Editorial: Presidente do Sintram diz que vai “colocar fogo” em Cajuru; postura expõe falta de liturgia institucional de Marco Aurélio

Marco Aurélio Gomes tem legitimidade para defender servidores e confrontar administrações, mas mensagens e áudio revelam linguagem que, na avaliação editorial do Divinews, destoa da postura institucional esperada de quem preside uma entidade sindical de abrangência regional com milhares de trabalhadores

Publicado por: Geraldo Passos

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Municipais de Divinópolis e Região Centro-Oeste, Sintram, Marco Aurélio Gomes, voltou a adotar uma linguagem de confronto ao tratar de uma situação envolvendo servidor público e a administração de Carmo do Cajuru. Em mensagens e conversa encaminhadas ao Divinews, o dirigente fala em “ataque”, “bombas”, afirma que “se é fogo, vamos com fogo” e, em determinado momento, declara que iria “colocar fogo em tudo”. O contexto indica claramente o uso figurado da expressão. Isso, entretanto, não elimina a discussão que o episódio provoca: a liturgia de um cargo que representa uma entidade sindical de abrangência regional exige de seu presidente comportamento institucional compatível com a responsabilidade que carrega.

Marco Aurélio não é apenas um servidor participando de uma discussão particular em um grupo de WhatsApp. Quando se apresenta como presidente do Sintram, anuncia deslocamento da diretoria como um todo,  fala em atuação da entidade e responde a questões envolvendo trabalhadores municipais, sua voz passa a carregar também o peso institucional do sindicato que preside. Documentos do próprio Sintram identificam Marco Aurélio Gomes como presidente e registram que a entidade possui base territorial de representação em municípios do Centro-Oeste de Minas, com milhares de associados.

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Essa dimensão importa porque a Constituição atribui aos sindicatos justamente a defesa dos direitos e interesses coletivos ou individuais da categoria, inclusive em questões judiciais e administrativas, além de assegurar sua participação nas negociações coletivas. Ou seja, uma entidade como o Sintram dispõe de instrumentos jurídicos próprios para exercer pressão, cobrar gestores, questionar decisões, recorrer à Justiça, atuar administrativamente, convocar assembleias e, quando preenchidas as condições aplicáveis, mobilizar trabalhadores.

“Amanhã eu resolvi colocar fogo em tudo”

No material encaminhado à redação, o tom utilizado pelo dirigente chama atenção. Em uma das conversas transcritas, Marco Aurélio fala sobre uma “bomba” que teria em mãos e que pretendia divulgar no momento considerado adequado. Mais adiante, afirma: “Não, vai colocar fogo em tudo amanhã. Amanhã eu resolvi colocar fogo em tudo.” O interlocutor reage com ironia: “Nossa Senhora. Chama o bombeiro.”

Nos prints encaminhados ao Divinews, aparecem ainda manifestações atribuídas ao perfil identificado como Marco Aurélio Sintram nas quais são anunciadas ações em Carmo do Cajuru, presença de advogados e diretores e expressões como “querem partir pro ataque, vamos pro ataque” e “se é fogo, vamos com fogo”. Também aparece a afirmação de que o dirigente não aceitaria ataques a servidores e à sua equipe, demonstrando que, sob sua ótica, a postura adotada estaria relacionada à defesa da categoria.

É preciso fazer uma distinção fundamental. A expressão “colocar fogo” como anúncio literal de incêndio. O conteúdo e o diálogo apontam para uma força de expressão utilizada para transmitir a ideia de acirramento, confronto e reação sindical. A crítica editorial está justamente aí: mesmo sendo uma expressão figurada, é adequado que o presidente de uma instituição que se relaciona oficialmente com prefeitos, procuradores, secretários, vereadores, servidores e órgãos do Judiciário conduza conflitos dessa maneira?

Defender servidor não significa transformar conflito institucional em bate-boca

Marco Aurélio pode muito na defesa dos servidores, mas isso não significa que possa tudo na maneira de exercer essa representação. A presidência de uma entidade sindical não retira seu direito à opinião, muito menos exige silêncio diante de eventual abuso de uma administração. Pelo contrário, um sindicato que não cobra, não fiscaliza e não enfrenta situações consideradas prejudiciais aos trabalhadores deixa de cumprir parte essencial de sua finalidade.

Existe, contudo, uma diferença entre confronto sindical e personalização do conflito. Se existe uma irregularidade envolvendo um servidor de Carmo do Cajuru, o Sintram possui estrutura para formalizar denúncia, expedir ofício, cobrar audiência, acionar seu departamento jurídico, buscar o Ministério Público, recorrer à Justiça, convocar a categoria ou promover os atos sindicais previstos em seu estatuto e na legislação. O próprio sindicato mantém departamento jurídico e divulga ações coletivas propostas em defesa de servidores, demonstrando que dispõe desses instrumentos institucionais.

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É esse caminho que, deveria prevalecer no cotidiano sindical. Bate-boca em grupos de WhatsApp, troca de provocações, insinuações, anúncios de “bombas”, ameaça retórica de “colocar fogo” e aquilo que popularmente se chama de futrica em redes sociais ou em via pública não fortalecem a representação sindical. Pelo contrário, podem deslocar a discussão do direito do trabalhador para a personalidade de quem representa a entidade.

