1.204 entrevistados representam 16,3 milhões de eleitores? Entenda a pesquisa Datafolha de Minas por dentro

Levantamento MG-00446/2026 colocou Cleitinho com 32%, mas por trás dos percentuais há amostragem, margem de erro, perguntas espontâneas e estimuladas, rejeição e recortes políticos que ajudam a entender o que a pesquisa realmente mede

Publicado por: Geraldo Passos

Uma pesquisa feita com 1.204 pessoas pode dizer alguma coisa sobre a opinião de mais de 16 milhões de eleitores mineiros? A pergunta surge sempre que levantamentos eleitorais ganham repercussão. No Datafolha divulgado nesta sexta-feira (21), que colocou Cleitinho Azevedo (Republicanos) com 32% das intenções de voto para o Governo de Minas, Patrus Ananias (PT) e Alexandre Kalil (PDT) com 12% cada, apenas 1.204 eleitores foram entrevistados. Minas Gerais, entretanto, possui 16.377.659 pessoas aptas a votar nas Eleições de 2026. O Divinews foi além dos percentuais e analisou o que está por trás da pesquisa registrada na Justiça Eleitoral sob o número MG-00446/2026.

O levantamento foi realizado pelo Datafolha Instituto de Pesquisas e contratado pela Folha de S.Paulo e TV Globo. A coleta efetivamente divulgada ocorreu entre os dias 18 e 20 de agosto, com 1.204 eleitores de Minas Gerais. A margem de erro máxima informada é de três pontos percentuais para mais ou para menos, dentro de um nível de confiança de 95%.

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O registro MG-00446/2026 havia sido feito na Justiça Eleitoral em 15 de agosto, antes do início do trabalho de campo. Informações públicas sobre o registro indicavam a utilização de modelo de amostra aleatória simples (AAS) para o cálculo estatístico informado e já antecipavam que o questionário testaria 11 candidatos ao Governo e 17 candidatos ao Senado.

1.204 pessoas contra 16,3 milhões: como isso é possível?

O primeiro ponto é entender que uma pesquisa eleitoral não tenta ouvir uma fração fixa de todo o eleitorado.

Em estatística, uma amostra adequadamente construída pode produzir estimativas sobre uma população muito maior. O tamanho do universo não exige que milhões de pessoas sejam entrevistadas para que se obtenha uma estimativa com margem de erro conhecida.

O que importa não é simplesmente a quantidade de pessoas ouvidas, mas como essa amostra é formada, distribuída e tratada estatisticamente.

A legislação eleitoral determina que, antes da divulgação, os institutos registrem informações sobre metodologia, plano amostral e ponderações relacionadas a gênero, idade, grau de instrução, nível econômico e área geográfica, além do nível de confiança e margem de erro. Também são exigidos mecanismos de controle e fiscalização do trabalho de campo e o questionário utilizado.

Portanto, não seria correto interpretar o Datafolha como se 1.204 pessoas tivessem sido escolhidas sem qualquer critério e suas respostas simplesmente multiplicadas para representar Minas Gerais. É justamente o desenho estatístico que permite transformar a amostra em uma estimativa do comportamento do universo pesquisado.

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Margem de erro não significa simplesmente somar e diminuir três

O Datafolha informa margem máxima de erro de três pontos percentuais para o conjunto da pesquisa. Isso significa que os percentuais apresentados são estimativas, e não uma contagem exata da preferência dos 16,3 milhões de eleitores mineiros.

Cleitinho apareceu com 32%, enquanto Patrus e Kalil registraram 12%. Mesmo considerando a incerteza amostral informada pelo instituto, a distância de 20 pontos mantém Cleitinho isolado numericamente na liderança do levantamento.

Mas essa mesma lógica exige muito mais cautela quando dois candidatos aparecem próximos. Há ainda outro detalhe importante: a margem de erro aumenta quando se analisam grupos menores dentro da amostra.

O próprio Datafolha informou que, nos recortes de eleitores classificados como petistas e bolsonaristas, a margem chega a cinco pontos percentuais. Entre os não alinhados a nenhum dos dois polos, chega a seis pontos. Ou seja: quanto menor o grupo analisado dentro das 1.204 entrevistas, maior tende a ser a incerteza estatística.

