Nas últimas duas semanas, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) entrou definitivamente no jogo político nacional e se tornou um dos personagens mais comentados do Brasil, chegando a dividir o protagonismo até mesmo com alguns dos candidatos à Presidência da República. Tudo isso porque as articulações para a definição das candidaturas ao Governo de Minas Gerais, especialmente no campo da direita, mergulharam em uma espiral de tensão e autofagia política poucas vezes vista na história recente do estado.
Desde o ano passado, Cleitinho aparece na liderança das pesquisas e sondagens realizadas com o eleitorado mineiro, mantendo vantagem expressiva sobre os nomes especulados e os pré-candidatos que foram se consolidando ao longo do tempo. Sua força eleitoral transformou sua decisão pessoal no principal fator de organização — ou desorganização — do tabuleiro político estadual.
Enquanto isso, o campo da esquerda também permaneceu, durante longo período, refém de uma possível candidatura do senador Rodrigo Pacheco, que hesitava em entrar na disputa, apesar dos reiterados pedidos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nesse ambiente de indefinições, Cleitinho passou a protagonizar uma espécie de jogo de “esconde-esconde”: em determinados momentos, insinuava que seria candidato ao Governo de Minas; em outros, indicava que poderia permanecer no Senado. Esse comportamento manteve diversos partidos em compasso de espera, à medida que demonstravam disposição para integrar uma aliança em torno de seu nome.
Novo cenário político em Minas
Com a renúncia de Romeu Zema ao Governo de Minas para disputar a Presidência da República, o então vice-governador Mateus Simões assumiu o Palácio Tiradentes e passou a construir sua candidatura à reeleição. Seu objetivo era reunir a direita e a centro-direita em torno de um projeto de continuidade administrativa.
Entretanto, como Mateus Simões não conseguiu crescer de forma significativa nas pesquisas de intenção de voto, os partidos optaram por adiar definições, aguardando que o cenário eleitoral apresentasse nomes mais competitivos.
Nesse contexto, Mateus Simões surpreendeu aliados ao trabalhar pela filiação do senador Carlos Viana ao PSD. A movimentação desagradou profundamente o então secretário de Governo e ex-deputado federal Marcelo Aro, filiado ao PP e integrante da Federação União Progressista, formada por PP e União Brasil.
Marcelo Aro contava com o apoio do governo para disputar uma das vagas ao Senado, mas viu Carlos Viana ocupar parte desse espaço político.
Aproximação entre Marcelo Aro e Cleitinho
A partir desse momento, Marcelo Aro começou a se afastar politicamente de Mateus Simões e, ao mesmo tempo, aproximou-se do grupo liderado por Cleitinho, que, em diferentes ocasiões, manifestou disposição para apoiá-lo ao Senado caso sua candidatura ao Governo de Minas fosse confirmada.
Com isso, Cleitinho passou a ocupar uma posição singular dentro da política mineira. Tornou-se, na prática, o dono do relógio eleitoral. Sua indefinição mantinha partidos, dirigentes e lideranças em permanente estado de espera, induzindo sucessivos erros de cálculo político.
O problema é que havia dois relógios funcionando simultaneamente. O primeiro era o relógio das pesquisas eleitorais, controlado por Cleitinho, que liderava com folga todos os levantamentos divulgados até então.
O segundo era o relógio das convenções partidárias, controlado pelas cúpulas das legendas e pelos prazos estabelecidos pela legislação eleitoral. Cleitinho dominou completamente o primeiro relógio. Talvez tenha subestimado o segundo.
Construção da chapa
Paralelamente às articulações, Cleitinho incentivou o então prefeito de Patos de Minas e presidente da Associação Mineira de Municípios (AMM), Luís Eduardo Falcão, a deixar os cargos para se apresentar como possível candidato a vice-governador.
A ideia era formar uma chapa puro-sangue do Republicanos, com forte representação do interior de Minas Gerais e, especialmente, da região do Alto Paranaíba.
Faltava, porém, combinar esse desenho político com os demais partidos. Como diz a conhecida expressão popular, “faltou combinar com os russos”.
A definição antecipada de Falcão como vice deixou o Republicanos com pouca margem para negociação e dificultou a construção de uma composição mais ampla com o PL e outras forças da direita, que pretendiam montar uma coligação eleitoral mais robusta.
Entre os cenários discutidos nos bastidores estava uma chapa formada por Cleitinho, do Republicanos, candidato ao Governo de Minas; Vittorio Medioli, do PL e ex-prefeito de Betim, como candidato a vice-governador; Marcelo Aro, do PP, e Domingos Sávio, do PL, disputando as duas vagas ao Senado.