E esse é justamente o risco. Quando a forma ocupa mais espaço que o conteúdo, o debate deixa de ser “qual direito do servidor está sendo violado?” e passa a ser “o que o presidente do sindicato falou desta vez?”. Quem perde com essa inversão é a própria categoria que ele defende.

Greve e mobilização são situações diferentes

Há momentos em que a própria natureza do movimento sindical exige linguagem mais firme, ácida e contundente. Uma greve, uma assembleia de trabalhadores, uma manifestação pública, uma campanha salarial travada ou uma administração que se recusa a negociar podem naturalmente elevar o tom político e sindical.

O próprio Sintram já atuou dessa maneira em movimentos reivindicatórios. Em Bambuí, por exemplo, a entidade participou de assembleia que aprovou indicativo de greve diante da ausência de negociação com o Executivo. Na ocasião, Marco Aurélio declarou apoio aos servidores e cobrou abertura de diálogo com a Prefeitura. Esse é um ambiente típico da atividade sindical, no qual mobilização, cobrança pública e pressão coletiva fazem parte do processo.

O cotidiano institucional é diferente. Uma divergência pontual, um problema administrativo ou a defesa individual de determinado servidor não deveria, por si só, transformar-se em guerra verbal do presidente da entidade contra gestores ou autoridades. É justamente nesses momentos que a maturidade institucional aparece: ouvir a denúncia, reunir documentos, chamar o jurídico, formalizar a cobrança e utilizar a força da própria instituição para exigir uma resposta.

Em 2026, inclusive, o debate nacional sobre as relações de trabalho no serviço público avançou no sentido de regulamentar negociação e representação sindical dos servidores públicos, reforçando a importância dos canais institucionais para tratamento de conflitos.

A liturgia também protege o sindicato

A questão ultrapassa Marco Aurélio. Presidentes de sindicatos, associações empresariais, conselhos, entidades de classe e organizações representativas ocupam funções que possuem uma determinada liturgia. Não se trata de exigir comportamento burocrático, linguagem engessada ou submissão ao poder público. Trata-se de compreender que, quanto maior a representatividade, maior também é a responsabilidade sobre aquilo que se fala em nome ou na condição de dirigente daquela instituição.

Marco Aurélio pode criticar prefeito. Pode criticar secretário. Pode discordar de procurador, vereador ou qualquer outra autoridade. Pode denunciar, cobrar, mobilizar e judicializar. Autoridades eleitas ou nomeadas para exercer funções públicas também estão sujeitas à fiscalização e à crítica. Mas a crítica institucional não precisa ser substituída por bate-boca, e firmeza não precisa ser confundida com provocação pessoal.

Há ainda um componente adicional. O presidente do Sintram representa trabalhadores com pensamentos políticos, ideológicos e pessoais diferentes entre si. A instituição é maior que qualquer disputa individual de seu dirigente. Preservar a liturgia do cargo é, portanto, também uma maneira de preservar o próprio sindicato e impedir que conflitos pessoais sejam confundidos com a posição coletiva dos servidores representados.

O próprio Marco Aurélio já cobrou cautela nas redes

Há uma contradição que merece registro. Em episódio anterior envolvendo servidores de uma unidade de saúde de Divinópolis, o próprio Marco Aurélio pediu publicamente cautela com julgamentos e com a disseminação de informações falsas nas redes sociais, argumentando que manifestações precipitadas poderiam prejudicar servidores e investigações. A declaração foi publicada pelo próprio Sintram.

O princípio utilizado naquele momento permanece válido para qualquer dirigente institucional: a rapidez das redes sociais não precisa determinar a forma como uma entidade conduz um conflito. Um presidente sindical tem à disposição mais instrumentos que um participante comum de grupo de WhatsApp, justamente porque fala a partir de uma estrutura que possui diretoria, assessoria, jurídico e representatividade. É dessa estrutura que deveria vir sua força.

Firmeza, sim. Infantilização do debate, não

Expressões como “colocar fogo”, “vamos para o ataque”, “bombas” e outras provocações podem até ser tratadas por quem as utiliza como força de expressão, brincadeira ou linguagem coloquial. Mas, quando utilizadas reiteradamente por quem ocupa a presidência de uma entidade representativa, empobrecem a discussão e conferem um tom de infantilidade a um conflito que deveria ser conduzido institucionalmente.

A categoria não precisa de um presidente silencioso. Precisa de um presidente firme. Não precisa de alguém que concorde com prefeitos e secretários. Precisa de alguém capaz de enfrentá-los quando necessário. Mas esse enfrentamento ganha força quando vem acompanhado de documento, lei, assembleia, ação judicial, negociação, denúncia formal e mobilização legítima, e não quando se perde em disputas pessoais nas redes.

O Sintram tem instrumentos institucionais suficientes para fazer valer a representação que possui. Quanto maior a força da entidade, menor deveria ser a necessidade de transformar cada divergência em bate-boca.

O Divinews mantém o espaço aberto para que o Sintram, caso queira, se manifeste institucionalmente sobre os fatos abordados. Havendo posicionamento da entidade, este artigo de opinião será atualizado para incorporar o contraditório.

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Matéria produzida a partir de apuração e orientação editorial do Divinews. IA foi utilizada como apoio na organização e estruturação do conteúdo, a partir de comandos definidos pela redação. O texto foi revisado e validado antes da publicação.

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