O governador Romeu Zema (Novo) está prestes a dar o passo mais ousado de sua trajetória política: anunciar sua pré-candidatura à Presidência da República. Mas o que chama atenção não é o anúncio em si esperado desde o início do segundo mandato e sim o local escolhido para esse lançamento, em São Paulo, e não Minas Gerais, seu estado natal.
Zema é natural de Araxá, interior de Minas, e comanda o segundo maior colégio eleitoral do país. Mas optou por apresentar sua pré-campanha no coração do Sudeste paulista, em um evento marcado para o dia 16 de agosto. A movimentação deixou no ar uma pergunta inquietante: por que não Minas?
São Paulo como trampolim
A justificativa oficial é simples, visibilidade. São Paulo concentra a imprensa, o mercado financeiro, a elite política e empresarial, e uma imensa fatia do eleitorado brasileiro. Lançar a pré-candidatura por lá pode catapultar o nome de Zema a um novo patamar nacional.
Mas há quem veja mais do que estratégia nisso. Internamente, a decisão tem causado desconforto entre aliados em Minas, que esperavam um gesto de reconhecimento ao Estado que lhe deu duas vitórias nas urnas. O sentimento de desprestígio é real e crescente.
Recado ou ensaio para ser vice?
Fontes nos bastidores da política mineira não descartam outro cenário: Zema poderia estar se lançando à Presidência apenas para, no momento certo, recuar e compor como vice de Tarcísio de Freitas (Republicanos). Nesse caso, o lançamento em solo paulista teria menos a ver com Minas e mais com a necessidade de se manter no radar da direita nacional.
Como não existe formalmente “lançamento de candidatura a vice”, a jogada seria essa mesma: aparecer como cabeça de chapa para negociar nos bastidores uma aliança mais vantajosa.
Silêncio em Minas, ruído na base
A ausência de um palanque mineiro nesse momento simbólico é vista por muitos como um silêncio barulhento. Minas é o segundo maior colégio eleitoral do país, com histórico decisivo em eleições presidenciais. Desde 1989, quem venceu em Minas, venceu no Brasil.
E por isso, a escolha de Zema pode ser lida também como um recado indireto: sua lealdade hoje está voltada a outro eixo político.
Aposta arriscada?
Zema vem tentando se projetar como o nome da direita “liberal” e “racional”, em contraponto ao bolsonarismo mais radical. Mas ao lançar sua pré-campanha longe de casa, pode estar dando um tiro no pé. Afinal, como conquistar o país se parece estar desconectado da própria origem?
A política mineira é feita de símbolos — e o gesto de ignorar Minas no momento de maior visibilidade pode ter custo alto. A pergunta que fica: Zema acredita que já venceu em casa e agora precisa correr atrás fora? Ou está, aos poucos, se afastando do que Minas representa?
O preço da ambição
O governador mineiro tenta nacionalizar sua imagem, ao estilo Dória e Aécio em outros tempos. Mas Minas não costuma perdoar quando seus filhos viram as costas. Lançar a pré-campanha fora do Estado pode até render manchetes, mas também pode custar a confiança de quem o colocou onde está.
Zema tem o direito de almejar voos mais altos. Resta saber se, ao abrir as asas em direção ao Planalto, não esquecerá as raízes em Araxá.