Nesse arranjo, Luís Eduardo Falcão poderia assumir uma secretaria de Estado em um eventual governo liderado por Cleitinho.
Cálculo político
Líder absoluto das pesquisas, Cleitinho conduziu as negociações até muito próximo do limite das convenções partidárias, na expectativa de que, diante da ausência de uma alternativa eleitoralmente competitiva, os partidos acabassem aceitando uma chapa organizada segundo suas próprias condições.
Seu objetivo era preservar autonomia política e evitar compromissos antecipados de divisão do poder em um eventual governo.
As lideranças partidárias, entretanto, começaram a perceber que poderiam ficar sem espaço nas futuras decisões e que, caso aceitassem esse modelo, teriam de concordar praticamente com todas as condições impostas por Cleitinho. Essa perspectiva desagradava profundamente às tradicionais raposas da política.
Para elas, uma coligação não representa apenas uma união para disputar uma eleição. Ela também constitui uma sociedade política para o exercício futuro do poder. Na percepção dessas lideranças, Cleitinho acreditava que venceria a eleição praticamente “sozinho” e que, depois de eleito, não teria obrigação de compartilhar o governo na proporção desejada pelos aliados.
Os partidos não queriam participar apenas da campanha eleitoral.
Queriam também influenciar a composição do governo, indicar secretários, participar das decisões estratégicas e exercer protagonismo na futura administração estadual.
Projeto que ultrapassa Minas Gerais
Como uma das grandes revelações da política nacional, Cleitinho passou também a ser visto como um possível fator de influência na sucessão presidencial de 2030.
Existe a expectativa de que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, também filiado ao Republicanos, dispute a Presidência da República naquele ano. Nesse cenário, um Cleitinho eleito governador de Minas Gerais, fortalecido eleitoralmente e com projeção nacional, poderia passar a ocupar o mesmo horizonte político.
Não há qualquer prova de que esse cálculo tenha determinado as decisões atualmente em curso. Seria ingenuidade, contudo, imaginar que as lideranças partidárias deixem de observar também o cenário de longo prazo.
Pressão aumenta
Nos últimos trinta dias, a tensão política aumentou consideravelmente.
Os demais partidos começaram a definir suas candidaturas, reduzindo o espaço para indefinições.
Alexandre Kalil foi confirmado pelo PDT como candidato representando a centro-esquerda, enquanto Patrus Ananias assumiu a candidatura do PT, garantindo ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva um palanque competitivo em Minas Gerais.
Enquanto isso, a indefinição de Cleitinho permanecia.
Embora pessoas de seu entorno assegurassem que ele disputaria o Governo de Minas, o senador evitava assumir publicamente a candidatura, fazendo com que as peças do tabuleiro político da direita começassem a se movimentar.
Marcelo Aro percebe a oportunidade
Marcelo Aro compreendeu que o jogo de “esconde-esconde” protagonizado por Cleitinho abria uma avenida de possibilidades.
De uma hora para outra, diversos formadores de opinião passaram, quase magicamente — ou talvez nem tanto —, a sustentar que Cleitinho não seria candidato ao Governo de Minas.
Esse movimento ganhou força justamente após o senador enfrentar um dos momentos mais dolorosos de sua vida pessoal: a doença e a morte de seu irmão mais novo, Matheus Azevedo, vítima de leucemia.
O período de aproximadamente sete dias de recolhimento e luto foi suficiente para que o espaço político momentaneamente deixado por Cleitinho começasse a ser ocupado.
Na política, não existe espaço vazio por muito tempo.
Sempre haverá alguém disposto a ocupá-lo.
Construção de uma alternativa
Foi exatamente isso que Marcelo Aro fez.
Com habilidade política, passou a admitir publicamente que poderia deixar de apoiar a reeleição de Mateus Simões e apresentar-se como candidato ao Governo de Minas, representando uma parcela significativa da direita.
Embora não alcance, nas pesquisas, o desempenho eleitoral de Cleitinho, Aro possui musculatura partidária, capacidade de articulação e forte influência entre deputados, prefeitos, vereadores e dirigentes nacionais.
Na última terça-feira, participou, em Brasília, de reuniões com importantes lideranças da direita, apresentando-se como a alternativa mais viável caso Cleitinho permanecesse fora da disputa.
