A crise em torno da reforma da Previdência Municipal de Divinópolis ganhou contornos políticos, sindicais. Durante a mobilização grevista contra o PLC 008/2026, entidades representativas, SINTRAM e SINTEMD, dos servidores endureceram o tom contra a atual gestão, da prefeita Janete Aparecida, mas um episódio da história do Diviprev parece ter sido convenientemente deixado em segundo plano. Estranho, né? A mudança aprovada e sancionada ainda na gestão de Gleidson Azevedo, e também de Janete que era sua vice, em 2024, e que aumentou a dívida da Prefeitura com o instituto em quase R$ 500 milhões. Sobre tal personagem não falaram um “A”, e em meio aos vereadores, teve até elogios: de que o mesmo só colocaria o projeto se houvesse concordância dos sindicatos (SIC).
O caso foi registrado pelo proprio site do SINTRAM em reportagem publicada em dezembro de 2024. Segundo a publicação a base de Gleidson Azevedo na Câmara aprovou e ele sancionou o Projeto de Lei 49/2024, que alterou o Plano de Custeio Suplementar do Diviprev. A mudança foi criticada pelo Dieese como “casuísta” e “irresponsável”, pois elevou a dívida da Prefeitura com o instituto em R$ 475,1 milhões.
O santo do pau oco e a amnésia seletiva dos dirigentes e servidores públicos
É curioso observar que, em meio à manifestação grevista, parte do discurso sindical tenha concentrado fogo quase exclusivo na atual gestão, como se o passivo previdenciário tivesse nascido agora. A narrativa criou, politicamente, uma espécie de novo santo do pau oco, um personagem blindado pela memória curta, enquanto o passado recente mostra que o ex-prefeito Gleidson Azevedo teve papel direto em uma alteração que ampliou a conta futura do Diviprev.
A expressão pode soar dura, mas traduz o contraste entre o discurso público e os fatos já registrados. O mesmo ambiente político que agora cobra responsabilidade previdenciária precisa recordar que, em 2024, o Município alterou o plano de custeio do instituto em uma tramitação considerada acelerada e criticada por excluir servidores do debate. Conforme a reportagem, o projeto foi apresentado em novembro, entrou na ordem do dia poucos dias depois, foi aprovado, sancionado e transformado na Lei 9.485/2024.
A matéria apontou ainda que os servidores tentaram debater a proposta, mas encontraram barreiras. Conselhos do Diviprev aprovaram a medida a portas fechadas, houve impedimento de acesso de manifestantes e a Polícia Militar foi chamada.
A conta que ficou para depois
O ponto mais sensível está no efeito financeiro da mudança. A alteração permitiu que Gleidson deixasse de pagar R$ 64,5 milhões em aportes nos anos de 2025 e 2026. Ao mesmo tempo, o prazo de equacionamento do déficit atuarial foi ampliado de 2050 para 2058.
Na prática, conforme os dados divulgados, a dívida da Prefeitura com o Diviprev passou de R$ 3,5 bilhões previstos no plano anterior para R$ 4 bilhões no novo modelo. O crescimento foi de 13,45%, o que representou acréscimo de R$ 475,1 milhões.
A crítica técnica do Dieese também foi contundente. O supervisor técnico Fernando Ferreira Duarte afirmou que “equacionar o déficit atuarial com alíquotas de contribuição suplementares é de responsabilidade do ente federativo, ou seja, no caso específico de Divinópolis, da Prefeitura e da Câmara Municipal”. O parecer ainda classificou a redução das alíquotas como “casuísta”, por beneficiar o então prefeito e transferir maior peso para futuras administrações.
Essa é a contradição que precisa ser recolocada no debate. Se a defesa do Diviprev é, de fato, uma pauta permanente, ela não pode depender do ocupante momentâneo da cadeira de prefeito. A cobrança sobre Janete Aparecida pode até existir, mas não apaga o fato de que Gleidson Azevedo também tomou decisões com forte impacto previdenciário e recebeu críticas públicas das próprias entidades.
O que dizia o SINTRAM na época
O presidente do SINTRAM, Marco Aurélio Gomes, afirmou na ocasião que a forma de aprovação do projeto já indicava como o servidor seria tratado no segundo mandato de Gleidson. Ele disse: “Infelizmente o processo para a aprovação desse projeto, já deu o tom de como o servidor continuará sendo tratado pelo Executivo”.
A fala, agora, volta como peça de memória política. Se em 2024 o sindicato enxergava no governo Gleidson um tratamento duro contra os servidores, por que esse episódio quase desapareceu do discurso público no momento em que a crise previdenciária ganhou as ruas?
A pergunta não absolve a atual gestão, nem encerra o debate sobre o PLC 008/2026. Ao contrário. Ela amplia a responsabilidade. A discussão sobre o Diviprev precisa alcançar todos os atores que participaram da construção do problema, não apenas quem herdou a bomba no colo.
