A candidata a deputada estadual Marcelina Liberato, da Rede Sustentabilidade, foi a entrevistada da noite desta segunda-feira (17) no Palanque Político Eleitoral Divinews. Em uma conversa que percorreu sua trajetória pessoal, formação profissional, atuação em movimentos sociais e propostas para Minas Gerais, Marcelina afirmou que decidiu entrar na disputa eleitoral depois de perceber que muitas das causas que defende dependem diretamente da formulação de políticas públicas. Mulher negra, jornalista, mestre em Educação Profissional e Tecnológica e ativista social, ela apresentou uma candidatura que, segundo definiu, pretende colocar diversidade e equidade no centro do debate, mas sem restringir sua atuação a grupos específicos. “A minha bandeira não é só a negritude, não é só a mulher. Minhas bandeiras são pessoas”, afirmou.
“Eu faço política o tempo inteiro”
Ao explicar por que decidiu transformar a atuação social em uma candidatura eleitoral, Marcelina contou que até fevereiro deste ano não pensava concretamente em disputar uma eleição. Segundo ela, a decisão amadureceu após ser convidada e ouvir de pessoas próximas que sua própria trajetória já era marcada pela política, ainda que fora das estruturas partidárias e dos mandatos eletivos.
A candidata relacionou sua decisão às diferentes frentes em que atua. Disse que a defesa das mulheres, das pessoas com deficiência, da população negra, da saúde e do emprego acaba esbarrando na necessidade de políticas públicas. Foi nesse contexto, segundo ela, que decidiu tentar ocupar um dos espaços em que essas políticas são discutidas e construídas. “Já que ninguém faz, então vou lá tentar ver o que dá para a gente fazer na medida do possível, porque salvar o mundo, isso é impossível. Mas o que dá para a gente fazer, vai ser feito”, declarou.
Marcelina também apresentou parte de sua formação. Disse ser jornalista, possuir cinco pós-graduações e mestrado em Educação Profissional e Tecnológica, além de desenvolver atuação em diferentes causas sociais. Ao recordar sua origem, afirmou ser filha de operador de máquinas e costureira, ter começado a trabalhar cedo e ter vivido em diferentes regiões do Brasil em razão da profissão do pai.
Trabalho na Câmara e campanha fora do expediente
Durante a entrevista, Marcelina também respondeu sobre sua atividade profissional na Câmara Municipal de Divinópolis. Ela esclareceu que é trabalhadora contratada pelo regime CLT por uma empresa terceirizada e atua na comunicação da Escola do Legislativo.
Segundo a candidata, quando decidiu concorrer, chegou a solicitar licença não remunerada, mas foi informada de que essa alternativa não seria possível e que a opção seria pedir demissão. Marcelina afirmou que não pretende deixar o emprego por depender dele para sua subsistência. Disse ainda que separa sua atividade profissional da campanha e realiza as ações político-eleitorais fora do expediente, à noite, nos fins de semana e feriados.
“Minha candidatura não é excludente”
Uma das questões levantadas pelo Divinews foi justamente se a forte identificação de Marcelina com os movimentos negro e de mulheres poderia fazer com que sua candidatura fosse percebida como direcionada apenas a esses segmentos.
A candidata respondeu que sua condição de mulher negra naturalmente acompanha sua trajetória e suas bandeiras, mas sustentou que pretende representar um conjunto mais amplo da população mineira.
“Eu vou lutar por pessoas. E pessoas não têm cor, não têm raça, não têm gênero, não têm situação financeira”, declarou, acrescentando que saúde, educação e segurança também estarão entre suas pautas.
“Minha candidatura não é uma candidatura excludente, não. Ela é includente. Então, eu vou lutar por todos, não é só pelo meu povo. Não, mas é pelo meu povo também”, completou.
Violência contra a mulher: Marcelina cobra políticas que saiam do papel
A violência contra a mulher ocupou parte significativa da entrevista. Questionada sobre o crescimento dos registros e sobre a possibilidade de esse aumento também estar relacionado à maior disposição das vítimas para denunciar, Marcelina ponderou que é necessário aprofundar pesquisas para compreender o fenômeno.
Para ela, mulheres foram historicamente silenciadas e agressores permaneceram, muitas vezes, sem punição. A maior circulação de informações e a conscientização estariam contribuindo para que mais vítimas falassem sobre a violência. Marcelina defendeu, porém, que a existência de legislação não é suficiente sem sua aplicação efetiva.
