A primeira assembleia dos motoristas do transporte coletivo de Divinópolis elevou de vez a tensão sobre o risco de greve na cidade. A categoria se reuniu para discutir o reajuste salarial, ouviu a prefeita Janete Aparecida, cobrou proposta concreta das empresas e aprovou, por unanimidade, o encaminhamento para comunicar estado de greve a partir de segunda-feira, abrindo o prazo de 72 horas para uma paralisação da categoria, se nada avançar.
O encontro expôs um cenário de desgaste acumulado. Segundo a direção sindical, janeiro e fevereiro passaram sem reuniões efetivas com o consórcio e com os empresários. Apenas em março, data-base da categoria, as conversas começaram, mas sem qualquer avanço. Na prática, os trabalhadores chegaram à assembleia diante de uma proposta zero.
A presença de Janete Aparecida deu peso político ao ato. A prefeita foi chamada ao microfone depois de um convite feito pelo sindicato, que relatou conversa prévia no gabinete dela. Ao falar aos motoristas, Janete tentou marcar posição de diálogo, disse que ouviu reclamações da categoria por canais públicos e privados e afirmou que sabe da falta de valorização dos profissionais.
Mesmo assim, a chefe do Executivo deixou claro que não consegue prometer o que os trabalhadores desejam neste momento. Janete reconheceu que os motoristas merecem salário melhor, porém afirmou que o contrato atual com a empresa impõe limites legais e financeiros ao município. Ela sustentou que consegue intermediar junto às empresas, o índice legal de correção, mas não tem como ampliar os repasses que são feitos da Prefeitura para a Transoeste, e com isso, possivelmente possibilitar o reajuste que a categoria almeja.
A prefeita também trouxe números para justificar a posição. Disse que o município já pagou parcelas do subsídio e trabalha com previsão de R$ 18 milhões ao longo do ano. Segundo ela, ampliar esse valor para bancar aumento acima do que considera possível hoje afetaria outras áreas essenciais, como merenda escolar, tapa-buracos e serviços básicos da Prefeitura.
No trecho mais político da assembleia, Janete afirmou ter questionado diretamente o empresário Fernando Carvalho sobre a condução do impasse. A prefeita perguntou se as empresas queriam uma paralisação logo no início da gestão dela. Depois, foi além. Disse que a empresa aposta no desgaste do governo, porque quando há greve, segundo ela, a culpa quase sempre recai sobre o Executivo.
A fala acendeu os ânimos no plenário da assembleia. Janete afirmou que não pretende renovar automaticamente o atual contrato e que quer uma nova licitação para 2027, com ônibus mais confortáveis, wi-fi, ar-condicionado, frota elétrica e salário digno aos trabalhadores. Ao mesmo tempo, reforçou que só consegue construir isso em um novo modelo contratual, não no contrato atual.
Outro ponto sensível foi o reajuste da passagem. A prefeita disse que não fará essa discussão agora e associou o tema ao período eleitoral. Segundo Janete, o debate sobre novo valor da tarifa, com um novo contrato e reestruturação do sistema deve ocorrer após outubro, com audiência pública, participação popular e envolvimento da Câmara. A mensagem foi clara: aumento da passagem, neste momento, está fora da mesa.
Se Janete tentou ganhar tempo, o sindicato tentou manter o controle político e jurídico do movimento. O presidente da entidade reafirmou que a proposta patronal é zero e lembrou que a data-base vence no dia 15. Também destacou que o sindicato já prepara o dissídio coletivo para garantir os direitos da categoria e evitar perdas salariais e financeiras.
Durante a assembleia, o dirigente sindical repetiu várias vezes que o caminho precisa ser legal e técnico. A orientação foi clara: comunicar as autoridades, cumprir os prazos legais e só então avançar para a greve. O jurídico da entidade reforçou que, por se tratar de serviço essencial, uma eventual paralisação precisa respeitar a Lei de Greve, incluindo aviso prévio e manutenção mínima de operação.
O ambiente ficou ainda mais carregado com falas de apoio dos vereadores presentes. O vereador Vitor atacou duramente a empresa, disse que a conduta do consórcio é de jogo baixo com os trabalhadores e cobrou transparência das contas. Já a vereadora Kell ressaltou que a empresa estaria chantageando o poder público e usando os motoristas como moeda de pressão por mais subsídio.
No meio do debate, apareceram também vozes divergentes. Um trabalhador questionou a dificuldade de manter empresas operando em Divinópolis e alertou para a fragilidade econômica do sistema. Outro lembrou que, sem revisão de tarifa, a conta segue apertada. Ainda assim, o centro da assembleia permaneceu no mesmo ponto: salário digno, proposta concreta e reação à falta de valorização da categoria.
O presidente do sindicato tentou construir uma saída intermediária. Em vez de aceitar os 45 dias pedidos pelo consórcio, sugeriu dar crédito curto à prefeita para convocar formalmente a empresa e arrancar uma proposta oficial no papel. Janete rejeitou a ideia de esperar tanto tempo e afirmou que consegue agir já no início da próxima semana, desde que haja prazo legal para convocação.
Ao fim da primeira assembleia, prevaleceu um entendimento: a partir de segunda-feira, o sindicato comunicará as autoridades e, vencidas 72 horas, a greve poderá ser decretada a qualquer momento se não houver proposta satisfatória a ser levada novamente aos trabalhadores. A aprovação ocorreu por unanimidade entre os presentes na reunião da manhã.
Depois da votação, Janete classificou o gesto como um voto de confiança dado pelo sindicato. A prefeita afirmou que, se a empresa não apresentar proposta, ficará ao lado dos motoristas. Também repetiu que foi ao local para encarar o problema de frente e tentar intermediar uma solução antes que a cidade mergulhe em novo colapso no transporte coletivo.
A primeira assembleia, portanto, não fechou a porta para negociação. Mas também não deixou margem para empurrar o problema indefinidamente. A categoria saiu mobilizada, o sindicato ganhou respaldo para avançar no rito de greve e Janete assumiu, diante dos trabalhadores, o compromisso de chamar a empresa para a mesa. Agora, a pressão deixou de ser discurso e virou contagem regressiva.






