Janete toma posse com recados políticos subliminares e promete gestão com marca própria em Divinópolis

Em coletiva antes da posse, Janete Aparecida acenou à continuidade do governo, mas deixou claro que pretende corrigir rumos, enfrentar gargalos e imprimir estilo próprio

Publicado por: Geraldo Passos

Janete Aparecida chegou à coletiva de imprensa que antecedeu sua posse na última sexta-feira ( 27) já carregando o peso histórico do momento. Emocionada, ela não escondeu o simbolismo de se tornar a 1ª mulher a assumir a Prefeitura de Divinópolis em 113 anos. Mas, por trás do discurso sensível e da referência constante à condição de mulher, mãe e gestora, a agora prefeita também construiu uma fala política calculada, com recados importantes para aliados, adversários, servidores, empresários e vereadores.

Ao afirmar que dará continuidade ao governo de Gleidson Azevedo, Janete evitou qualquer gesto de ruptura brusca. No entanto, a própria forma como estruturou a fala mostrou que essa continuidade não será automática nem cega. Quando disse que pretende manter o que considera positivo e implantar aquilo que acredita ser necessário e possível, a futura prefeita sinalizou que quer preservar a base administrativa já montada, mas com autonomia para aparar arestas e corrigir pontos que considera problemáticos. O recado subliminar foi claro, ela não pretende ser apenas uma figura de transição.

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Outro movimento político importante apareceu na relação com a imprensa. Janete adotou um tom de aproximação e respeito, classificando os veículos de comunicação como parceiros capazes de enxergar fatos que o poder público nem sempre consegue ver. Nas entrelinhas, essa fala pode ser lida como uma tentativa de descompressão institucional, sobretudo em um ambiente político em que tensão com setores da imprensa marcou diferentes momentos recentes. Ao dizer que quer diálogo aberto, inclusive para corrigir falhas, a nova prefeita procurou construir uma imagem de governo menos reativo e mais acessível.

Na relação com a Câmara Municipal, Janete também foi cuidadosa, mas objetiva. Ao lembrar que já foi vereadora e que não se governa sem diálogo com o Legislativo, ela fez um gesto de conciliação. Porém, ao mesmo tempo, avisou que enfrentará projetos difíceis que, segundo ela, muitos não tiveram coragem de encarar. Essa frase carrega um peso político relevante. Ela serve como cobrança velada a gestões anteriores e também como aviso prévio ao próprio meio político de que pretende bancar medidas duras, mesmo quando forem impopulares ou desgastantes.

Foi nesse ponto que surgiu um dos recados mais diretos da coletiva. Janete antecipou que a primeira “briguinha” do governo seria com o transporte coletivo e disse que enfrentará o tema já na semana seguinte. A escolha da palavra, aparentemente leve, esconde uma sinalização importante. Ela sabe que o transporte é uma das pautas mais sensíveis e mais desgastadas da cidade e, ao colocar o assunto logo na largada, tenta mostrar disposição para enfrentar interesses organizados e um problema antigo que atinge diretamente a população. Ressalte-se que ao longo dos últimos cinco anos e três meses, o agora ex-prefeito Gleidson Azevedo segurou o aumento da tarifa, usando como artifício do congelamento repasses diretos para o Consórcio TransOeste. A expectativa é como ela irá lidar com essa “bomba explosiva” que caiu direto em seu colo, e, pior,  ante o discurso do sindicato dos motoristas com ameaça de paralisação.

Ao abordar o reajuste dos servidores, Janete misturou discurso de direito com prudência legal. Garantiu a correção pelo IPCA, mas deixou claro que não poderia ir além em ano eleitoral, sobretudo diante da condição de pré-candidato de Gleidson. Esse trecho teve forte teor técnico, mas também funcionou como blindagem política. Nas entrelinhas, ela procurou mostrar responsabilidade fiscal e respeito à legislação, ao mesmo tempo em que evita alimentar pressões corporativas por reajustes maiores. Foi um recado simultâneo ao funcionalismo e aos órgãos de controle.

