A Praça Dom Cristiano, popularmente conhecida como Praça da Catedral, é alvo de reclamações de moradores e frequentadores de Divinópolis. O espaço, um dos cartões-postais mais visíveis da região central, apresenta canteiros depauperados, sujeira, piso em situação lastimável, fonte com água parada e áreas que já não refletem o cuidado esperado de uma praça adotada dentro do programa municipal “Adote um Bem Público”, neste caso específico, pelo SICREDI.
A situação chama ainda mais atenção porque a Praça da Catedral não é apenas um espaço de passagem. Ela faz parte da memória urbana, religiosa e afetiva da cidade. Está em uma área nobre, cercada por prédios residenciais, comércio, trânsito intenso, fluxo de pedestres e grande visibilidade para quem sobe a Avenida Getúlio Vargas em direção ao Centro.
Nesse ponto estratégico, a publicidade institucional do banco adotante aparece com destaque, especialmente por meio do relógio instalado no local. A exposição é ampla, contínua e localizada em um dos pontos mais nobres de Divinópolis. Por isso, moradores passaram a questionar a relação custo-benefício da adoção: se a marca ganha visibilidade em espaço público, a cidade precisa receber manutenção compatível.
A base legal do programa existe. A Lei Municipal nº 8.448, de 07 de maio de 2018, instituiu o “Adote um Bem Público” em Divinópolis, com posterior regulamentação pelo Decreto nº 13.079, de 23 de novembro de 2018. A legislação trata da possibilidade de cooperação para recuperação, implantação ou manutenção de bens públicos de uso comum, mediante termo próprio e regras de execução.
Praça foi adotada pelo Sicredi em termo com a Prefeitura
A própria Prefeitura informou, em publicação oficial, que a Praça Dom Cristiano, conhecida como Praça da Catedral, começou a receber melhorias pelo programa “Adote um Bem Público” após assinatura de Termo de Compromisso de Cooperação entre o Município e a Cooperativa de Crédito, Poupança e Investimento Sul Minas do Rio Grande do Sul e Minas Gerais, Sicredi.
Esse ponto torna a cobrança ainda mais objetiva. Não se trata apenas de uma praça abandonada. Trata-se de um bem público adotado, com previsão de cooperação, visibilidade institucional e expectativa de manutenção.
O programa, em sua lógica, estabelece uma troca de interesse público. A empresa ou instituição assume obrigações de cuidado, recuperação ou manutenção. Em contrapartida, pode associar sua marca ao espaço, dentro dos limites legais.
Quando a praça apresenta abandono, essa reciprocidade fica sob suspeita. A marca permanece exposta, mas o benefício à população não aparece na mesma proporção.
Piso lastimável e risco de quedas preocupam moradores
Entre as reclamações mais graves está a condição do piso da Praça da Catedral. Moradores e frequentadores afirmam que há trechos irregulares, desgastados e perigosos para quem caminha pelo local. O risco aumenta para idosos, crianças, pessoas com deficiência ou qualquer transeunte que passe distraído pela praça.
Na manhã desta sexta-feira (15), um idoso que mora em um dos prédios que margeiam a praça relatou que várias quedas já ocorreram no local. A fala reforça que o problema deixou de ser apenas visual. Quando o piso de uma praça central coloca pedestres em risco, a questão passa a envolver segurança urbana, acessibilidade e responsabilidade pela manutenção do espaço.
Uma praça adotada e localizada no coração de Divinópolis não pode conviver com piso em estado lastimável. A existência de reclamações sobre quedas exige vistoria imediata, reparos e esclarecimento sobre quem responde pela manutenção.
Canteiros depauperados e sujeira afetam imagem do Centro
Além do piso, moradores reclamam dos canteiros depauperados. Áreas que deveriam estar cuidadas, limpas e ajardinadas apresentam sinais de desgaste, falta de manutenção e abandono. A sujeira também aparece entre os principais pontos citados por quem frequenta a praça.
Esse cenário compromete a imagem do Centro de Divinópolis. A Praça da Catedral deveria funcionar como espaço de convivência, descanso, circulação e referência urbana. No entanto, segundo as reclamações, o local transmite sensação de descuido.
A degradação dos canteiros também revela um problema maior. A manutenção de uma praça exige rotina, não ação esporádica. Jardinagem, limpeza, poda, recolhimento de resíduos, cuidado com o piso e conservação da fonte precisam ocorrer de forma contínua. Quando esse ciclo falha, o abandono aparece rapidamente.
Fonte com água parada amplia preocupação
Outro ponto relatado envolve a fonte com água suja e parada. Em qualquer espaço público, água parada exige atenção imediata. Além de causar mau aspecto e sensação de abandono, esse tipo de situação pode gerar preocupação sanitária, especialmente em períodos de alerta para doenças transmitidas por mosquitos.
Mesmo sem afirmar a existência de foco, a presença de água parada em uma praça central, adotada por instituição privada e de grande circulação, exige providência. A pergunta é inevitável: a manutenção da fonte está incluída nas obrigações do termo de cooperação? Cabe ao adotante resolver? Cabe à Prefeitura? Quem fiscaliza? Com qual periodicidade? A população não pode ficar sem resposta enquanto a fonte continua suja e parada.