Esses encontros ajudaram a consolidar seu nome como possível candidato de uma ampla aliança formada por PL, União Progressista, Republicanos e outras forças políticas.
Rompimento com Mateus Simões
O movimento tornou-se ainda mais evidente quando Marcelo Aro comunicou oficialmente a Mateus Simões que articulava uma candidatura própria ao Governo de Minas. Na prática, formalizou seu rompimento político com o governador. A partir daquele momento, seu nome deixou de ser apenas uma especulação de bastidores e passou a representar uma alternativa concreta dentro do tabuleiro eleitoral mineiro.
“faca no pescoço”
Os partidos da direita, que até então permaneciam reféns da decisão de Cleitinho, passaram a utilizar Marcelo Aro como uma verdadeira “faca no pescoço” do senador. Agora, possuíam um instrumento de pressão para negociar não apenas espaços na chapa — como desejavam anteriormente —, mas também uma participação significativa em um eventual governo estadual. Não tenham dúvidas.
Os partidos não querem apenas ajudar a eleger Cleitinho. Querem participar do governo, indicar secretários, influenciar decisões estratégicas e ocupar posições relevantes na futura administração. Cleitinho, por sua vez, resistia a entregar antecipadamente esses espaços porque acreditava que sua força eleitoral seria suficiente para conduzi-lo praticamente sozinho à vitória.
Essa divergência transformou uma negociação política em uma disputa direta pelo controle de um eventual governo.
Vídeo que ampliou a tensão
Para aumentar ainda mais a tensão política, Cleitinho publicou um vídeo produzido com inteligência artificial no qual aparecem seu pai e seu irmão, ambos já falecidos, incentivando-o a seguir em frente e a assumir uma nova missão.
Embora a peça não mencionasse expressamente uma candidatura ao Governo de Minas, seu significado político era evidente.
O vídeo possuía forte conteúdo espiritual, sentimental e afetivo. Ao mesmo tempo, a utilização da imagem de pessoas falecidas abriu espaço para diferentes interpretações religiosas e questionamentos éticos.
O Republicanos possui forte presença de lideranças evangélicas e mantém vínculos históricos com a Igreja Universal do Reino de Deus, fundada por Edir Macedo.
Por essa razão, o vídeo poderia ser interpretado por integrantes da legenda como uma manifestação de caráter espiritualista ou, como alguns críticos passaram a classificá-lo, um “vídeo espírita”. Essa leitura tinha potencial para provocar desconforto em setores evangélicos do partido.
Não é possível afirmar, entretanto, sem qualquer manifestação pública nesse sentido, que Edir Macedo tenha, pessoalmente, se sentido ofendido ou ultrajado pela publicação.
Dia em que a crise explodiu
A crise atingiu seu ponto máximo no dia 29 de julho. Na manhã daquele dia, as direções estadual e nacional do Republicanos divulgaram uma nota afirmando que a candidatura de Cleitinho não seria confirmada. Segundo o partido, os sucessivos adiamentos da decisão e a ausência do senador na convenção estadual haviam comprometido a construção de um projeto coletivo. A nota surpreendeu o meio político e alterou completamente o cenário que vinha sendo desenhado até então.
Reação de Cleitinho
Na noite do mesmo dia, em Divinópolis, Cleitinho reagiu. Em declaração pública, afirmou que pretende disputar o Governo de Minas, negou ter desistido da candidatura e explicou que o adiamento de sua decisão estava diretamente relacionado ao período de luto pela morte do irmão.
Criou-se, então, uma situação absolutamente incomum. Depois de meses de indefinição, Cleitinho finalmente declarou que deseja disputar o Governo de Minas. Contudo, ainda não havia sido oficialmente escolhido pelo próprio partido.
Na prática, tornou-se candidato de si mesmo, permanecendo, porém, dependente do Republicanos para transformar sua vontade política em uma candidatura juridicamente viável.
Uma oportunidade para os adversários
Percebendo a abertura criada pelo fato de setores da própria direita já tratarem Cleitinho como carta fora do baralho, outras forças políticas passaram a acompanhar com atenção o agravamento da crise. O grupo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva possui razões eleitorais evidentes para preferir uma direita dividida em Minas Gerais.
O estado abriga o segundo maior colégio eleitoral do país e historicamente exerce papel decisivo nas eleições presidenciais. Uma candidatura forte de Cleitinho poderia oferecer ao campo conservador, especialmente ao senador Flávio Bolsonaro, um palanque competitivo em Minas.
