A audiência pública realizada na noite desta última quarta-feira (15), na Câmara de Divinópolis, começou em clima pesado. Moradores das imediações do lixão, especialmente de bairros como Frei Galvão, Santa Lúcia e áreas adjacentes, chegaram carregando anos de revolta, reclamações acumuladas e a sensação de abandono diante do mau cheiro, dos urubus e das condições degradantes da área. Foi nesse ambiente acirrado que a agora prefeita Janete Aparecida resolveu fazer o que, na política, quase ninguém gosta de fazer, falar olhando no olho e sem prometer o que não pode cumprir.
O tom da noite começou a mudar justamente quando Janete deixou claro que não iria repetir a velha liturgia da enrolação. A frase que abriu seu raciocínio foi praticamente um marco da audiência: “eu preciso falar para vocês uma coisa que eu escutei o pedido de vocês… que foi que não venham falar mentira”. Em seguida, ela foi direta ao ponto mais sensível de todos: “se eu dissesse que nós temos outro lugar… nós não temos”. Foi a primeira grande verdade jogada no plenário, e também a mais indigesta para quem há anos espera ouvir que o problema será simplesmente removido dali.
A sinceridade teve efeito político imediato. A audiência, que começou atravessada por desconfiança e tensão, foi sendo amenizada pelo modo como a prefeita assumiu a gravidade do problema sem maquiagem. Em vez de tentar dourar a situação, reconheceu que a estrutura não merece nem ser tratada como aterro. Disse sem rodeios: “lá é um lixão sim”. E completou com uma admissão pesada: se a operação fosse controlada de forma adequada, não haveria o nível de pressão do Ministério Público, nem multa, nem o cenário atual de chorume, cheiro e degradação.
Essa fala teve um peso especial porque desmontou, diante dos moradores, qualquer tentativa de suavizar o que eles enfrentam há anos. Janete não só admitiu a precariedade como reconheceu o acerto das críticas da comunidade quando o assunto é saúde pública e condição sanitária. Ao dizer que quem apontou a falta de condição sanitária estava certo, ela assumiu que o município falhou e que a situação não pode continuar nesse nível.
Outro momento importante foi quando a prefeita pediu desculpas de forma aberta. Segundo ela, houve erro no período em que foi interrompido o aterramento com terra, procedimento necessário para conter cheiro, bichos e o impacto do lixo exposto. Janete explicou que uma denúncia acabou travando a operação, mas admitiu que o problema só ganhou esse tamanho porque o município não fez da forma correta o licenciamento necessário para o desaterramento. A frase foi inequívoca: “nós erramos e eu peço desculpa”.
A prefeita também apontou falhas operacionais graves na execução do serviço. Disse que descobriu que máquinas que deveriam estar trabalhando em número adequado no local estavam quebradas ou funcionando abaixo do necessário, quando o ideal seriam quatro em operação intensa. A revelação veio acompanhada de indignação com a empresa contratada, que, segundo ela, recebe caro e deveria manter os equipamentos em atividade para impedir o acúmulo de lixo exposto e o agravamento do mau cheiro.
Nesse ponto, a fala de Janete deixou uma leitura política importante no ar. O que apareceu durante a audiência é que muitas dessas decisões, omissões e falhas não pareciam ter passado diretamente por ela no passado, ainda quando ocupava a vice-prefeitura. A impressão deixada por sua fala foi a de que a condução anterior estava muito mais concentrada no núcleo decisório do então prefeito Gleidson Azevedo, e que agora, sentada na cadeira principal, ela passou a receber em cheio problemas já armados e mal resolvidos. Isso é uma inferência jornalística a partir do modo como ela narrou ter descoberto falhas apenas depois de levar gente de sua confiança para dentro da operação.
Ao mesmo tempo, Janete não tentou terceirizar tudo. Assumiu que, agora, a responsabilidade é dela e que o município precisa corrigir a forma como está tratando a área. Para reduzir de imediato o sofrimento dos moradores, disse que o caminho emergencial é aumentar a quantidade de terra, colocar as quatro máquinas para funcionar continuamente e intensificar o aterramento para conter o cheiro e os urubus. Não apresentou milagre. Apresentou contenção de dano.