Antes de mostrar os candidatos, Datafolha perguntou sem apresentar nomes

Outro detalhe fundamental está no questionário. A pesquisa não se resumiu à pergunta: “Em quem você vai votar para governador?”. Primeiro foi feita uma pergunta espontânea, ou seja, sem apresentar ao eleitor uma lista de candidatos.

Nesse momento, Cleitinho apareceu com 15%, Patrus e Kalil tiveram 3% cada e Mateus Simões registrou 1%. O dado mais expressivo, entretanto, foi outro: 64% não souberam espontaneamente dizer em quem votariam.

Somente posteriormente veio o cenário estimulado, no qual os nomes dos candidatos são apresentados ao entrevistado. Foi nesse cenário que Cleitinho atingiu 32%, Patrus e Kalil chegaram a 12%, enquanto Mateus Simões, Flávio Roscoe e Gabriel Azevedo marcaram 4%.

A diferença entre os dois resultados é importante. Na espontânea, o eleitor precisa lembrar sozinho de um candidato. Na estimulada, ele escolhe entre os nomes apresentados.

Por isso, comparar 15% da espontânea de Cleitinho diretamente com os 32% da estimulada como se fossem pesquisas distintas seria uma leitura inadequada. As perguntas medem situações diferentes.

Onze nomes foram apresentados para o Governo de Minas

O questionário registrado para a disputa estadual contemplou 11 candidatos: Alexandre Kalil, Ben Mendes, Cleitinho Azevedo, Flávio Roscoe, Gabriel Azevedo, Henrique Áreas, Indira Xavier, Mateus Simões, Patrus Ananias, Professor Túlio Lopes e Rafael Duda.

A inclusão dos candidatos no cenário não é uma escolha livre do instituto depois do registro das candidaturas. Para as Eleições de 2026, o TSE determinou que, após a publicação dos editais de registro, levantamentos estimulados devem contemplar os nomes que tiveram candidatura requerida, observadas as regras para situações sub judice.

Pesquisa também mediu rejeição

O questionário não perguntou apenas em quem o eleitor votaria. O Datafolha também apresentou os candidatos para saber em quais deles o entrevistado não votaria de jeito nenhum.

Esse resultado produz uma fotografia diferente da intenção de voto. Patrus Ananias apresentou a maior rejeição, com 29%. Alexandre Kalil chegou a 23%, Flávio Roscoe a 17%, enquanto Cleitinho e Mateus Simões registraram 14% cada.

Isso ajuda a compreender por que olhar apenas o percentual de intenção de voto não conta toda a história de uma eleição. Um candidato pode ter eleitorado consolidado e, simultaneamente, enfrentar alto índice de rejeição, o que poderá adquirir importância maior principalmente em eventual segundo turno.

O questionário foi além da corrida eleitoral

Outro ponto pouco percebido quando apenas os números da manchete são divulgados é que o mesmo levantamento avaliou a administração do governador Mateus Simões. Os entrevistados foram perguntados se consideravam o governo ótimo, bom, regular, ruim ou péssimo e também se aprovavam ou desaprovavam o trabalho do governador. Essas perguntas já estavam previstas no questionário antes da pesquisa ir a campo.

No resultado divulgado, 23% avaliaram o governo como ótimo ou bom, 37% como regular e 15% como ruim ou péssimo. Em outra pergunta, 41% disseram aprovar o trabalho de Simões, enquanto 32% desaprovavam e 27% não souberam responder.

É possível, portanto, que um eleitor aprove determinado governo e, ainda assim, não declare voto no governador. Esse é justamente o caso que chama atenção neste levantamento: Simões aparece com 41% de aprovação do trabalho, mas apenas 4% na intenção estimulada de voto. As perguntas medem conceitos diferentes.

A pesquisa também investigou o eleitorado político de cada candidato

Os resultados permitem ainda observar como os candidatos estão posicionados dentro de diferentes segmentos políticos. Cleitinho registra 56% entre os eleitores classificados como bolsonaristas, mas também aparece com 15% entre petistas e 27% entre os não alinhados.

Patrus alcança 26% entre petistas, mas apenas 2% entre bolsonaristas e 5% entre não alinhados. Kalil, por sua vez, registra 14% entre petistas, 6% entre bolsonaristas e 16% entre os não alinhados.

Esses recortes não substituem o resultado geral. Como são formados por subconjuntos menores da amostra, apresentam margens de erro maiores. Mas ajudam a revelar de onde, politicamente, vem a força de cada candidatura.

