O Brasil amanheceu em luto nesta segunda-feira (3) com a notícia da morte de Lô Borges, aos 73 anos, em Belo Horizonte. Um dos fundadores do Clube da Esquina, Lô não apenas ajudou a redefinir a música brasileira, mas também eternizou um ponto da capital mineira: o cruzamento das ruas Divinópolis e Paraisópolis, no bairro Santa Tereza.
Essa esquina, simples aos olhos desatentos, é um verdadeiro marco cultural. Foi ali que, nos anos 1970, jovens músicos se reuniam para tocar violão, compor e sonhar com um Brasil mais poético. Aquele encontro de calçadas deu origem a um dos movimentos mais criativos da história da MPB, símbolo de liberdade, amizade e experimentação musical.
De uma esquina mineira para o mundo
O Clube da Esquina revelou nomes que marcariam gerações, como Milton Nascimento, Beto Guedes, Fernando Brant e o próprio Lô Borges — cuja genialidade transformou sons regionais em música universal. A obra-prima Clube da Esquina (1972), feita em parceria com Milton, trouxe canções como “O Trem Azul”, “Paisagem da Janela” e “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, melodias que misturam Minas, jazz, rock e espiritualidade.
A força simbólica da esquina Divinópolis-Paraisópolis
A localização que inspirou o nome do grupo também conecta duas realidades: Divinópolis, cidade do Centro-Oeste mineiro que empresta seu nome a uma das ruas, e Paraisópolis também um município do Sul de Minas, embora exista um bairro popular de São Paulo, com o mesmo nome. A junção dos nomes — Divinópolis e Paraisópolis, representa o encontro de mundos, de vozes e de sons. É o retrato da alma brasileira: simples, plural e profunda.
Hoje, a esquina de Santa Tereza é ponto turístico e local de peregrinação para fãs da boa música. O muro grafitado, o violão pintado e o clima boêmio guardam viva a memória do movimento que elevou Minas ao mapa mundial da arte.
Luto e legado
A morte de Lô Borges encerra um capítulo da história musical do país, mas também reafirma a eternidade de sua obra. Artistas e fãs em todo o Brasil lamentam a perda de um criador que fez da delicadeza e da melodia um modo de existir.
Lô transformou sua cidade, sua esquina e sua geração em música. E, mesmo ausente, continuará ecoando em cada acorde que nasce da terra mineira, onde duas ruas se cruzam para lembrar que a arte é, acima de tudo, encontro.






