Divinópolis: Janete troca o culto à personalidade por um governo com cara de instituição

Ao chamar a imprensa para um café e defender o uso do nome “Prefeitura de Divinópolis”, prefeita sinaliza ruptura com o personalismo e tenta reconstruir a comunicação pública com mais institucionalidade

Publicado por: Geraldo Passos

A decisão da prefeita Janete Aparecida de chamar a imprensa para um café pode parecer simples à primeira vista, quase protocolar, mas não é. O gesto carrega um significado político muito mais profundo. Ali, não se tratou apenas de um encontro com jornalistas. Tratou-se de uma mudança de método, de linguagem e, acima de tudo, de visão sobre o que deve ser a comunicação de um governo.

Ao afirmar que não quer mais ver seu nome, “Janete Aparecida”, confundido com as ações do Executivo e que, dali em diante, a referência correta deve ser “Prefeitura de Divinópolis”, a chefe do Executivo faz algo raro na política local: recoloca a instituição acima da pessoa. Grifo Divinews. E isso, em um ambiente acostumado ao marketing de ego, ao personalismo e ao culto de imagem, é uma ruptura importante.

Continua depois da publicidade

A fala tem peso. Porque, no fundo, ela desmonta uma lógica de comunicação que se espalhou em muitos governos, a de transformar atos públicos em vitrine pessoal do governante. Quando uma prefeita opta por fortalecer a marca institucional da Prefeitura, em vez de inflar a própria figura, ela envia uma mensagem clara: o governo é maior que quem ocupa temporariamente a cadeira.

É justamente aí que Janete produz uma inflexão. Ela deixa de lado o populismo comunicacional e o culto à personalidade que marcaram a gestão anterior. Em vez de governar pela selfie, pela postagem personalizada e pelo carimbo individual em cada ação, tenta reorganizar a narrativa pública em torno da estrutura oficial do município. Isso não é detalhe semântico. É reposicionamento de poder.

Outro ponto relevante é o reconhecimento explícito da importância da imprensa tradicional. E isso também tem valor político. Num tempo em que muitos governos preferem se fechar em redes sociais, bolhas digitais e perfis não oficiais que repercutem versões convenientes dos fatos, Janete parece ter compreendido o óbvio que vinha sendo desprezado: campanhas públicas, sobretudo as ligadas à saúde, não podem depender apenas de algoritmo, simpatia digital ou militância de internet.

Quando a prefeita aponta que a cobertura vacinal caiu cerca de 25% com divulgações concentradas em redes sociais e em perfis não oficiais que formam opinião, ela não faz apenas uma crítica indireta ao modelo anterior. Ela apresenta uma constatação dura. Governar por redes sociais, sem o devido suporte da comunicação institucional e da imprensa profissional, pode até render alcance momentâneo, mas cobra um preço alto quando o assunto exige confiança, capilaridade e responsabilidade pública.

Comunicação pública não é palco de vaidade. É ferramenta de governo, de saúde, de orientação e de serviço.

Esse talvez seja o mérito político mais relevante do movimento de Janete. Ela parece compreender que imprensa não existe apenas para registrar agenda, fotografar autoridade ou reproduzir release. A imprensa tradicional segue sendo um canal central para dar legitimidade, amplitude e permanência às ações institucionais, especialmente quando o poder público precisa mobilizar a população em torno de campanhas sérias, como vacinação, prevenção e utilidade pública.

Continua depois da publicidade

Ao mesmo tempo, o encontro com os veículos também sinaliza algo que faltava, alinhamento. Não no sentido de submissão da imprensa, mas de organização mínima na relação entre governo e meios de comunicação. Quando a prefeita dialoga sobre metodologia de trabalho com os veículos, ela mostra que entendeu a necessidade de uma convivência mais profissional, menos improvisada e menos movida por humor pessoal.

É importante dizer também que Janete chega a esse novo momento com uma diferença essencial em relação ao passado recente. Enquanto vice-prefeita, mesmo sob o slogan “a vice que trabalha”, ela exercia papel relevante, mas não detinha a caneta. Tinha presença, mas não tinha o comando. Agora, tem ambos. Tem a função e o poder formal. Tem o dever e o instrumento. Tem, enfim, o direito de imprimir método, impor tom e dar rosto a um novo modelo de gestão.

E esse novo modelo, ao menos até aqui, vem acompanhado de outro elemento pouco comum na política: reconhecimento de falhas. Janete tem assumido erros, tem pedido desculpas quando necessário e tem evitado a arrogância tão frequente em gestores que confundem cargo público com infalibilidade pessoal. Essa postura não resolve tudo, claro. Mas ajuda a construir uma imagem de governo menos impermeável, menos vaidosa e mais consciente de que errar faz parte, desde que haja correção de rumo.

A grande questão agora não é o discurso. É a continuidade

Porque a política é fértil em gestos iniciais bonitos que depois se perdem na rotina, no desgaste e nas conveniências do poder. Janete deu um sinal importante. Talvez um dos mais importantes no campo simbólico desde que assumiu a Prefeitura. Mas esse sinal precisará ser confirmado no cotidiano, na permanência da postura institucional, no respeito à imprensa, na manutenção da humildade diante dos erros e na coerência entre fala e prática.

Se sustentar essa linha, poderá de fato consolidar uma mudança radical na comunicação do governo municipal e, mais do que isso, ajudar a devolver à Prefeitura de Divinópolis a condição de instituição, e não de extensão da personalidade de quem a ocupa. Isso, por si só, já seria avanço.

Ah, prefeita, atente-se às secretarias, aos secretários, às secretárias e aos seus assessores, para que não a deixem em maus lençóis. Gestão séria é preventiva, não corretiva, e muito menos denuncista sobre aquilo que é responsabilidade do próprio governo. O tempo dirá.

Continua depois da publicidade

comentários

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

🛈 Aviso sobre comentários no Divinews

Os comentários publicados nesta página são de inteira responsabilidade de seus autores. O Divinews Portal de Notícias Ltda não se responsabiliza pelas opiniões, acusações, ofensas ou informações expressas por terceiros.

Comentários que contenham conteúdo difamatório, injurioso, racista, discriminatório, ameaçador ou que incentivem a violência poderão ser removidos sem aviso prévio.

Em caso de requisição judicial, o Divinews fornecerá às autoridades competentes as informações de identificação do usuário, incluindo o endereço de IP da máquina utilizada, conforme prevê a legislação brasileira.

Continua depois da publicidade

artigos  relacionados