Senado também estava dentro das mesmas 1.204 entrevistas

O MG-00446/2026 não pesquisou somente governador. O questionário também avaliou as duas vagas de Minas Gerais para o Senado Federal. Nesse caso, 17 candidatos foram apresentados aos entrevistados. Antes da lista estimulada, o Datafolha fez perguntas espontâneas para a primeira e para a segunda escolha ao Senado.

No resultado divulgado, Marília Campos apareceu numericamente à frente com 11%, seguida por Carlos Viana, com 8%; Domingos Sávio, 6%; e Marcelo Aro, 5%. Como há duas vagas em disputa e diferenças pequenas entre os primeiros colocados, a leitura estatística do Senado é muito mais aberta que a observada atualmente na corrida pelo Governo.

Quem contratou?

O levantamento foi realizado pelo Datafolha e contratado pela Folha de S.Paulo e pela TV Globo. A legislação eleitoral exige que o registro identifique quem contratou, o valor e a origem dos recursos, quem efetuou o pagamento e a documentação fiscal correspondente.

O Divinews, entretanto, não encontrou nas páginas públicas acessíveis durante esta consulta o valor específico do levantamento MG-00446/2026 e, por segurança, não publica uma cifra sem confirmação documental. A base de Dados Abertos do próprio TSE disponibiliza separadamente arquivos de pesquisas, contratantes, pagantes, notas fiscais, questionários e detalhamento de bairros e municípios.

Quantas cidades foram pesquisadas?

Esse é outro dado que merece atenção. Desde as mudanças aprovadas para 2026, os institutos têm obrigação de complementar o registro com informações territoriais mais detalhadas e apresentar a composição final da amostra quanto a gênero, idade, escolaridade e nível econômico, além da distribuição geográfica compatível com a metodologia utilizada.

O Portal de Dados Abertos do TSE possui, inclusive, um recurso específico denominado “Detalhamento de bairro/município” para as pesquisas eleitorais de 2026.

Na consulta feita para esta reportagem, porém, o sistema individual do PesqEle apresentou bloqueio de acesso externo e as fontes acessíveis não permitiram confirmar com segurança quantos municípios mineiros compuseram especificamente a amostra MG-00446/2026 nem quantas entrevistas foram realizadas em cada um.

O Divinews prefere deixar essa informação pendente a publicar uma distribuição territorial não confirmada.

Estar registrado no TSE significa que o TSE aprovou a pesquisa?

Não. Essa é provavelmente uma das informações mais importantes para compreender pesquisas eleitorais. O próprio Tribunal Superior Eleitoral esclarece expressamente que a Justiça Eleitoral não realiza controle prévio dos resultados das pesquisas e não gerencia sua divulgação. O Tribunal atua quando é provocado por meio dos instrumentos previstos na legislação.

Portanto, escrever simplesmente que uma pesquisa foi “aprovada pelo TSE” seria incorreto. O correto é dizer:

A pesquisa foi registrada na Justiça Eleitoral sob o número MG-00446/2026.

O registro significa que o instituto submeteu as informações exigidas para aquele levantamento. Não significa que ministros ou técnicos do TSE tenham previamente certificado que os percentuais divulgados estão “corretos”. Pesquisa é fotografia, não urna antecipada. O próprio Datafolha ressalta que os resultados não são prognósticos eleitorais.

A pesquisa mostra como os entrevistados responderam naquele período específico, entre 18 e 20 de agosto. A campanha oficial havia começado poucos dias antes. Candidatos ainda terão propaganda eleitoral, debates, entrevistas, agendas pelo estado e semanas de campanha para tentar conquistar ou perder eleitores.

Por isso, o número mais importante nas próximas pesquisas talvez não seja apenas saber quem está na frente. Será observar quem cresceu, quem caiu, quem reduziu rejeição e, principalmente, se os 64% que ainda não citaram espontaneamente um candidato começarão a fazer suas escolhas.

 

Nota de transparência: esta reportagem foi produzida a partir de apuração e orientação editorial de jornalista do Divinews. Ferramentas de Inteligência Artificial foram utilizadas como apoio na organização e estruturação do conteúdo, a partir de comandos (prompts) definidos pela redação. O texto foi revisado e validado editorialmente antes da publicação. A imagem que ilustra esta matéria foi gerada por Inteligência Artificial, também sob orientação editorial do Divinews.

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