Depois de meses em que a candidatura de Cleitinho Azevedo (Republicanos) ao Governo de Minas esteve entre confirmações, adiamentos, recuos e uma verdadeira enxurrada de interpretações políticas, a chapa finalmente chegou à Justiça Eleitoral. Cleitinho aparece no sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) como candidato a governador, tendo o ex-prefeito de Patos de Minas Luís Eduardo Falcão, também do Republicanos, como vice. O registro apareceu oficialmente às 7h23, deste sábado (15), encerrando formalmente uma das maiores novelas da pré-campanha mineira. A coligação recebeu o nome de “Minas é do Povo”. Como ocorre nesta fase do processo eleitoral, a candidatura consta como “aguardando julgamento”, o que significa que o pedido ainda será analisado pela Justiça Eleitoral.
O ponto final depois de meses de idas e vindas
A formalização tem peso político justamente pelo caminho percorrido até aqui. Durante meses, Cleitinho esteve no centro das especulações sobre a sucessão estadual. Ainda em junho, ele chegou a usar a tribuna do Senado para rebater notícias de que teria desistido. Na ocasião, reclamou publicamente das sucessivas matérias que davam como certa sua saída da disputa e reafirmou que a candidatura permanecia no horizonte.
A definição, entretanto, não veio. Cleitinho passou a condicionar a decisão à vontade popular e à própria convicção pessoal e religiosa. O anúncio foi sucessivamente postergado. Em julho, chegou ao quinto adiamento, deixando não apenas o Republicanos, mas também partidos interessados em uma composição eleitoral, especialmente o PL, aguardando uma resposta.
A indefinição ganhou dimensão ainda maior porque Cleitinho aparecia na liderança das pesquisas de intenção de voto. Levantamento Genial/Quaest realizado entre 22 e 26 de julho, por exemplo, apontou o senador com 35% no principal cenário estimulado, mais de 20 pontos à frente do segundo colocado naquele levantamento.
Convenção terminou sem Cleitinho e aumentou as dúvidas
Um dos capítulos mais emblemáticos aconteceu em 25 de julho. O Republicanos realizou sua convenção estadual na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, mas Cleitinho não compareceu. O senador vivia naquele momento o luto pela morte do irmão mais novo, Matheus Azevedo, vítima de leucemia. Sem a presença dele, o partido encerrou a convenção sem homologar sua candidatura ao Governo de Minas.
Mesmo naquele momento, Falcão já aparecia como o nome desenhado para ocupar a vice. Poucos dias antes da convenção, o ex-prefeito de Patos de Minas havia dito que chegaria ao encontro partidário como possível companheiro de chapa de Cleitinho. A ausência, entretanto, ampliou as interpretações. De um lado, aliados pediam respeito ao período de luto. De outro, crescia a pressão por uma definição política diante do calendário eleitoral.
Republicanos chegou a dizer que Cleitinho não seria candidato
A novela atingiu seu ponto máximo em 29 de julho. Naquele dia, o presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, confirmou que Cleitinho não seria candidato ao Governo de Minas. Em manifestação pública, a direção partidária criticou o que classificou como sinais contraditórios, recuos e indefinições em torno do projeto eleitoral. Parecia ser o fim da candidatura. Não foi.
No mesmo dia, aliados afirmaram que Cleitinho ainda tentaria reverter a decisão junto à direção nacional do Republicanos. Foi justamente nesse período que a cobertura política mineira passou a produzir diferentes cenários para tentar interpretar os movimentos do senador. Havia versões sobre desistência, permanência no Senado, composição com outros grupos e eventual retomada da candidatura. Parte dessas projeções refletia informações de bastidores disponíveis naquele momento; outras acabaram superadas pela velocidade das mudanças.
O próprio Cleitinho reconheceu posteriormente que sua indefinição teve custo político. Em entrevista nesta semana, afirmou que foi ele quem perdeu palanques em Minas durante o período de incerteza e relacionou parte da hesitação ao momento emocional vivido após a morte do irmão. Agora, o registro na Justiça Eleitoral transforma aquilo que durante meses esteve no terreno da intenção, das declarações e das especulações em um ato formal da disputa.
Falcão permanece na vice
Luís Eduardo Falcão, ex-prefeito de Patos de Minas e ex-presidente da Associação Mineira de Municípios (AMM), permaneceu na composição apesar de todas as turbulências. A chapa é formada integralmente pelo Republicanos e chega à disputa sob a denominação “Minas é do Povo”.
O pedido aparecer como “aguardando julgamento” não significa que exista irregularidade ou impugnação. Trata-se da fase em que a Justiça Eleitoral analisa a documentação e os requisitos legais apresentados no registro.
