No truco, perder uma mão segurando o “zap” costuma provocar espanto até entre os adversários. Afinal, quem entra na rodada com a carta mais forte normalmente tem todas as condições de vencer. Na política mineira de 2026, a comparação ajuda a explicar o desfecho da pré-candidatura do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) ao Governo de Minas. Dono dos melhores números nas pesquisas Genial/Quaest, líder na lembrança espontânea do eleitor, e ainda mais na estimulada, e apontado como favorito em praticamente todos os cenários de primeiro turno, Cleitinho terminou derrotado antes mesmo de a eleição começar. Não perdeu para Alexandre Kalil, Mateus Simões, Patrus Ananias ou qualquer outro adversário. Perdeu a disputa dentro do Republicanos. A decisão definitiva foi anunciada pelo presidente nacional da legenda, Marcos Pereira, que afirmou que o partido considera o assunto encerrado.
O “zap” das pesquisas
Desde o início das especulações sobre a sucessão estadual, Cleitinho aparecia como o nome mais competitivo do campo conservador. As pesquisas Genial/Quaest divulgadas ao longo dos últimos meses mostravam o senador liderando os principais cenários para o Governo de Minas. Em alguns levantamentos, aproximava-se dos 40% das intenções de voto, mantinha vantagem sobre os adversários na pesquisa estimulada e também liderava a espontânea, indicador considerado pelos cientistas políticos como um dos mais relevantes por medir a lembrança natural do eleitor.
Outro dado chamava atenção: Cleitinho apresentava desempenho consistente em praticamente todas as regiões do Estado e liderava entre diferentes faixas etárias, especialmente entre os eleitores mais jovens. Politicamente, poucos candidatos chegaram ao período das convenções com um patrimônio eleitoral tão consolidado.
A partida mudou de mesa
Se nas pesquisas o cenário era confortável, nos bastidores do Republicanos a realidade passou a ser outra. A definição da candidatura foi sendo sucessivamente adiada. Primeiro vieram as negociações sobre alianças partidárias. Depois, novas reuniões. Em seguida, o falecimento do irmão caçula do senador, Matheus Azevedo, interrompeu completamente o calendário político e levou a direção nacional do Republicanos a ampliar os prazos para que Cleitinho pudesse decidir sobre sua participação na disputa.
Mesmo diante da compreensão demonstrada pela direção nacional, a indefinição permaneceu. O senador deixou de comparecer à convenção estadual do partido, participou de reuniões em Brasília, gravou um vídeo ao lado de Marcos Pereira anunciando que não seria candidato ao Governo de Minas e, poucas horas depois, voltou a manifestar interesse em disputar o Palácio Tiradentes. As sucessivas mudanças de posição passaram a produzir insegurança dentro da legenda, justamente quando o calendário eleitoral entrava em sua fase decisiva.
Marcos Pereira bate na mesa
Foi nesse contexto que o presidente nacional do Republicanos decidiu encerrar definitivamente o assunto. Em pronunciamento público, Marcos Pereira afirmou que o partido precisava oferecer segurança aos candidatos e respeitar os prazos legais das convenções. Segundo ele, não seria possível manter indefinidamente um cenário de indefinição política.
Para Marcos Pereira, a sucessão de “idas e vindas”, somada ao momento pessoal vivido por Cleitinho, tornou inviável sustentar a pré-candidatura. O dirigente nacional deixou claro que compreendia o luto enfrentado pelo senador, mas afirmou que o Republicanos precisava tomar uma decisão institucional. Ao concluir sua manifestação, foi categórico ao afirmar que, para ele, o tema estava encerrado e que a decisão do partido era definitiva.
A derrota não aconteceu nas urnas
Talvez esse seja o aspecto mais emblemático de toda a crise. Cleitinho não perdeu apoio popular. Também não foi derrotado em debates ou confrontos eleitorais. Sua derrota ocorreu antes mesmo da campanha começar.
Na prática, a disputa deixou de ser eleitoral e passou a ser partidária. Enquanto o senador acumulava capital político junto ao eleitorado, o Republicanos precisava definir alianças, registrar candidaturas proporcionais, organizar sua estratégia para Minas Gerais e cumprir o calendário da Justiça Eleitoral. O tempo político do partido deixou de coincidir com o tempo pessoal vivido por Cleitinho.
Foi nesse momento que o “zap” deixou de garantir a vitória.
Quando as melhores cartas não bastam
No truco, existe uma certeza conhecida por qualquer jogador experiente: ter as melhores cartas aumenta enormemente as chances de vencer, mas não elimina completamente a possibilidade de derrota. Uma jogada mal conduzida, uma estratégia equivocada ou uma mudança inesperada no rumo da partida podem alterar completamente o resultado.
A trajetória de Cleitinho guarda semelhanças com essa lógica. As pesquisas representavam o “zap”. O alto índice de conhecimento popular funcionava como outra carta forte. A liderança na espontânea demonstrava que seu nome já estava consolidado na memória do eleitor. Poucos candidatos iniciaram uma pré-campanha tão competitivos. Mas a partida decisiva aconteceu em outra mesa.
Enquanto as pesquisas mediam a preferência do eleitor, o Republicanos discutia prazos, alianças, estratégia partidária e segurança jurídica para toda a chapa. Ao final, prevaleceu a decisão da direção nacional.
O que muda no cenário mineiro
A retirada definitiva de Cleitinho redesenha completamente a disputa pelo Governo de Minas. Os votos que apareciam concentrados no senador passam a ser o principal alvo dos demais candidatos, especialmente daqueles que disputam o eleitorado de centro-direita.
Também muda a dinâmica da campanha. O Republicanos perde seu principal ativo eleitoral para a disputa majoritária, enquanto os adversários passam a reorganizar suas estratégias diante da ausência daquele que, até então, era apontado pelas pesquisas como favorito.
No fim da partida, a política mostrou, mais uma vez, que pesquisas são fundamentais, mas não suficientes. Antes de convencer o eleitor, um candidato precisa vencer o jogo dentro do próprio partido.