Mas foi no debate sobre o futuro que a prefeita jogou a bomba mais pesada da noite. Ela deixou claro que Divinópolis não tem, hoje, outro lugar para levar o lixo. E foi além, sustentando que qualquer área nova enfrentaria imediata rejeição da população vizinha. O raciocínio foi cru e politicamente desconfortável: se ninguém aceita receber o lixo de outra cidade, também não haverá bairro, distrito ou comunidade disposta a engolir as 202 toneladas diárias produzidas por Divinópolis. “Quem tem que cuidar do seu lixo é a sua cidade”, resumiu.
Essa fala praticamente enterrou a fantasia de uma remoção simples e rápida do lixão. Janete afirmou que não vai mentir para os moradores dizendo que vai tirar o lixo dali se, neste momento, não existe endereço alternativo viável. Em vez disso, disse que a cidade terá de trabalhar numa solução de tratamento, mitigação de impacto, proteção sanitária e reorganização do sistema. Não foi a resposta que muitos queriam ouvir, mas foi a resposta que ela decidiu bancar.
Na prática, a prefeita descreveu um plano ainda em construção. Informou que o município contratou, por chamamento público, a empresa IPGC para fazer a modelagem técnica do serviço que terá de ser implantado. Disse que esse estudo será apresentado publicamente na própria Câmara, e não em reunião fechada. A ideia, segundo ela, é discutir abertamente o tratamento do lixo, sem esconder da população o que será proposto.
Janete também advertiu que o município não tem recursos para enfrentar sozinho toda a solução e que a saída estudada passa pela empresa pública municipal de obras, com controle acionário que permita comando, fiscalização e, principalmente, presença da comunidade em conselho com voz e voto. Essa parte da fala foi uma tentativa de mostrar que o enfrentamento do problema não pode continuar sendo feito de costas para quem mora ao redor.
Outro trecho forte da audiência foi quando ela tratou das famílias que vivem muito perto da área. Reconheceu que há moradores a 100 ou 200 metros do lixão e que o município terá de tratar de forma específica a situação desses proprietários, tanto os que desejam sair quanto os que permanecerão. Para quem ficar, disse que será preciso garantir condição segura, água tratada e padrão sanitário minimamente aceitável. Houve ali um deslocamento do discurso técnico para o terreno humanitário.
Foi nesse espírito que surgiu um dos episódios mais humanos da noite. Ao mencionar São Miguel, Janete disse que a casa dele não vinha sendo abastecida adequadamente porque faltava caixa d’água. Prometeu encontrar uma forma de resolver isso para garantir água tratada. Ao fazer isso, tirou a discussão do abstrato e levou para o concreto, ligando o drama ambiental às condições de sobrevivência de quem mora colado ao problema.
A prefeita também acenou com mecanismos de acompanhamento permanente. Prometeu criar uma comissão séria, apartidária e sem envolvimento político direto, para acompanhar o tema junto ao município. Disse ainda que pretende reunir os moradores ao menos a cada dois meses para dar prestação de contas sobre o andamento das providências. Em outra frente, pediu que denúncias sobre entrada irregular de catadores ou falhas da operação fossem encaminhadas diretamente à secretária Andréia, para ação imediata.
No meio da fala, Janete ainda tocou num ponto incômodo, o comportamento do próprio sistema de reciclagem. Disse que o índice atual é baixo, que há conflitos frequentes entre famílias ligadas à atividade e que o município não pode tratar reciclagem como fonte de lucro, mas como obrigação de investimento público e de reorganização social. A fala foi dura e mostra que, para ela, não existe solução séria para o lixo sem ampliar reciclagem e tirar do fluxo final aquilo que pode ser reaproveitado.
Ao fim da audiência, o que ficou não foi uma promessa salvadora. Ficou uma admissão pública de que Divinópolis está diante de um problema estrutural, antigo, mal conduzido por anos e sem saída simples. Janete preferiu dizer isso de frente a seguir empurrando discurso de conveniência. Assumiu falhas, pediu desculpas, chamou o local pelo nome que os moradores reconhecem, lixão, e deixou claro que não há mágica, só trabalho duro, tratamento técnico e enfrentamento político do que foi deixado para trás.
O efeito imediato foi perceptível. O clima inicial de confronto perdeu força à medida que a prefeita foi expondo as entranhas do problema sem teatralidade. Isso não resolveu a dor de quem convive com o cheiro e com a insegurança sanitária, mas deslocou a audiência do terreno da farsa para o da realidade. E, numa cidade acostumada a ouvir promessas fáceis, talvez essa tenha sido a fala mais politicamente pesada da noite.