“Não adianta só existir a lei, ela precisa ser cobrada, ela precisa ser colocada em prática, porque lei no papel a gente tem um monte, mas a prática ainda é baixa”, afirmou.
Racismo e desigualdade entram no centro da conversa
O debate avançou também para o racismo estrutural, a abordagem policial e a desigualdade de oportunidades. Marcelina defendeu educação antirracista e afirmou que determinadas situações enfrentadas pela população negra podem ser frequentes, mas não devem ser naturalizadas.
Ao falar de sua própria trajetória, afirmou que formação acadêmica e qualificação profissional nem sempre são suficientes para romper barreiras que, em sua avaliação, continuam presentes na sociedade. Marcelina citou sua formação, cursos, conhecimento em terras raras e domínio de idiomas para exemplificar a necessidade que sente de provar continuamente sua capacidade profissional.
“Por mais que a gente faça, a gente sabe que a educação é o princípio de tudo”, afirmou.
Educação, tecnologia e riqueza mineral de Minas
Foi na parte dedicada à economia, educação profissional, mineração e terras raras que Marcelina apresentou um dos eixos mais específicos de sua visão para um eventual mandato na Assembleia Legislativa.
A candidata argumentou que Minas Gerais possui enorme riqueza mineral, mas precisa transformar essa vantagem natural em conhecimento, tecnologia, qualificação profissional, emprego e desenvolvimento dentro do próprio Estado. Para isso, defendeu investimentos em educação, pesquisa e inovação.
Marcelina citou como exemplo produtos tecnológicos e próteses fabricados no exterior a partir de conhecimentos e matérias-primas que, em sua avaliação, poderiam gerar maior valor agregado em Minas.
“A gente precisa investir em quem está sobre esse chão, investir em educação, investir em pesquisa, em tecnologia, em inovação, porque Minas tem condições de fazer coisas que a gente importa hoje”, declarou.
Terras raras: candidata alerta para Minas não ficar apenas com impactos da mineração
A discussão ganhou ainda mais profundidade quando o Divinews questionou Marcelina sobre terras raras e o contraste entre a riqueza extraída do solo mineiro e a situação socioeconômica de municípios mineradores.
Ela lembrou que minerais classificados nesse grupo possuem aplicações estratégicas em celulares, computadores, veículos elétricos e diversas tecnologias modernas. A candidata defendeu que Minas não se limite à extração de matéria-prima, mas desenvolva conhecimento e capacidade tecnológica para participar das etapas de maior valor econômico dessa cadeia.
Marcelina também manifestou preocupação com impactos ambientais e de saúde decorrentes de processos inadequados de mineração e defendeu formação técnica especializada para que o Estado esteja preparado para uma eventual expansão dessa atividade.
“Minas precisa investir em tecnologia”, resumiu. Para ela, escolas técnicas, universidades, centros tecnológicos e institutos federais precisam participar desse processo de preparação da mão de obra mineira.
No pingue-pongue, “mineração com preservação”
Na reta final, o Palanque Político Eleitoral Divinews colocou Marcelina diante de perguntas rápidas. Questionada entre cota racial ou social, respondeu “ambas”. Entre ensino técnico ou universidade, inicialmente destacou o ensino técnico, mas concluiu que as duas modalidades são necessárias. Sobre mineração ou preservação, respondeu: “Mineração com preservação”.
As respostas reforçaram um dos fios condutores de praticamente toda a entrevista: a tentativa de conciliar desenvolvimento econômico, exploração das riquezas naturais, educação e redução das desigualdades.
“Minas é quase um país”
Nas considerações finais, Marcelina voltou ao potencial econômico mineiro e afirmou que a população precisa compreender melhor o valor das riquezas existentes no Estado. Para a candidata, explorar essas riquezas sem gerar desenvolvimento local pode perpetuar problemas sociais e ambientais.
“Minas é quase um país. Minas tem uma riqueza que o mineiro não sabe, que ele desconhece, mas que o mundo lá fora sabe”, declarou.
Marcelina encerrou defendendo diversidade e equidade como princípios de sua campanha. “Nós temos uma riqueza que está debaixo do chão, mas por que essa riqueza não vem para cima para nós mineiros?”, questionou.
A entrevista integrou o Palanque Político Eleitoral Divinews, espaço de entrevistas do portal voltado às Eleições 2026 e à apresentação e discussão das ideias dos candidatos com o eleitorado.






