A Audiência Pública sobre a reforma da Previdência dos Servidores Públicos de Divinópolis deixou de ser apenas um debate técnico sobre o futuro do Diviprev. O que se viu foi um movimento político do vereador Wesley Jarbas (Republicanos), que está a cada vez mais evidente: a tentativa de transformar a insatisfação dos servidores em combustível eleitoral para 2028.
Nesse cenário, o referido vereador emerge como peça central de uma estratégia de oposição construída não necessariamente para resolver o problema previdenciário da cidade, mas para desgastar a atual prefeita Janete Aparecida (Avante) e reposicionar o grupo político ligado ao ex-prefeito Gleidson Azevedo (Republicanos).
O discurso adotado por Wesley tenta colocá-lo como “defensor dos servidores”. Mas a pergunta que precisa ser feita é: onde estava essa indignação quando o grupo político do qual ele faz parte sustentava integralmente a atual estrutura administrativa e financeira do município?
A crise previdenciária de Divinópolis não nasceu agora. Ela é resultado de anos de crescimento da folha, pressão atuarial e ausência de medidas estruturantes. Transformar um problema histórico em discurso de ocasião revela mais oportunismo político do que compromisso real com o funcionalismo.
Durante a audiência, a encenação política ficou explícita. O episódio em que Wesley ergueu um caixote de verduras para dizer que “o povo já sente saudade de Gleidson” não teve qualquer relação com os servidores, com cálculos atuariais ou com a sustentabilidade do Diviprev. Foi um ato cuidadosamente pensado para produzir imagem, viralizar nas redes e reforçar uma narrativa populista de comparação entre governos.
Mais do que discutir Previdência, o objetivo parecia ser criar um ambiente permanente de tensão política.
Ao mesmo tempo, a prefeita Janete foi alvo de ataques desproporcionais e de um ambiente hostil que ultrapassou o campo da divergência administrativa. Em vários momentos, o debate assumiu contornos de deslegitimação pessoal e política de uma mulher no exercício do poder. Isso não fortalece a democracia. Pelo contrário: empobrece o debate público e substitui argumentos técnicos por espetáculo político.
É legítimo criticar a reforma. É legítimo questionar as alíquotas, regras e impactos sobre os servidores. O que não parece legítimo é utilizar o medo do funcionalismo como plataforma de antecipação eleitoral.
A movimentação atual revela um cálculo político evidente: enfraquecer Janete antes que ela consolide identidade própria de gestão e impedir que a prefeita deixe de ser vista apenas como continuidade do antigo governo. Quanto maior o desgaste, maior a possibilidade de o grupo ligado a Gleidson tentar retomar diretamente o protagonismo político da cidade em 2028.
O problema é que Divinópolis precisa de maturidade institucional para enfrentar um debate sério sobre Previdência. O município não pode virar palco de uma disputa baseada apenas em símbolos, nostalgia eleitoral e guerra de narrativas.
Servidor público não pode ser usado como massa de manobra.
E a população merece mais do que caixotes levantados em plenário. Merece responsabilidade, honestidade intelectual e coragem para discutir soluções reais — mesmo quando elas são difíceis e isso a Janete tem de sobra.






