A cerimônia de lançamento da pedra fundamental da nova sede do Sinvesd, realizada ontem, quarta-feira (25), não ficou restrita ao gesto simbólico de iniciar uma obra. O evento ganhou o tom de reconciliação com o próprio passado e virou, para o setor confeccionista, um recado público de que Divinópolis ainda sabe se unir quando o assunto é futuro. No meio do ambiente de celebração, o vice-presidente do sindicato, José Francisco Martins, conhecido popularmente como Chiquinho, traduziu o sentimento predominante em uma palavra que, para quem conhece a história do terreno, tem peso real, união.
Ao conversar com o jornalista que acompanhava o ato, Chiquinho puxou o foco para algo que geralmente passa batido em solenidades, quem sentou à mesa e decidiu caminhar junto. Ele citou, como eixo da nova etapa, a soma de forças entre Sinvesd, Divishop, Divicred e Prefeitura, com envolvimento também da Câmara Municipal. Para ele, essa costura institucional é o que dá sustentação ao projeto e permite que a nova sede nasça com função social e econômica. Não seria apenas uma “casa do sindicato”. O desenho, segundo ele, mira um centro de recepção do turista, uma biblioteca pública com sede própria após décadas e um auditório destinado a servir a comunidade, com estrutura para eventos e feiras.
Esse ponto é decisivo porque recoloca a confecção no centro do debate urbano, não como nostalgia, mas como estratégia. A moda sempre foi um dos motores que mais empregaram e movimentaram Divinópolis, especialmente pela capilaridade da cadeia, da criação à costura, do acabamento ao atacado. Quando a cidade investe em um equipamento que recebe gente de fora, orienta o visitante, apoia eventos e abre espaço de formação, ela não investe só em paredes. Ela investe em fluxo, imagem e competitividade.
O auditório, segundo Chiquinho, leva o nome do Divicred e nasce com vocação de múltiplos usos, cursos, palestras, feiras e iniciativas diversas que beneficiem a população. Na prática, é a ideia de que o prédio precisa “respirar cidade”, manter calendário ativo e se transformar em referência para tecnologia, capacitação e vitrine de oportunidades para quem quer empreender na confecção.
No entanto, a conversa avançou para o ponto que sempre reaparece quando Divinópolis fala do próprio polo, as idas e vindas do terreno. O jornalista Geraldo Passos, que tem o histórico do setor, contextualizou o assunto como uma espécie de novela institucional, em que um presidente recebe, chega a bater estaca para inicio de obras, e a abadona, depois outro presidente devolve o terreno para a prefeitura, e assim o tempo passa, enquanto o setor tenta não perder mais fôlego do que já perdeu. A pergunta não veio para reabrir feridas, veio para dar sentido histórico ao que se celebrava ali, por que, afinal, este momento parecia tão carregado de emoção e alívio?
Chiquinho respondeu com maturidade e com um tom que, para muitos, soa como recado interno ao próprio setor. Ele reconheceu que houve problemas e que a história acumulou capítulos difíceis, mas defendeu que o tempo também ensina a separar o que soma do que só atrasa. Disse que aprendeu, inclusive na experiência como presidente da APAC, a absorver o que é bom e a reconhecer que, no saldo, cada gestão deixou alguma contribuição. A fala apontou para uma virada de postura, menos disputa de vaidade e mais compromisso com resultado.
A partir daí, ele conectou a nova sede a uma missão mais ampla, motivar e formar uma nova geração de confeccionistas. O vice-presidente afirmou que a confecção tem papel social importante na cidade e que é preciso estimular jovens, inclusive universitários, a enxergarem o setor como caminho real de empreendedorismo. Para ele, o prédio e o auditório podem se tornar um centro de treinamento, um espaço de contato com novas tecnologias, uma base para cursos e palestras, e um ponto de partida para o que chamou de “nova onda” de jovens empresários da moda.
O jornalista então deslocou o diálogo para uma questão prática, que persegue quem empreende no setor em 2026. Como crescer num mercado em que a internet mudou o comportamento do comprador, empurrou marcas para o e-commerce e tornou a competição mais agressiva? A pergunta veio com lógica jornalística de serviço, ao mesmo tempo em que aproveitou o capital simbólico do entrevistado. Chiquinho carrega uma longa trajetória na confecção e é ligado a uma das marcas mais antigas do segmento local. Ou seja, se alguém pode aconselhar quem está começando, é quem já atravessou várias fases do mercado.
A resposta dele foi direta e virou quase um lema. Foco e resiliência. Primeiro no produto, depois na forma de vender. Chiquinho explicou que o empreendedor precisa decidir se vai trabalhar moda como conceito ou produto com eficiência de processo, e, a partir daí, ser muito bom no que escolheu. Na visão dele, não existe espaço sustentável para quem tenta ser “um pouco de tudo” sem excelência em nada.
Na comercialização, ele foi realista ao tratar da internet. Disse que ignorar o e-commerce é difícil, mas conquistar espaço nele exige dedicação, investimento e constância. E, para quem sonha com retorno rápido, ele fez a provocação que costuma separar o entusiasmo de início de jornada da disposição para construir algo duradouro. Ele comparou com o próprio trabalho do jornalista, reforçando que negócio fácil não existe e que o resultado vem quando a pessoa se mantém firme, mesmo com pressão.
O tom ficou ainda mais contundente quando ele ampliou a análise para o cenário econômico nacional. Chiquinho citou juros em 15% como um peso que estrangula investimentos no longo prazo, porque quem precisa de crédito encontra custo alto e trava expansão. Ao mesmo tempo, apontou que, mesmo em ambiente difícil, sempre há empresas abrindo e tendo sucesso, enquanto outras fecham. O divisor, segundo ele, está em fazer diferente no meio da multidão, e voltar ao básico, foco e resiliência.
No encerramento da entrevista, o ambiente descontraído do evento também apareceu na fala, e a brincadeira serviu como retrato de um setor que, apesar das pancadas, ainda mantém o senso de comunidade. Chiquinho agradeceu ao jornalista e soltou uma provocação bem-humorada, em clima de bastidor, que arrancou risos e deixou no ar uma mensagem mais séria, quem aguenta décadas de trabalho é quem aprende a não se destruir por dentro. “O Geraldo está com 74 anos. Ele não fica velho porque ele não sofre raiva, ele faz raiva nos outros.” E completou com afeto ao citar a família e mandar abraço.
No fim, a entrevista improvisada à beira do palco entregou o que uma solenidade raramente consegue sozinha. Um fio narrativo que conecta passado, presente e futuro. O terreno que viveu idas e vindas, agora ganha um rito de recomeço. A confecção, que já foi locomotiva econômica e segue como base social de empregos e renda, tenta reposicionar sua imagem. E a cidade, que muitas vezes se divide por detalhes, viu ontem um gesto de convergência com impacto prático, um projeto que pretende receber, formar, capacitar e impulsionar. Se a nova sede vai cumprir tudo o que promete, o tempo mostrará. Mas a cena de ontem já cravou uma evidência. O polo não quer ser lembrança. Quer ser plano.






