Rodada nacional da Quaest para a eleição presidencial de 2026 mostra Lula (PT) na liderança com 38% das intenções de voto, seguido por Flávio Bolsonaro (PL), com 31%. Entretanto, uma análise detalhada dos números feita pelo Divinews revela que o placar nacional esconde eleições completamente diferentes dentro do próprio país. Lula constrói suas maiores vantagens entre eleitores de baixa renda, pessoas com ensino fundamental, católicos, moradores do Nordeste e eleitores mais velhos. Flávio, por sua vez, assume a liderança entre os evangélicos, nos estratos de maior renda e no Sul, além de apresentar desempenho mais competitivo entre homens e eleitores de escolaridade média e superior. Mais importante: quando nenhum nome é apresentado, 51% dos brasileiros ainda não sabem ou não dizem espontaneamente em quem pretendem votar, sinal de que uma parcela enorme do eleitorado continua disponível para ser conquistada durante a campanha.
Espontânea mostra eleição muito menos definida
A diferença entre as duas formas de pergunta é uma das informações mais importantes do levantamento. Na espontânea, Lula é citado por 25% e Flávio Bolsonaro por 19%, enquanto outros nomes somam apenas 3%. O dado que mais chama atenção, porém, são os 51% de indecisos. Quando a lista completa é apresentada pela Quaest, Lula sobe para 38%, Flávio alcança 31%, Renan Santos e Ronaldo Caiado aparecem com 4% cada, Augusto Cury e Romeu Zema registram 2%, e os indecisos caem para 10%.
A comparação não representa crescimento temporal dos candidatos, pois espontânea e estimulada são metodologias distintas. Ela mostra, porém, quanto do eleitorado já associa determinado nome naturalmente ao voto e quanto precisa visualizar as opções para fazer uma escolha. Lula possui vantagem de seis pontos sobre Flávio na espontânea e de sete pontos na estimulada, mantendo praticamente a mesma distância geral entre os dois.
Lula consegue vantagem maior entre mulheres
O eleitorado feminino representa uma das fortalezas do petista. Entre as mulheres, Lula registra 23% espontaneamente contra 15% de Flávio. Na estimulada, a distância aumenta para 39% a 28%. Entre os homens, Lula também aparece com 39%, mas Flávio chega a 34%, diminuindo a diferença para cinco pontos. Outro dado relevante é a maior indefinição feminina: 59% das mulheres não apresentam candidato espontaneamente, ante 43% dos homens.
Entre os jovens, praticamente tudo está aberto
A idade revela outro movimento. Entre brasileiros de 16 a 34 anos, Lula e Flávio estão muito próximos: 19% a 16% espontaneamente e 34% a 31% na estimulada. Considerando a margem de erro específica desse grupo, de quatro pontos, não é possível tratar essa diferença como uma vantagem estatisticamente consolidada. A distância aumenta entre os eleitores mais velhos: Lula vence por 40% a 32% entre pessoas de 35 a 59 anos e por 43% a 30% entre aqueles com 60 anos ou mais.
Ensino fundamental concentra a maior vantagem de Lula
Quando a pesquisa é dividida por escolaridade, surgem três cenários bastante diferentes. Lula chega a 48% contra 25% de Flávio entre quem tem ensino fundamental, diferença de 23 pontos. No ensino médio, Flávio aparece numericamente à frente, 35% a 33%, mas dentro da margem de erro. Entre brasileiros com ensino superior, há empate exato em 32%. Na espontânea, Lula lidera fortemente no fundamental, por 30% a 12%, Flávio aparece numericamente à frente no médio, por 23% a 21%, enquanto no superior Lula registra 25% e Flávio 22%.
A renda produz uma divisão ainda mais profunda
A separação econômica talvez seja uma das fotografias mais nítidas do levantamento. Entre famílias que recebem até dois salários mínimos, Lula alcança 52% na estimulada contra 23% de Flávio, uma vantagem de 29 pontos. Na espontânea, a distância também é enorme: 34% a 12%. Entre quem recebe mais de dois e até cinco salários mínimos, a eleição praticamente empata, com Lula em 34% e Flávio em 33%. Já entre aqueles com renda acima de cinco salários mínimos, a situação se inverte: Flávio lidera por 36% a 31%, repetindo a vantagem já observada na espontânea, de 26% a 22%.
Religião cria duas bases eleitorais quase opostas
Entre católicos, Lula aparece com ampla vantagem: 47% contra 27% na estimulada e 31% contra 19% na espontânea. Entre evangélicos ocorre justamente o contrário. Flávio Bolsonaro chega a 43% contra 24% de Lula, depois de já liderar espontaneamente por 23% a 16%.
Esse segmento apresenta ainda uma das maiores diferenças entre voto lembrado espontaneamente e voto estimulado. Flávio passa de 23% para 43% entre evangélicos quando seu nome é apresentado. São 20 pontos de diferença entre as duas modalidades de pergunta, evidenciando o potencial eleitoral que o candidato encontra nesse público.
