serviços prestados por terceiros; R$ 181.447 em militância e mobilização; R$ 109.900 em impulsionamento no Facebook; R$ 38.449 em material impresso.
Novamente, a diferença contábil isolada não autoriza conclusão sobre irregularidade. Mas os R$ 209,1 mil da rubrica ampla de serviços de terceiros merecem abertura contrato por contrato para entender quem foi contratado e qual produto entregou.
Depois deste pente-fino, há seis trilhas especialmente promissoras para investigação documental: Aviação: pedir contratos de Adriano Alvarenga, Carol Caram e Alê Portela e calcular custo por hora de voo, trecho, aeronave e passageiro – Inove: levantar as notas de João Magalhães, Renato Loffi e Adriano Alvarenga e conferir razão social, CNAEs vigentes, gráfica executora e preço unitário – GMP: comparar as compras de Vitório, Chiara Biondini, Laiza Avelar, Gustavo Valadares e Sargento Rodrigues. A empresa abriu no fim de 2025 e rapidamente ganhou participação relevante no mercado eleitoral – Impulsionamento: cruzar Noraldino, Ulysses, Alê, Bruno, Macaé, Chiara e Adriano com a biblioteca pública de anúncios da Meta. O objetivo é comparar crédito contratado com publicidade efetivamente exibida – Serviços de terceiros: abrir especialmente os R$ 410,5 mil de Gustavo Santana e os R$ 209,1 mil de Ulysses Gomes. A classificação genérica impede compreender o serviço sem os contratos – Material gráfico: calcular preço por unidade, metro quadrado ou milheiro. É aqui que uma eventual discrepância entre campanhas se torna muito mais significativa do que o valor bruto do contrato.






