Um dos fundadores do Banco Inter, o empresário mineiro Marcos Alberto Cabaleiro Fernandez, aparece entre os grandes doadores das Eleições 2026 com uma característica que chama atenção: distribuiu recursos entre candidatos de partidos que ocupam campos políticos adversários. Fernandez destinou R$ 200 mil à campanha de Edinho Silva, presidente nacional do PT e candidato a deputado federal por São Paulo, e o dobro, R$ 400 mil, para Flávio Roscoe (PL), candidato ao Governo de Minas Gerais. No total, são R$ 600 mil destinados até agora às duas campanhas. A movimentação foi revelada pela coluna de Lauro Jardim, de O Globo, e também aparece em dados de financiamento eleitoral divulgados com base nas prestações encaminhadas à Justiça Eleitoral.
Flávio Roscoe recebeu o dobro do valor destinado a Edinho
A maior doação de Fernandez neste início de campanha foi feita em Minas Gerais. Flávio Roscoe recebeu R$ 400 mil, valor que representa o dobro dos R$ 200 mil direcionados ao presidente nacional do PT.
Roscoe deixou temporariamente a presidência da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) para disputar o governo mineiro pelo PL e iniciou a campanha tentando ocupar o espaço da direita no Estado. Segundo plataforma que sistematiza os dados do DivulgaCandContas do TSE, os R$ 400 mil de Fernandez aparecem entre as maiores contribuições individuais recebidas pela candidatura do empresário do setor industrial.
Os dados de financiamento disponíveis nesta fase da eleição ainda são parciais e podem ser atualizados à medida que novas receitas são comunicadas. As campanhas têm prazo para informar os recursos recebidos à Justiça Eleitoral, razão pela qual os totais podem mudar durante o período eleitoral.
Do outro lado está o presidente nacional do PT
Os outros R$ 200 mil foram destinados a Edinho Silva, atual presidente nacional do Partido dos Trabalhadores e candidato a uma cadeira de deputado federal por São Paulo.
Ex-prefeito de Araraquara, Edinho está diretamente envolvido na estratégia eleitoral do PT e também na campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Sua candidatura à Câmara dos Deputados foi lançada oficialmente neste mês, em um evento realizado em Araraquara com a participação de lideranças nacionais.
O resultado é uma situação politicamente curiosa: o mesmo empresário ajuda financeiramente o presidente do partido de Lula e, simultaneamente, um candidato do PL ao Governo de Minas, legenda que ocupa o principal campo de oposição ao petismo na eleição nacional.
Isso, por si só, não configura irregularidade. Doadores pessoas físicas podem financiar candidatos de diferentes partidos e diferentes correntes ideológicas, desde que cumpram os limites e demais exigências da legislação eleitoral.
Empresário já fez doações à direita e à esquerda
A diversificação política não começou em 2026. Nas eleições de 2022, Fernandez destinou cerca de R$ 1,35 milhão a diferentes partidos e candidaturas. Entre as contribuições registradas naquele pleito estavam R$ 700 mil para a direção do Novo em Minas Gerais, R$ 250 mil ao Solidariedade no Amapá e outros R$ 250 mil ao União Brasil no mesmo estado.
Também houve R$ 100 mil para Celinho Sintrocel, então candidato à reeleição para deputado estadual pelo PCdoB em Minas, e R$ 50 mil para Rogério Marinho, do PL do Rio Grande do Norte, que acabou eleito senador. Atualmente, Marinho exerce papel de destaque na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro.
Ou seja, o histórico mostra que Fernandez não restringe suas contribuições a uma única corrente ideológica. Nas duas últimas eleições, seu dinheiro eleitoral alcançou partidos que vão do PCdoB e PT ao Novo e PL, passando por União Brasil e Solidariedade.
Quem é Marcos Cabaleiro Fernandez
Marcos Alberto Cabaleiro Fernandez é empresário mineiro e ficou conhecido principalmente pela atuação no setor financeiro e imobiliário. Ele esteve entre os fundadores do Banco Inter e também integrou o conselho de administração da MRV, duas empresas de forte presença nacional.
Segundo a publicação que revelou as contribuições deste ano, Fernandez figurava, naquele momento, como o terceiro maior doador pessoa física das Eleições 2026. Esse ranking é necessariamente provisório porque a arrecadação continua em andamento e novas receitas são informadas diariamente pelas campanhas.
A relevância das doações também fica mais evidente quando observada dentro da arrecadação de Roscoe. Dados compilados a partir do TSE mostravam a candidatura mineira recebendo milhões de reais em recursos privados, com Fernandez aparecendo entre seus principais financiadores individuais.
Pessoa física pode doar, mas existe limite
Desde a proibição das doações empresariais para campanhas, as contribuições privadas devem partir de pessoas físicas, além dos recursos próprios dos candidatos e dos fundos públicos administrados pelos partidos.
Para as Eleições 2026, o TSE estabelece que uma pessoa física pode doar até 10% dos rendimentos brutos obtidos no ano anterior à eleição. Isso significa que o limite não é igual para todos os cidadãos: depende da renda declarada por cada doador.
Doações em dinheiro superiores a R$ 1.064,10 precisam ser feitas por meios que garantam rastreabilidade, como transferência eletrônica entre contas bancárias ou cheque nominal e cruzado. A legislação também proíbe recursos provenientes de pessoas jurídicas, fontes estrangeiras e concessionárias ou permissionárias de serviço público.
Portanto, não há elemento nas informações consultadas que indique irregularidade nas duas contribuições de Fernandez. Os valores precisam ser analisados dentro das regras de renda e prestação de contas estabelecidas pela Justiça Eleitoral, e as receitas ficam sujeitas à fiscalização durante a campanha.
Doação política nem sempre segue uma única ideologia
O caso chama atenção porque expõe uma característica do financiamento eleitoral privado que nem sempre acompanha a polarização vista no discurso político.
Eleitores normalmente são chamados a escolher entre projetos distintos. Grandes doadores, entretanto, podem decidir apoiar mais de um candidato, inclusive concorrentes ideologicamente distantes. As razões podem envolver identificação pessoal, relações profissionais, avaliação sobre projetos específicos, vínculos regionais ou simples preferência por diferentes nomes em disputas que não são diretamente concorrentes.
No caso de Fernandez, os dois beneficiários sequer disputam o mesmo cargo ou o mesmo estado: Edinho tenta uma vaga de deputado federal em São Paulo, enquanto Roscoe concorre ao Governo de Minas.
Ainda assim, politicamente, a composição é simbólica: de um lado está o presidente nacional do partido de Lula; do outro, um candidato do PL, legenda que abriga a principal força de oposição ao atual presidente. E o empresário decidiu colocar dinheiro nos dois lados.






