Cenas de filme no centro de Divinópolis: entrega de droga usando a Shopee vira perseguição do DENARC e busca chega a loja de importados

Delegado detalha sequência que começou com encomenda interceptada e terminou com mandados, apreensões e investigações sobre venda de perfumes, eletrônicos e medicamentos

Publicado por: Geraldo Passos

O que parecia apenas mais uma encomenda de entrega virou uma cena típica de filme policial no Centro de Divinópolis. A ocorrência, narrada por um delegado Fernando Tomaz Gomes do Departamento Estadual de Combate ao Narcotráfico – DENARC  ao Divinews,  com a suspeita de que um homem jovem de 20 anos, identificado pelo delegado como “Otávio”, estaria vendendo haxixe na cidade e recebendo remessas vindas de fora por meio de encomendas da Shopee.

Áudio do Delegado do Denarc enviado ao Divinews

A investigação, segundo o delegado, nasceu de informações colhidas ainda no ano passado. O tal homem, “Otávio”,  teria contatos familiares no Rio de Janeiro e em Foz do Iguaçu, e usaria esse canal para encomendar a droga. O ponto que acendeu o alerta foi o modo de envio: a substância chegaria “pela Shopee”, o que permitiu aos investigadores montar uma estratégia de flagrante planejado.

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Com uma remessa já identificada, a equipe decidiu fazer uma “entrega controlada”. A lógica era simples: deixar a encomenda chegar ao destino, esperar o recebimento e, no ato, efetuar a prisão. Quando o entregador se aproximou, o homem chegou de carro e os policiais fizeram a abordagem.

A partir daí, a rua virou palco. Como o Denarc atua sem uniforme em diversas situações, o delegado relata que a equipe estava descaracterizada. Otávio reagiu de imediato, teria jogado o carro contra um policial e iniciou fuga. Um segundo policial conseguiu fechar o veículo, houve colisão, e a perseguição começou em plena região central.

O boato de “troca de tiros” correu na cidade na época, mas o delegado afirma que não houve confronto armado. O que houve, segundo ele, foram disparos nos pneus para tentar parar o veículo e evitar risco ainda maior a terceiros.

A perseguição, ainda conforme a narrativa, se estendeu por aproximadamente 4 km. No trajeto, o motorista  entrou na contramão e quase provocou um acidente de grandes proporções. Em seguida, perdeu o controle, caiu em um barranco e correu para dentro de um mangue, tentando se esconder. As equipes entraram na área, mas não conseguiram localizá-lo naquele momento.

A fuga continuou fora das câmeras. O delegado diz que, à noite, ele conseguiu escapar e se escondeu na casa de um tio, depois em um ponto alto da cidade, descrito como área que “parece uma mineração” nas imediações de Divinópolis. A polícia, então, passou a tratar o caso como situação de risco, porque houve reação durante a abordagem.

Com o cerco apertando, a mãe do suspeito entrou na história. O delegado relata que a equipe conversou com ela para que ele se apresentasse, alertando que uma nova abordagem poderia ser mais enérgica e terminar em tragédia. No dia seguinte, ele  apresentou na delegacia. Mesmo assim, como o flagrante já havia passado, não foi possível prendê-lo naquele instante.

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A virada investigativa veio na sequência. A namorada do contraventor estava junto no momento da perseguição e, com autorização judicial, o Denarc fez extração e análise de dados do telefone. A análise, segundo o delegado, apontou um grupo maior, com cerca de oito pessoas, ligado não apenas a haxixe, mas também a venda de remédios e contrabando.

É aqui que entra o elo com o comércio. O delegado afirma que o “cabeça dos contatos” do contrabando teria ligação com uma loja de importados no Centro de Divinópolis, cuja linha de comércio envolveria produtos como perfumes, eletrônicos e foco em celulares, além de material descrito como “moamba”. A apuração levou a uma operação com oito mandados de busca em casas de investigados.

Nas diligências, o delegado relata que os próprios amigos teriam atribuído ao jovem  o papel de oferecer a droga. Já o responsável pela loja não foi localizado na ocasião porque estaria em São Paulo, segundo o delegado.

Mesmo depois das buscas, o monitoramento continuou. O Denarc afirma que passou a acompanhar as redes sociais de Otávio, que estaria anunciando perfumes e remédios semelhantes aos produtos associados à loja investigada. Em uma das publicações citadas, houve menção a “Mounjaro”, e o delegado afirma que, se soubessem antes, poderiam ter esperado para tentar chegar no fornecedor.

Com o novo conjunto de elementos, a equipe levou o material ao Ministério Público e pediu a prisão de dois investigados. O juiz autorizou a prisão dele, cumprida posteriormente. Para o responsável pela loja, a Justiça não decretou prisão naquele momento, mas impôs medidas cautelares, como recolhimento de passaporte, obrigação de permanecer em casa em horários definidos e comparecimento a intimações, com previsão de preventiva em caso de descumprimento.

Após a prisão, o Denarc diz que encontrou anotações que ampliaram o pano de fundo. O delegado menciona registros de viagem com a mãe para a África e passagem por Dubai, com tentativa de comprar ouro e joias, além de relato de que teria levado golpe e perdido dinheiro.

A sequência descrita pelo delegado expõe dois aspectos que chamam atenção. O primeiro é o risco público: perseguição em via aberta, contramão e possibilidade real de acidente com terceiros. O segundo é o alcance da investigação, que não ficou restrita à droga, e passou a mirar uma rede que mistura importados, eletrônicos, medicamentos e contrabando, com desdobramentos ainda em andamento.

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