Nordeste e Sul estão em polos opostos; Sudeste vira campo de batalha
A geografia eleitoral também divide o Brasil. No Nordeste, Lula lidera de forma contundente: 57% contra 23% na estimulada, além de 42% a 15% espontaneamente. No Sul, Flávio domina: 40% contra 25%, depois de já aparecer com 27% contra 13% na pergunta espontânea.
O Sudeste, que concentra a maior parcela do eleitorado nacional, apresenta uma configuração muito mais apertada. Na espontânea, Lula tem 20% e Flávio 19%. Quando os nomes são apresentados, Flávio registra 35% e Lula 32%, diferença numericamente favorável ao candidato do PL, mas dentro da margem de erro de três pontos da região. No agrupamento Centro-Oeste/Norte, Lula registra 36% contra 26%, depois de liderar também espontaneamente, por 24% a 16%.
A eleição é polarizada, mas ainda não está cristalizada
Os números mostram uma disputa já bastante concentrada em Lula e Flávio Bolsonaro. Juntos, os dois alcançam 69% na estimulada, deixando os demais candidatos muito atrás. Entretanto, há uma contradição importante: quando os entrevistadores retiram a lista e perguntam simplesmente em quem o brasileiro pretende votar, apenas 44% citam espontaneamente Lula ou Flávio, enquanto 51% permanecem indecisos.
Isso significa que o Brasil já apresenta uma estrutura clara de polarização, mas uma parcela expressiva dos eleitores ainda não transformou essa polarização em uma escolha espontânea consolidada. É justamente nesse espaço que entram a campanha eleitoral, os debates, as entrevistas, o horário eleitoral, as redes sociais e o desempenho dos próprios candidatos.
A Quaest ouviu 2.004 eleitores brasileiros com 16 anos ou mais entre os dias 10 e 13 de agosto, por meio de entrevistas pessoais domiciliares. A margem de erro geral é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado no TSE sob o número BR-06773/2026.
Análise da pesquisa
A leitura mais interessante dessa Quaest não está apenas no placar nacional de Lula 38% x 31% Flávio Bolsonaro na estimulada. Quando cruzamos a estimulada com a espontânea e abrimos sexo, idade, escolaridade, renda, religião e região, aparece um país eleitoralmente muito dividido — e também um eleitorado ainda longe de estar completamente cristalizado.
A pesquisa Quaest foi realizada entre 10 e 13 de agosto de 2026, com 2.004 entrevistas presenciais domiciliares. A margem de erro geral é de dois pontos percentuais, com 95% de confiança. Nos recortes demográficos, a margem varia conforme o tamanho de cada grupo, chegando, por exemplo, a seis pontos no Sul e cinco pontos entre pessoas com ensino superior.
O primeiro dado que muda a leitura: 51% não citam candidato espontaneamente
Na pergunta espontânea, quando nenhum nome é apresentado ao eleitor, Lula aparece com 25% e Flávio Bolsonaro com 19%. Outros candidatos somam apenas 3%, enquanto 51% estão indecisos e 2% dizem que votarão branco, nulo ou não votarão.
Quando a Quaest apresenta a lista de candidatos, o quadro muda radicalmente: Lula vai para 38%, Flávio para 31%, Renan Santos e Ronaldo Caiado aparecem com 4% cada, Augusto Cury e Romeu Zema com 2%, Samara Martins com 1%, enquanto os indecisos despencam para 10%.
Isso não significa que Lula “ganhou” 13 pontos ou que Flávio “ganhou” 12 pontos ao longo do tempo. São perguntas diferentes feitas dentro da mesma pesquisa. O que o cruzamento mostra é a diferença entre lembrança espontânea e escolha diante de uma lista de candidatos. Lula tem 25% de voto espontâneo e chega a 38% na estimulada; Flávio parte de 19% e alcança 31%. Ambos possuem um contingente relevante de eleitores que os escolhe quando seus nomes aparecem, mas que ainda não os menciona espontaneamente.
E há uma informação politicamente ainda mais importante: mais da metade do eleitorado, 51%, não consegue ou não quer apontar espontaneamente um candidato neste momento. Portanto, apesar da polarização evidente entre os dois primeiros colocados, existe muito espaço para campanha, debates, entrevistas, erros e acertos até a eleição.
Mulheres ampliam a vantagem de Lula; entre homens a disputa aperta
Entre as mulheres, Lula registra 23% espontaneamente contra 15% de Flávio, vantagem de oito pontos. Quando os nomes são apresentados, Lula chega a 39% e Flávio a 28%, aumentando a distância para 11 pontos. Entre elas, 59% ainda são indecisas na espontânea.
Entre os homens, Lula também lidera espontaneamente, por 29% a 22%, mas na estimulada a distância diminui: 39% a 34%. O dado sugere que Flávio Bolsonaro encontra entre homens um ambiente eleitoral significativamente mais competitivo do que entre mulheres. Na espontânea, apenas 43% dos homens aparecem como indecisos, contra 59% das mulheres.
Esse talvez seja um dos pontos estratégicos da campanha: Lula tem vantagem masculina, mas é entre as mulheres que constrói uma diferença mais confortável.
