A polêmica envolvendo as imagens sacras do Monumento do Calvário de Jesus, em Carmo do Cajuru, ganhou um novo capítulo. Depois da revolta provocada por uma pintura considerada inadequada por moradores, fiéis e integrantes da comunidade católica, as esculturas receberam uma nova intervenção. Entretanto, longe de encerrar a controvérsia, a tentativa de correção reacendeu a indignação, pois não as colocaram na cor original de cimento, deram-lhes um azul, tipo cruzeirenses; e o pior, enfiaram uma coroa semelhante a um arlequim de carnaval, ao invés da coroa de espinho.
A primeira intervenção já havia causado forte reação na cidade e repercutido além dos limites do município. As imagens religiosas, localizadas na Praça Nossa Senhora Aparecida, conhecida também como Praça do Cruzeiro, tiveram rostos alterados por traços que lembravam maquiagem, com marcações em lábios, cílios e sobrancelhas. Em uma das imagens, a pintura nos lábios provocou comentários de que a santa parecia estar de batom. Em outra, segundo relatos ouvidos pelo Divinews, a aparência de Jesus também teria sido descaracterizada.
A reação foi imediata. Moradores criticaram a pintura nas redes sociais, fiéis demonstraram incômodo com a alteração das características originais das imagens e a situação virou motivo de piada, perplexidade e questionamento público. A Prefeitura de Carmo do Cajuru chegou a informar que não contratou, não autorizou e não solicitou a realização das pinturas identificadas no Calvário, reforçando que qualquer intervenção em bem público deve seguir autorização dos órgãos ou entidades competentes.
Até agora, entretanto, ninguém explicou com clareza quem executou a pintura, quem determinou a intervenção, quem comprou o material ou quem assumiu a responsabilidade pela alteração nas imagens. O mistério permanece. E, quando o assunto envolve patrimônio religioso, memória afetiva e símbolos da fé católica, o silêncio aumenta ainda mais o desconforto.
No último domingo, o Divinews esteve na casa da família de Moura, já falecido, apontado como o responsável por trazer as imagens para Carmo do Cajuru há várias décadas. A reportagem conversou com Dona Gracinda, que relatou a origem das esculturas e demonstrou tristeza com o episódio.
Segundo ela, Moura viajava por Minas Gerais trabalhando na eletrificação de cidades. Em uma dessas viagens, ao passar por Juiz de Fora, encontrou imagens sacras que estavam abandonadas. Ele conversou com o prefeito da época, pediu autorização por escrito e conseguiu trazer as peças para Carmo do Cajuru.
Ao chegar ao município, Moura procurou o pároco da época, padre João Parreiras Vilaças, que aceitou as imagens. Em seguida, segundo Dona Gracinda, a Prefeitura mandou uma carreta buscá-las. A chegada das esculturas teria sido marcada por festa, foguetes e grande mobilização popular. Depois disso, as imagens foram colocadas no Calvário, onde permaneceram por décadas preservando suas características originais.
Dona Gracinda contou que são quatro imagens no local, entre elas Nossa Senhora, Cristo e um anjo. De acordo com o relato, as peças ficaram por muitos anos com a aparência original, em tom de cimento, sem as cores fortes que agora passaram a marcar a polêmica.
A família também questiona a falta de identificação dos responsáveis. Segundo o relato ouvido pelo Divinews, há câmeras na região, mas, até o momento, ninguém apareceu como autor da intervenção. Dona Gracinda disse não saber se a pintura partiu de alguém ligado à Igreja, à administração pública, a algum conselho local ou se foi uma ação isolada.
Para ela, mesmo que exista conselho responsável pela praça ou por assuntos locais, qualquer decisão envolvendo imagens sacras deveria passar pelo pároco e também pela Prefeitura, já que o espaço é público, mas os símbolos pertencem à devoção religiosa da comunidade.
Depois da repercussão negativa, uma nova pintura foi feita. A expectativa era que as imagens fossem restauradas ou, ao menos, devolvidas à sobriedade original. Porém, ao visitar o local, o Divinews encontrou as esculturas novamente alteradas. Elas já não estavam como na primeira intervenção, mas também não voltaram ao aspecto original em cimento.
Agora, parte das imagens aparece repintada em tom azulado. A mudança até suavizou alguns traços mais criticados, especialmente em Maria. Porém, no caso da imagem de Jesus Cristo, a nova pintura criou outro problema visual: a cor aplicada na coroa deu ao Cristo uma aparência que lembra um arlequim carnavalesco.
O resultado, na avaliação da reportagem, é aquele velho ditado popular: a emenda saiu pior que o soneto. Tentaram corrigir o excesso anterior, mas acabaram criando uma nova distorção. Pelo menos na imagem de Jesus, o efeito passou longe da sobriedade esperada para uma representação sacra.
A situação chama atenção não apenas pelo aspecto estético, mas também pela ausência de critério técnico. Intervenções em imagens religiosas, sobretudo aquelas com valor histórico, simbólico e comunitário, exigem orientação especializada. Não se trata simplesmente de passar uma demão de tinta. Há memória, fé, identidade local e respeito ao patrimônio envolvidos.
O caso de Carmo do Cajuru se soma a outros episódios conhecidos no Brasil e no exterior em que tentativas amadoras de restauração ou repintura de imagens religiosas acabaram gerando repercussão negativa. Em geral, o problema nasce da boa intenção sem técnica ou da ação improvisada sem autorização. Em ambos os casos, o prejuízo recai sobre a comunidade.
No Calvário de Carmo do Cajuru, a pergunta segue sem resposta: quem mandou pintar? Quem autorizou? Quem executou? E, depois da repercussão, quem determinou a nova pintura que não devolveu as imagens ao padrão original?
Enquanto essas respostas não aparecem, a comunidade segue entre a indignação, a ironia e a tristeza. Indignação porque símbolos religiosos foram modificados sem explicação pública convincente. Ironia porque as imagens, principalmente a de Jesus, ganharam uma aparência inesperada. E tristeza porque, segundo a família de quem trouxe as esculturas para o município, elas carregam uma história de décadas, marcada por fé, doação e memória.
O Divinews seguirá acompanhando o caso e cobrando explicações. Afinal, o que está em discussão não é apenas uma pintura malfeita. É o respeito à história de Carmo do Cajuru, à comunidade católica e a um patrimônio que, por décadas, permaneceu preservado até ser transformado em polêmica.







