A manhã deste sábado (14) reuniu milhares de pessoas no Aeroporto Brigadeiro Cabral, em Divinópolis, para acompanhar a apresentação da Esquadrilha da Fumaça, o Esquadrão de Demonstração Aérea, nome técnico adotado pela Força Aérea Brasileira. O espetáculo aéreo foi marcado por manobras arrojadas, passagens rasantes e acrobacias executadas nas áreas próximas à pista de pouso e decolagem, em um show que mobilizou famílias inteiras e transformou o entorno do aeroporto em um grande evento público – Só que, enquanto os olhos da cidade estavam no céu, o chão virou palco de outra cena, essa bem menos aplaudida. Nos bastidores do evento, o prefeito Gleidson Azevedo protagonizou um episódio de confronto com militares do Tiro de Guerra, gerando uma polêmica que mistura populismo, hierarquia e, principalmente, segurança misturado com assédio moral.
Segundo relatos e registros que circulam nas redes, o prefeito se dirigiu a um ponto com gradil instalado para controlar o fluxo de pessoas e preservar uma área delimitada. Um atirador do TG, em postura de serviço, tentou explicar que aquele trecho estava restrito e seguia regras de acesso, inclusive por questão de organização e segurança. O militar, visivelmente constrangido, tentou argumentar, mas recebeu ordem para retirar o gradil. Diante da resistência do soldado em descumprir a orientação do posto, o próprio prefeito levantou e removeu a grade, liberando a passagem para uma multidão acessar o local reservado.
A situação não parou aí. Após abrir o acesso, o prefeito foi abordado por outro militar que o questionou sobre a atitude. O diálogo escalou. Em tom de enfrentamento, dedo em riste, Gleidson, que é irmão do senador Cleitinho, e também já se declarou pré- repetiu a frase que virou símbolo do episódio: “A autoridade aqui é o povo”. Em seguida, o prefeito buscou transformar a cena em narrativa política, como se a hierarquia e as regras do evento fossem um obstáculo “elitista” que ele, sozinho, estaria derrubando em nome da população.
A reação nas redes foi imediata e dividida. Parte do público aplaudiu o gesto como “popular”. Outra parte, porém, enxergou um problema sério. Não por liberar espaço, mas por fazer isso humilhando quem estava ali cumprindo ordens e, pior, rompendo uma barreira instalada para controle de acesso.
Em um dos comentários que repercutiram, a crítica foi clara: a atitude com a população poderia até ter boa intenção, mas a forma como o atirador foi tratado foi vista como desrespeitosa e humilhante. O argumento do comentário é simples e difícil de contestar, o jovem estava ali cumprindo uma hierarquia rígida, obedecendo ordens superiores, e não poderia ser exposto publicamente como se fosse um inimigo do povo.
Outro comentário seguiu a mesma linha, destacando que a ideia de ceder espaço ao público não dá ao prefeito o direito de desrespeitar quem estava trabalhando na segurança do evento. A crítica aponta que o gesto virou “aparecimento”, colocando o servidor militar como alvo e transformando uma função de proteção em espetáculo.
Um terceiro comentário elevou o debate para o ponto mais perigoso. A crítica alerta que regras existem por motivo. Se havia delimitação de área, ela não foi criada para “autoridades” por vaidade, mas para garantir controle de fluxo, evitar tumulto e impedir acidentes em um ambiente que, por definição, exige disciplina. Em aeroporto, com aeronaves em demonstração, pista ativa e circulação intensa, o descumprimento de regras pode ter consequências graves. A pergunta que fica é objetiva: se a quebra de uma orientação gera correria, empurra-empurra ou acidente, quem responde?
Após a repercussão negativa, o prefeito tentou se antecipar e publicou explicação nos comentários da própria postagem. Ele afirmou que não era uma área de segurança, mas “uma área para autoridades”. E reforçou o slogan: “Autoridade em Divinópolis é o povo”. Ao repetir a frase, ele reforçou o que muitos enxergaram como populismo: transformar um protocolo de controle e organização em disputa simbólica, como se fosse “povo contra elite”, quando, na prática, era “regra contra improviso”.
O Divinews buscou o contraditório institucional. O caso foi levado ao Exército Brasileiro. A resposta inicial foi de que, naquele momento, não haveria posicionamento individual, apenas a informação de que o episódio será tratado institucionalmente. O portal também buscou a 4ª Região Militar, com sede em Belo Horizonte, e recebeu a orientação de que, se houver manifestação, será por meio de Nota Oficial.
A reportagem também procurou a estrutura local. A diretoria do Tiro de Guerra em Divinópolis é vinculada à vice-prefeita Janete Aparecida, que está em viagem ao exterior e retorna nos próximos dias. A chefia de gabinete não comentou o caso e orientou a busca de informações na Diretoria de Comunicação da Prefeitura.
A Comunicação, ao ser informada do episódio, tentou enquadrar o pedido como “assunto de caráter pessoal” e repassou o telefone do prefeito. O Divinews respondeu que não se trata de assunto pessoal. Se o autor da ação não fosse prefeito, não teria acesso à área reservada, nem teria autoridade prática para romper uma barreira de controle. O ponto é institucional, envolve autoridade pública, relação com forças militares e risco coletivo em ambiente controlado.
O episódio também abre uma questão de fundo que Divinópolis precisa discutir com maturidade: autoridade pública não se mede por grito, nem por dedo em riste. E muito menos se exerce passando por cima de protocolos de segurança e de hierarquia militar. Atiradores do Tiro de Guerra não são figurantes de evento. Eles representam uma corporação, cumprem missão e obedecem ordens. Humilhar publicamente um soldado em serviço pode render aplauso fácil de rede social, mas deixa um rastro ruim para a instituição e para a cultura de respeito às regras.
Se o objetivo era ampliar espaço ao público, havia caminhos corretos, diálogo com comando, ajuste de acesso e reorganização com segurança. Escolher o confronto, no meio da multidão, transformou protocolo em briga e, pior, ensinou um recado perigoso, o de que regra só vale quando convém e que hierarquia pode ser atropelada por performance política.
O Divinews seguirá cobrando posicionamento institucional do Exército sobre a humilhação que os atiradores passaram, e da diretora do TG, que é a vice-prefeita. E ainda manterá o foco onde deve estar: segurança pública, respeito institucional e responsabilidade do agente político diante de milhares de pessoas reunidas em um ambiente de risco operacional.
Por fim uma explicação técnica: Atiradores do Tiro de Guerra (TG) são considerados soldados da reserva de 2ª categoria do Exército Brasileiro. Embora instruídos em órgãos de formação de reserva e não em quartéis da ativa, eles prestam serviço militar inicial obrigatório, adquirindo condição de militar para qualquer fim durante esse período.