Jovens formam o segmento etário mais disputado
Entre eleitores de 16 a 34 anos, a espontânea mostra praticamente uma eleição aberta: Lula tem 19% e Flávio 16%. Na estimulada, o cenário permanece apertado, com 34% para Lula e 31% para Flávio. Considerando a margem de erro de quatro pontos para esse segmento, a diferença não permite afirmar vantagem estatisticamente segura.
A partir dos 35 anos, Lula cresce. Entre eleitores de 35 a 59 anos, registra 28% espontaneamente e 40% na estimulada, contra 20% e 32% de Flávio. Entre pessoas de 60 anos ou mais, a diferença é ainda maior: Lula marca 31% contra 18% espontaneamente e 43% contra 30% na estimulada.
O mapa etário, portanto, é claro: quanto mais jovem o eleitor, mais equilibrada fica a disputa entre Lula e Flávio; entre os mais velhos, Lula abre vantagem.
Escolaridade desenha três eleições diferentes
O corte por instrução é um dos mais reveladores. Entre pessoas com ensino fundamental, Lula domina: 30% espontaneamente contra 12% de Flávio. Na estimulada, a diferença aumenta para 48% a 25%, vantagem de 23 pontos.
No ensino médio, a lógica se inverte ligeiramente: Flávio marca 23% contra 21% de Lula espontaneamente e 35% contra 33% na estimulada. Trata-se, porém, de diferença dentro da margem de erro.
Entre os eleitores com ensino superior, Lula aparece com 25% contra 22% espontaneamente, mas os dois ficam exatamente empatados em 32% na estimulada. Como a margem de erro neste grupo é de cinco pontos, o cenário é de forte equilíbrio. A força mais evidente de Lula, portanto, está na base de menor escolaridade. Conforme o nível de instrução sobe, a vantagem desaparece.
Renda talvez seja a divisão social mais forte da pesquisa
Entre quem recebe até dois salários mínimos, Lula tem 34% espontaneamente contra apenas 12% de Flávio. Na estimulada, chega a 52%, enquanto Flávio marca 23%. São 29 pontos de vantagem, uma das maiores diferenças encontradas em todos os segmentos analisados.
Na faixa entre mais de dois e cinco salários mínimos, o quadro praticamente empata: na espontânea, Lula tem 22% e Flávio 19%; na estimulada, 34% a 33%.
Entre quem recebe mais de cinco salários mínimos, Flávio passa à frente: 26% contra 22% espontaneamente e 36% contra 31% na estimulada.
Em outras palavras: quanto menor a renda, maior a vantagem de Lula; conforme a renda aumenta, a disputa se equilibra e, no estrato superior, Flávio assume a dianteira.
Católicos e evangélicos formam dois eleitorados quase opostos
O corte religioso apresenta uma das maiores divisões políticas da pesquisa. Entre os católicos, Lula tem 31% espontaneamente e Flávio 19%. Na estimulada, Lula dispara para 47% contra 27%, uma vantagem de 20 pontos.
Entre os evangélicos, acontece exatamente o contrário. Flávio lidera a espontânea por 23% a 16% e amplia muito a vantagem quando os nomes são apresentados: 43% contra 24%. A diferença chega a 19 pontos.
Há ainda um detalhe relevante: entre evangélicos, Flávio salta 20 pontos da espontânea para a estimulada, de 23% para 43%, enquanto Lula sobe oito. Entre católicos ocorre o contrário em menor proporção: Lula passa de 31% para 47%, enquanto Flávio vai de 19% para 27%.
Isso mostra que o voto evangélico é um dos grandes reservatórios eleitorais de Flávio Bolsonaro, enquanto Lula encontra nos católicos uma de suas bases mais consistentes.
Nordeste é fortaleza de Lula; Sul é território de Flávio
Geograficamente, a eleição apresenta contrastes ainda maiores.
No Nordeste, Lula aparece com impressionantes 42% espontaneamente, contra 15% de Flávio. Na estimulada, chega a 57%, enquanto o adversário tem 23%. A diferença cresce de 27 para 34 pontos.
No Sul, o movimento é inverso. Flávio lidera espontaneamente por 27% a 13% e chega a 40% contra 25% na estimulada. É vantagem de 15 pontos, embora seja necessário observar que a margem de erro do Sul é elevada, de seis pontos.
O Sudeste aparece como um verdadeiro campo de batalha. Na espontânea, Lula e Flávio estão praticamente empatados, 20% a 19%. Na estimulada, Flávio passa numericamente à frente, por 35% a 32%, diferença dentro da margem de erro de três pontos do segmento.
No agrupamento Centro-Oeste/Norte, Lula lidera: 24% contra 16% espontaneamente e 36% a 26% na estimulada. A margem de erro é de cinco pontos. A fotografia regional é, portanto, quase uma eleição dentro de cada Brasil: Lula domina o Nordeste; Flávio domina o Sul; o Sudeste está altamente competitivo; e Lula mantém vantagem no Norte/Centro-Oeste agrupados pela pesquisa.






