Governo despeja verba publicitária na velha mídia, ignora a internet e Lula vê Flávio Bolsonaro crescer

Cobrado dentro do próprio governo, Sidônio Palmeira vira alvo após pesquisas mostrarem Flávio Bolsonaro competitivo mesmo sem o aparato publicitário oficial que sustenta a vitrine federal

Publicado por: Geraldo Passos

Quando até dentro do governo começa a puxada pública de orelha no ministro da comunicação, é porque a fumaça já saiu pela janela faz tempo. Sidônio Palmeira virou alvo de cobrança aberta após o desgaste de Lula nas pesquisas e o avanço de Flávio Bolsonaro, que aparece em empate técnico com o presidente em simulações recentes de segundo turno. O detalhe que torna o cenário ainda mais humilhante para o Planalto é simples: Flávio cresce sem a máquina de publicidade governamental, enquanto Lula conta com o poder da caneta, da estrutura oficial e de uma rede de divulgação infinitamente mais robusta.

A bronca pública dada por Rui Costa em reunião ministerial escancarou o incômodo do núcleo do governo com a comunicação. A cobrança foi direta: o povo precisa saber o que o governo fez. O problema é que essa conclusão chega tarde e vem contaminada por um vício antigo da esquerda institucional em Brasília, a crença de que basta despejar verba nos grandes veículos, especialmente nos centros de poder, para que a mensagem chegue viva ao povo. Não chega. E, quando chega, já chega velha. A crítica exposta em público mostra que o Planalto ainda tenta encontrar um rumo para comunicar resultados em ano eleitoral.

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O paradoxo é cruel para o lulismo. O governo recuperou e relançou políticas públicas com apelo popular, como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida e Mais Médicos, além de manter novos programas sociais e educacionais em circulação. Há, portanto, material de vitrine. Há programa, há obra, há discurso social. O que não há é capacidade moderna de transformar isso em conversa orgânica com quem vive fora da bolha institucional. O governo tem pauta. O governo não tem pulso digital.

E é justamente aí que a direita dá aula. Pode-se discordar do conteúdo, do estilo e até da agressividade, mas negar a habilidade digital desse campo já virou teimosia. A direita usa a internet, entende a lógica da viralização, domina linguagem curta, cria capilaridade por WhatsApp, cortes, redes e influência distribuída. Enquanto isso, Sidônio ainda parece seduzido pela velha arquitetura de comunicação vertical, aquela que aposta pesado nos meios tradicionais, na liturgia da grande imprensa e no alcance concentrado das capitais. O resultado aparece no placar: Lula tem governo, verba e estrutura; Flávio tem rede, linguagem e aderência.

Há outro erro grave nesse modelo. O governo concentra recursos e atenção nos chamados grandes veículos, sobretudo dos grandes centros, e age como se a opinião pública brasileira nascesse pronta em estúdio de televisão. Não nasce. O eleitor mora nos municípios, respira realidade local e consome também mídia do interior, rádio regional, portal municipal, influenciador de bairro, página segmentada e rede social de proximidade. Quando a Secom ignora isso, não está apenas desprezando veículos menores. Está errando o mapa do país. O Brasil real não cabe nas avenidas de Brasília, Rio e São Paulo.

Daí nasce a distorção. O governo acha que falou porque apareceu onde sempre apareceu. Mas aparecer onde sempre apareceu já não basta. A audiência tradicional encolheu, fragmentou e perdeu o monopólio sobre formação de opinião. A internet não é mais complemento. É campo principal. E a direita entendeu isso antes, melhor e com mais disciplina. Enquanto o Planalto aposta em distribuição de verba e presença protocolar, a oposição avança com linguagem de guerra, presença constante e comunicação moldada para o dedo do eleitor na tela do celular.

O mais simbólico é que o próprio Sidônio, segundo relatos de bastidores, reconhece que Lula precisa aparecer mais e falar com maior frequência nas redes. O diagnóstico, portanto, já existe. O que falta é a coragem de romper com o modelo antigo. Porque uma coisa é dizer que o presidente precisa ir mais para a rede. Outra, bem diferente, é reorganizar toda a lógica da comunicação federal para um país que já não recebe mensagem como recebia 20 anos atrás.

No fundo, a pancada em Sidônio expõe mais do que um problema de marketing. Expõe uma crise de leitura política. O governo parece acreditar que entrega de programa social, sozinha, gera gratidão automática e voto. Já a direita trabalha com outra premissa: entrega importa, mas narrativa, repetição, presença digital e mobilização emocional importam tanto quanto. É por isso que Flávio Bolsonaro consegue se manter competitivo mesmo sem carregar nas costas o peso de uma máquina estatal de propaganda.

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Se Lula empata com Flávio mesmo controlando a estrutura do governo, o problema não está apenas na comunicação, mas a comunicação é parte central dele. E, nesse quesito, Sidônio apanha porque insiste em falar para um Brasil que já mudou de canal faz tempo. A televisão ainda pesa, claro. Mas o país que decide eleição já está, majoritariamente, na palma da mão. Quem entendeu isso saiu na frente. Quem continua tratando a internet como rodapé está ficando para trás.

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