Em entrevista ao Jornal Nacional, o presidente Lula criticou duramente a tentativa de ingerência de Donald Trump sobre o Judiciário brasileiro e deixou claro que o país responderá com tarifas equivalentes se não houver acordo. Lula associou as ameaças econômicas ao fortalecimento do BRICS e a possível desdolarização global, além de denunciar a hipocrisia de Trump em defender liberdades no Brasil enquanto persegue opositores nos EUA.
A entrevista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Jornal Nacional ontem, quinta-feira (10) revelou mais do que uma simples reação a tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros. Foi um duro posicionamento contra a tentativa de interferência direta do ex-presidente norte-americano Donald Trump nos rumos da Justiça brasileira e, de quebra, uma crítica ao que Lula classificou como “devaneio autoritário” e “mentiras descaradas” da maior potência econômica do mundo.
Trump divulgou em seu site pessoal uma carta em que ameaça elevar em 50% as tarifas sobre exportações brasileiras, supostamente como resposta à condução do julgamento de Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal. Lula rebateu com veemência: “É inaceitável que um presidente de outro país tente interferir no Judiciário brasileiro”, afirmou.
O presidente brasileiro não poupou críticas à postura do republicano: “Ele está mal informado. O déficit é dos Estados Unidos com o Brasil, não o contrário”, disparou. Segundo Lula, nos últimos 15 anos, os EUA acumularam superávit de R$ 410 bilhões nas trocas comerciais com o Brasil.
BRICS, dólar e a névoa da chantagem
Apesar de Trump citar como justificativa o julgamento de Bolsonaro e a regulação de redes sociais, Lula deixou implícito o verdadeiro incômodo da Casa Branca: o fortalecimento dos BRICS e os avanços concretos na discussão sobre uma nova moeda de referência para o comércio global.
O Brasil, ao lado de países como a Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã, além de outros que são considerados parceiros, Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Tailândia, Uganda e Uzbequistão, o Brasil tem se posicionado favoravelmente à desdolarização. “Nós não precisamos do dólar para fazer comércio exterior”, disse Lula, indicando que os Estados Unidos temem perder o monopólio da moeda nas transações internacionais. A recente cúpula do BRICS e as declarações de Lula sobre independência econômica e soberania reforçaram essa tensão.
Resposta à altura: “Vamos aplicar a reciprocidade”
Questionado sobre como o Brasil reagirá, Lula foi direto: “Se não houver solução negociada, vamos aplicar a lei da reciprocidade a partir de 1º de agosto”. Segundo ele, o governo já estuda medidas em conjunto com empresários e deve procurar novos mercados para exportações afetadas.
O presidente também enfatizou que o Brasil não será submisso: “Se algum empresário acha que o Brasil deve ceder em tudo que os EUA querem, sinceramente, esse cidadão não tem nenhum orgulho de ser brasileiro”.
Hipocrisia e duas faces de Trump
Lula denunciou a contradição da postura de Trump, que acusa o Brasil de censura, mas é conhecido por perseguições internas a opositores. “Se ele tivesse feito aqui o que fez no Capitólio, também estaria sendo julgado. Aqui, a lei é para todos.”
Sobre a visita à ex-presidente Cristina Kirchner, Lula respondeu que foi autorizada pela Justiça argentina e classificada como humanitária. “Nunca me meti em decisões da Justiça americana. Espero o mesmo respeito em relação ao Brasil.”
Sobre Bolsonaro
Ele rebateu a ideia de que o Brasil estivesse promovendo perseguição política, lembrando que é o Judiciário e não o Executivo quem conduz as investigações e julgamentos. Segundo Lula, “a lei vale para todos”, e o processo contra Bolsonaro segue os trâmites normais da Justiça brasileira.
Lula também ironizou a suposta defesa da liberdade de expressão feita por Trump e Bolsonaro, dizendo que, nos Estados Unidos, o próprio Trump persegue opositores e jornalistas, enquanto no Brasil tenta posar de defensor de liberdades, uma incoerência flagrante, segundo o presidente.
Em resumo, Lula deixou claro que, não vai interferir no Judiciário para proteger Bolsonaro; Bolsonaro responde por atos graves e, se condenado, será punido conforme a lei; As ameaças de Trump em nome de Bolsonaro não intimidam o Brasil.
Diferente do comportamento explosivo do ex-presidente americano, Lula reafirmou que o Brasil seguirá no caminho do diálogo, mas sem abrir mão de sua soberania. Afirmou que não tem motivos para contatar Trump agora, mas, se for necessário, fará isso. “Educação é bom, e o Brasil quer ser bem tratado.”