Cleitinho declara patrimônio de R$ 956,5 mil
No registro eleitoral, Cleitinho declarou R$ 956.564,03 em bens e direitos, conforme a soma dos valores informados. O patrimônio inclui uma casa financiada no bairro Jardim Betânia, em Divinópolis, declarada por R$ 300 mil; uma Rampage Laramie, de R$ 256 mil; uma Ford Maverick Tremor, avaliada em R$ 239,9 mil; e uma Volkswagen Saveiro, de R$ 23 mil. Também constam R$ 50 mil em quotas sociais da empresa Tamo Junto Produtora Ltda.; R$ 66.560,58 em conta de investimento no PicPay Bank; R$ 11.287,59 classificados como “outros bens e direitos – ISS”; além de saldos mantidos em contas na Caixa Econômica Federal, PicPay Bank, Itaú e Nubank.
Plano de governo aposta em descentralização: “menos Estado e mais municípios”
Junto ao registro, Cleitinho e Falcão apresentaram o plano de governo da chapa, batizado de “O Povo Primeiro!”. O documento confirma uma característica que vinha aparecendo nos discursos do grupo: a tentativa de construir uma administração menos concentrada em Belo Horizonte. Na carta de apresentação, a chapa afirma que pretende fortalecer os municípios e resume o modelo proposto como uma gestão “de fora para dentro, com menos Estado e mais municípios”.
Essa ideia aparece novamente nas propostas concretas. O programa prevê estruturas permanentes para atendimento a prefeitos e vereadores, fóruns regionais de gestão pública e determina que secretários estaduais estejam no interior para conhecer diretamente os problemas das regiões. O plano está organizado em dez grandes eixos: gestão pública, saúde, segurança, educação, economia e emprego, infraestrutura, agronegócio, assistência e inclusão social, desenvolvimento e futuro dos mineiros, além de cultura, turismo e identidade mineira.
Dívida de Minas, IPVA e corte de cargos entram no programa
Na administração estadual, Cleitinho e Falcão propõem renegociar a dívida de Minas com a União, estudar um modelo de IPVA progressivo, com possibilidade de redução ou isenção para veículos populares, revisar renúncias fiscais e reduzir cargos comissionados considerados sem função técnica.
Também aparecem no documento propostas de adoção do orçamento base zero, revisão de despesas e contratos e estabelecimento de metas e indicadores para as secretarias estaduais.
Outro ponto politicamente sensível são os pedágios. O programa defende priorizar investimentos públicos e captação de recursos federais em vez da implantação de novas cobranças nas rodovias estaduais. Para concessões já existentes, promete fiscalização dos contratos e defende que reajustes tarifários sejam vinculados à execução prévia das obras previstas.
Hospital Regional de Divinópolis aparece entre as prioridades
Divinópolis, berço político de Cleitinho, aparece nominalmente no eixo da saúde. O programa propõe buscar o funcionamento pleno de cinco hospitais regionais: Divinópolis, Teófilo Otoni, Governador Valadares, Sete Lagoas e Conselheiro Lafaiete.
Na mesma área, a chapa propõe ampliar exames, consultas e cirurgias eletivas, recuperar leitos e UTIs subutilizados, fortalecer a atenção primária e a RAPS, integrar SAMU, UPAs e hospitais e criar ferramentas digitais para que pacientes acompanhem consultas, exames e encaminhamentos.
Segurança prevê comando integrado de inteligência
Na segurança pública, o plano apresentado ao TSE propõe ampliação do policiamento ostensivo e rural, integração das bases de dados das forças estaduais em um Comando de Inteligência, combate financeiro às organizações criminosas, expansão das delegacias especializadas no atendimento às mulheres e ampliação do monitoramento eletrônico de agressores. Também estão previstas recomposição salarial e de efetivos das forças de segurança, concursos periódicos e expansão da presença do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil no interior.
Na educação, uma das propostas que chama atenção é incorporar tecnologia, programação, robótica e inteligência artificial ao ensino na rede estadual. O documento ainda prevê combate à evasão, ampliação da educação em tempo integral, concursos para professores e fortalecimento da UEMG e da Unimontes.
Registro encerra uma dúvida, mas abre outra fase da campanha
O protocolo no TSE encerra a discussão que dominou durante meses os bastidores da política mineira: Cleitinho será ou não candidato?
Agora, a pergunta muda. Com a chapa Cleitinho-Falcão formalizada, patrimônio declarado e plano de governo apresentado, o senador deixa o terreno das especulações sobre sua participação e passa para outra etapa: defender propostas, enfrentar os adversários e explicar como pretende transformar em políticas públicas o discurso de colocar “O Povo Primeiro” que abre seu programa de governo.