É natural, portanto, que o campo governista federal observe com interesse qualquer movimento capaz de enfraquecer ou fragmentar essa aliança.
Relações institucionais
O Republicanos também manteve, ao longo dos últimos anos, canais institucionais de diálogo com o governo Lula. Sílvio Costa Filho, integrante da legenda, ocupou até recentemente o Ministério de Portos e Aeroportos antes de reassumir seu mandato na Câmara dos Deputados. Essa interlocução política existe e pode, igualmente, influenciar as decisões da direção nacional do Republicanos.
Teorias que circulam nos bastidores
Há quem vá além e enxergue a participação de integrantes do Supremo Tribunal Federal ou da Justiça Eleitoral em um suposto movimento destinado a enfraquecer o senador mineiro, sobretudo porque essas instituições já foram alvo de críticas e vídeos publicados por Cleitinho.
Essa interpretação faz parte da narrativa política construída por alguns setores que enxergam um cerco ao senador. Até o momento, contudo, não existem elementos públicos que permitam apresentar essa hipótese como fato ou como evidência de uma ação coordenada. A prudência recomenda separar a narrativa política daquilo que efetivamente pode ser comprovado.
Precedente na política mineira
Também não seria inédito, em Minas Gerais, retirar da disputa um candidato que lidera a preferência do eleitorado. Em 2018, o ex-prefeito de Belo Horizonte Márcio Lacerda, então filiado ao PSB, apresentava viabilidade eleitoral para disputar o Governo de Minas. No entanto, teve sua candidatura inviabilizada por uma decisão da direção nacional do próprio partido, dentro de um acordo político mais amplo.
O episódio demonstrou que, no sistema eleitoral brasileiro, liderar pesquisas ou reunir elevado potencial de votos não é suficiente para garantir uma candidatura.
Os partidos detêm o controle jurídico sobre as candidaturas e, dentro das regras estabelecidas pela legislação eleitoral, possuem poder para impedir que um nome popular chegue às urnas.
O maior desafio de Cleitinho
Esse é, hoje, o maior problema enfrentado por Cleitinho. Como o prazo para filiação partidária encerrou-se em 4 de abril, o senador não pode simplesmente trocar de legenda para disputar o Governo de Minas por outro partido.
Sua candidatura depende, necessariamente, de uma reconciliação com o Republicanos e de uma decisão interna da legenda, que ainda poderá ser tomada durante o período reservado às convenções partidárias. Até que isso aconteça, o futuro político do senador permanece condicionado à vontade do partido ao qual é filiado.
Política é como uma nuvem
Como dizia o ex-governador Magalhães Pinto, “a política é como uma nuvem: você olha e ela está de um jeito; olha novamente e ela já mudou”. A frase continua atual. O prazo para a realização das convenções partidárias termina em 5 de agosto. Depois disso, partidos e coligações terão até 15 de agosto para protocolar, junto à Justiça Eleitoral, os pedidos de registro de suas candidaturas. Até lá, o cenário continua aberto para novas negociações, mudanças de estratégia, pressões, acordos e reviravoltas.
Seis dias que podem mudar Minas
Restam, portanto, poucos dias que podem redefinir completamente a sucessão estadual. Serão dias marcados por intensas negociações, pressões políticas, tentativas de reconciliação e possíveis reviravoltas capazes de alterar o rumo da disputa pelo Governo de Minas.
Durante meses, Cleitinho foi o dono do relógio da política mineira. Agora, entretanto, os ponteiros também passaram para as mãos do Republicanos.
Cleitinho contra todos e todos contra Cleitinho
O senador possui aquilo que nenhuma direção partidária consegue fabricar: votos, popularidade e a preferência de uma parcela expressiva do eleitorado mineiro. Os partidos, por sua vez, controlam a estrutura política, as alianças, o tempo de propaganda eleitoral e, sobretudo, o poder legal de transformar uma intenção política em uma candidatura oficialmente registrada.
É justamente desse choque entre legitimidade eleitoral e poder partidário que nasce o atual cenário. Um cenário que pode ser resumido em uma frase:
Cleitinho contra todos e todos contra Cleitinho.
Se conseguir superar o cerco político imposto pelas negociações partidárias, o senador poderá chegar à campanha ainda mais fortalecido, apresentando-se como alguém que enfrentou as estruturas tradicionais da política mineira. Se, por outro lado, for impedido de disputar a eleição, os partidos talvez resolvam um problema interno. Mas terão de explicar ao eleitorado mineiro por que o líder das pesquisas ficou fora da disputa.