Pessoas em situação de rua exigem ação social e urbana
Moradores também apontam ocupação de parte da praça por pessoas em situação de rua. Esse tema exige responsabilidade. Pessoas em vulnerabilidade não podem receber tratamento desumano, nem podem ser tratadas como simples problema estético. Elas precisam de abordagem social, acolhimento, assistência, saúde e encaminhamento adequado.
Ao mesmo tempo, a ocupação permanente de áreas públicas também gera impacto na convivência, na segurança, na limpeza e no uso coletivo da praça.
A solução exige ação integrada. Assistência social, saúde, segurança pública, limpeza urbana e gestão do espaço precisam atuar em conjunto. O abandono da praça e a vulnerabilidade social não podem seguir como problemas empurrados de um lado para outro.
A lei prevê cooperação, mas também exige compromisso
A legislação do programa “Adote um Bem Público” não existe para transformar praças em vitrines publicitárias sem contrapartida real. O modelo previsto pela Lei nº 8.448/2018 envolve termo de compromisso, identificação do cooperador, descrição do bem público, detalhamento de obras ou serviços e prazos de execução. A norma também prevê que o termo seja publicizado e que as benfeitorias realizadas passem a integrar o patrimônio público municipal.
O decreto regulamentador reforça que o programa busca parcerias para melhoria de áreas públicas municipais de uso comum do povo, como praças, jardins, canteiros centrais, áreas verdes e outros espaços. Portanto, a discussão não é contra o programa. Ao contrário. A adoção de bens públicos pode ser positiva quando há execução, fiscalização e entrega concreta para a população.
O problema surge quando a publicidade permanece e a manutenção desaparece
Relógio em ponto nobre amplia cobrança por reciprocidade
O relógio instalado na Praça da Catedral garante visibilidade privilegiada ao Sicredi. Quem sobe a Avenida Getúlio Vargas em direção à praça enxerga a estrutura. O ponto tem fluxo de veículos, pedestres, moradores, comércio e grande valor simbólico. Em termos de exposição institucional, poucos locais do Centro oferecem visibilidade semelhante. Por isso, a cobrança sobre a contrapartida precisa ser proporcional.
A instituição bancária recebe exposição em bem público. A população deveria receber praça limpa, segura, bem cuidada, com fonte em funcionamento, canteiros tratados e piso sem risco de queda. Quando isso não ocorre, a relação custo-benefício fica desequilibrada. A pergunta que moradores fazem é simples: se o custo da publicidade é a manutenção da praça, por que a manutenção não aparece?
Prefeitura precisa fiscalizar termo de cooperação
A responsabilidade final pela gestão do bem público continua sendo do município. Mesmo quando uma praça é adotada por empresa ou instituição privada, a Prefeitura precisa fiscalizar o cumprimento das obrigações previstas no termo. A adoção não retira o caráter público do espaço.
Cabe ao município informar quais obrigações foram assumidas pelo Sicredi, qual secretaria acompanha o contrato, qual é a vigência do termo, quais serviços devem ser executados, qual cronograma foi aprovado e se houve notificação diante das reclamações. Também cabe esclarecer se o estado atual da praça está compatível com o termo de cooperação.
A cidade precisa saber se há fiscalização regular, se existem relatórios, se há registros fotográficos, se a manutenção foi cobrada e se a instituição adotante cumpre integralmente sua parte.
Praça adotada precisa ser praça cuidada
O caso da Praça da Catedral expõe uma contradição incômoda. A área é nobre, central, simbólica e adotada. Mesmo assim, moradores e frequentadores relatam abandono, sujeira, piso irregular, fonte com água parada e risco de quedas.
Uma adoção de bem público não pode existir apenas no papel, nem servir apenas para fixação de marca em local privilegiado. A contrapartida precisa aparecer no cotidiano da cidade. Divinópolis precisa de programas que funcionem, não apenas de placas, relógios ou publicidade institucional.
A Praça da Catedral pertence à população. Se foi adotada, precisa estar cuidada. Se não está cuidada, a Prefeitura deve explicar por que não fiscalizou, e o adotante precisa responder sobre a manutenção que deveria entregar.
No fim, a questão é de reciprocidade. O banco ganha visibilidade. A cidade precisa ganhar cuidado
O Divinews já na tarde desta sexta-feira (15) conversou com um grupo de moradores que estavam reunidos na Praça e eles confirmaram que tem sim ocorrido sucessivas quedas de pessoas, em virtude do desnivelamento do piso no local.
Contraditório
Procurada pelo Divinews, a Prefeitura de Divinópolis, por meio de sua Diretoria responsável, informou que a última fiscalização referente ao programa Adote um Bem Público, na Praça da Catedral, ocorreu em novembro de 2025, ocasião em que não houve constatação de irregularidades. A administração municipal afirmou ainda que, caso necessário, uma nova vistoria poderá ser realizada e, se a fiscalização identificar problemas, a empresa responsável pelo bem público poderá receber a devida notificação. Sobre a presença de pessoas em situação de rua e os materiais deixados ou transportados por elas em espaços públicos, a Secretaria Municipal de Assistência Social informou que realiza abordagens periódicas. No entanto, esclareceu que não existe legislação que obrigue essas pessoas a deixarem o local onde se encontram, nem autorização legal para que o município recolha seus pertences pessoais.
Já o SICREDI solicitou prazo para formular seu contraditório e pediu ao Divinews o envio das imagens que mostram o estado atual da praça. O espaço segue aberto para manifestação da instituição.