Gleidson e o histórico de atritos com servidores
A relação de Gleidson Azevedo com servidores municipais e representantes sindicais também já teve episódios de forte tensão. Em 2021, houve um bate-boca entre o então prefeito e um sindicalista durante manifestação na porta da Prefeitura. Na ocasião, Gleidson mandou essa: “Vai trabalhar, vagabundo”.
O episódio não ficou isolado no campo político. O próprio Divinews já publicou reportagens sobre acusações e denúncias envolvendo servidores e o ambiente administrativo durante a gestão Gleidson. Em 2022, o portal registrou que, na pauta de reivindicações dos sindicatos ao prefeito, além da recomposição salarial, estava o pedido de fim dos assédios aos servidores.
Também houve registro de ação por danos morais movida pelo SINTRAM contra Gleidson Azevedo. Conforme publicação do Divinews sobre audiência marcada no caso.
Esses episódios ajudam a contextualizar por que causa estranhamento a tentativa de apagar ou suavizar o passado recente. Em momentos de crise, a memória sindical precisa ser integral. Não pode funcionar como seletor de conveniência política, lembrando apenas dos adversários do presente e esquecendo aliados ou personagens incômodos do passado.
Vereadores também precisam ser lembrados
O debate não envolve apenas o Executivo. A Câmara Municipal também teve papel decisivo na aprovação das mudanças anteriores no Diviprev. Conforme o Portal Gerais, o Projeto de Lei Ordinária nº 49/2024 foi aprovado por 14 votos. A reportagem registrou a aprovação do texto que tratava do Plano de Custeio Suplementar do Regime Próprio de Previdência Social do Município, embora não tenha apresentado, no trecho disponível, a lista nominal dos vereadores que votaram a favor.
Esse ponto é essencial. Quando o assunto é Previdência Municipal, não basta apontar apenas para o prefeito ou para a prefeita. Quem vota, acelera tramitação, nega pedido de vistas, impede debate ou aprova projetos de impacto bilionário também precisa entrar na conta política.
Por isso, a memória deve alcançar os vereadores que, no passado, caminharam com Gleidson em votações previdenciárias, assim como deve alcançar os que agora aprovaram a reforma conduzida pela atual gestão. A coerência exige que os mesmos critérios de cobrança sejam aplicados a todos.
A busca por responsabilidade passa, necessariamente, pelo histórico da Câmara Municipal de Divinópolis, pelas decisões tomadas em plenário e pelo comportamento de cada parlamentar diante de projetos que afetam servidores ativos, aposentados e pensionistas.
O debate não começou agora
A crise atual em torno do PLC 008/2026 tem elementos próprios, mas não surgiu no vazio. Ela se conecta a decisões anteriores, a mudanças no custeio, a estudos atuariais, a escolhas políticas e a uma relação conturbada entre administrações municipais e funcionalismo.
Os próprios sindicatos, em cartilha institucional sobre a reforma da Previdência de Divinópolis, apontaram que o Diviprev ampara servidores ativos, aposentados e pensionistas, além de registrar déficit atuarial consolidado de R$ 2,62 bilhões em 31 de dezembro de 2025. O documento também defendeu que a responsabilidade fiscal e o equilíbrio atuarial devem caminhar junto com proteção social e dignidade dos servidores.
Esse é o núcleo do problema. Se o Diviprev exige equilíbrio, a discussão precisa ser honesta. Se há déficit, é preciso saber quem contribuiu para seu agravamento. Se há reformas, é preciso saber quem paga a conta. Se há protesto, é preciso saber contra quem ele se dirige e quem ficou convenientemente fora do alvo.
Memória é também instrumento de justiça
A manifestação dos servidores pode ser legítima, emotiva e contundente. O direito de mobilização faz parte da vida democrática. No entanto, quando entidades sindicais escolhem transformar uma crise complexa em narrativa de vilão único, deixam escapar uma parte importante da história.
Gleidson Azevedo não pode ser tratado como figura lateral no debate previdenciário de Divinópolis. A gestão dele sancionou mudança que aumentou a dívida com o Diviprev em quase R$ 500 milhões, conforme reportagem baseada em estudo técnico solicitado pelo próprio SINTRAM. Ele também acumulou episódios públicos de atrito com servidores e sindicatos.
Por isso, antes de criar novos santos políticos em manifestações, vale abrir o arquivo da cidade. O Diviprev não precisa de amnésia. Precisa de transparência, memória, responsabilidade e coragem para cobrar todos os lados, inclusive aqueles que, em outros momentos, já foram apontados como parte do problema, são os ex-prefeitos, uns mais outros menos.
Afinal, em Previdência, a conta sempre chega. E, em Divinópolis, ela chegou com juros, protesto, desgaste político e uma pergunta inevitável: quem realmente está disposto a lembrar de tudo?
E VIVA O PREFEITO, Gleidson REELEITO prefeito de Divinópolis, e o EX-PREFEITO eleito deputado federal!