O eixo mais pessoal da coletiva apareceu quando Janete anunciou a intenção de criar uma secretaria voltada à gestão humana. O nome da proposta já carrega um símbolo político. Ela quer separar a lógica fria da máquina administrativa da lógica do cuidado com quem move a máquina. Ao falar em aposentadoria, licença, adoecimento mental, capacitação e valorização dos servidores, a futura prefeita tenta se diferenciar pelo discurso da humanização. Mas há também uma leitura política evidente, Janete quer construir uma marca própria baseada em proximidade, acolhimento e organização técnica, se afastando da imagem de gestão puramente operacional.

Na saúde, Janete reforçou a expectativa pelo funcionamento do hospital público e detalhou a separação física entre atendimento infantil e adulto na UPA. O anúncio foi apresentado como medida prática, mas carrega outro recado. Ao usar a experiência de mãe para justificar a prioridade, ela politiza o cuidado sem cair em sentimentalismo vazio. A mensagem é de que sua gestão quer parecer mais atenta ao cotidiano real das famílias, principalmente das mães que enfrentam o sistema de saúde na ponta.

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Quando falou da Casa da Mulher e do Centro de Atendimento à Mulher, Janete reforçou uma agenda de proteção feminina que dialoga diretamente com o simbolismo de sua posse. Ela evitou prometer uma secretaria exclusiva neste momento, alegando inviabilidade econômica, mas deixou a porta aberta para isso no futuro. A fala revela pragmatismo. Em vez de vender uma estrutura que talvez não consiga sustentar agora, ela preferiu prometer uma diretoria com funcionamento concreto. O gesto busca equilibrar discurso político e limite financeiro, sem abandonar a bandeira feminina.

Talvez o recado mais importante, porém, tenha surgido quando Janete mencionou a dificuldade financeira do município e afirmou que apresentará isso em outro momento. A frase foi curta, mas pesada. Ao não detalhar imediatamente o quadro, ela planta desde já uma narrativa de cautela fiscal que poderá servir de base para justificar decisões futuras, travas orçamentárias e eventuais medidas impopulares. É uma fala de quem já prepara o terreno para governar com a calculadora na mão, sem abrir mão do discurso político.

No campo da segurança, Janete defendeu a futura guarda municipal, mas fez questão de desmontar o que chamou, na prática, de ilusões e atalhos. Explicou etapas legais, financeiras e operacionais, rejeitou improvisos e disse que não fará milagre. Foi um recado importante para a própria base política e para setores que pressionam por respostas rápidas. Ao mesmo tempo, apresentou um projeto de videomonitoramento em larga escala, com cerca de 600 câmeras, dentro de uma PPP estimada em R$ 80 milhões. Com isso, tenta mostrar que não está negando soluções, apenas substituindo promessas fáceis por planejamento de médio prazo.

Também chamou atenção o anúncio de que o secretariado será apresentado com aumento significativo da presença feminina. A mensagem vai além da composição administrativa. Janete quer que sua posse como 1ª mulher prefeita não seja apenas um fato histórico, mas um marco de reposicionamento político e simbólico dentro da estrutura de poder da cidade. Nesse ponto, ela falou para a sociedade, para o eleitorado e para a própria elite política local.

Ao fim da coletiva, ficou a sensação de que Janete assumiu sem romper com Gleidson, mas também sem se esconder atrás dele. O discurso teve emoção, religiosidade, técnica e acenos institucionais, mas trouxe sobretudo um desenho de poder. Nas entrelinhas, ela avisou que quer diálogo com a imprensa, parceria com a Câmara, cobrança sobre empresas concessionárias, reorganização interna da máquina, mais presença feminina no comando e margem política para corrigir aquilo que considerar necessário. Antes mesmo da posse formal, Janete já falava como prefeita, e não apenas como sucessora.

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