Maria Cecília, conhecida nas redes sociais como ‘Bonequinha Preta’ só tem só sete anos, mas já dá show na roda de capoeira e fora dela também. Campeã mineira de 2025, na categoria infantil feminino, no campeonato ‘Somos Todos Capoeira’, que ocorreu em Belo Horizonte, ainda em março, mas que foi pouco divulgado. Cheia de medalhas no currículo e com muita ginga, ela prova que a arte e o esporte podem transformar a vida das criança, principalmente em época do uso excessivo de celular.
Fato é que, a pequena Maria começou a treinar aos cinco anos, no grupo Patuá Brasil Capoeira Hoje, coleciona medalhas de ouro, prata e bronze, e ainda planeja subir de nível na próxima troca de corda. Com simpatia, contou na entrevista ao editor do Divinews que capoeira, claro, é o seu esporte favorito, mas reforçou que qualquer modalidade de esporte vale a pena. Porque, segundo ela, “esporte deixa a gente forte”.
Em tempos de celular dominando a atenção da meninada, histórias como a da Maria, a ‘Bonequinha Preta’ fazem brilhar os olhos. O esporte ajuda a manter a saúde, fortalece a mente e ocupa o tempo de forma saudável, evitando caminhos arriscados, que rondam muitas as vidas de muitas crianças e adolescentes.
A entrevista também levantou uma curiosidade: será que a capoeira é um esporte olímpico? Ainda não, mas tem potencial. Como explicam professores e estudiosos do tema, a modalidade é praticada em mais de 150 países, respeita valores olímpicos e tem tudo para chegar lá. Só falta padronizar algumas regras e fortalecer sua organização internacional (veja texto ao término )
Enquanto isso, Maria vai sonhando alto. Ela mesma já pensa em se tornar campeã brasileira, e quem sabe até defender o Brasil em uma futura olimpíada de capoeira. Se depender da animação, da coragem e do talento, ninguém duvida que ela chegue longe. E ela ainda faz questão de mandar um recado para outras crianças: “Faz um esporte pra você ficar bem forte”. Mais direto impossível, e vindo de uma campeã, fica até difícil discordar.
A capoeira pode ser olímpica?
Sinônimo de brasilidade, cultura e malandragem a capoeira é encontrada nos mais diversificados espaços da sociedade tais como: academias de ginastica, escolas, companhias de teatro e de shows, teatros, spas, praças, projetos sociais, cruzeiros, universidades e no MMA. Como dizem os capoeiras “deu volta ao mundo” conquistando adeptos em todos cantos, atingindo seu auge com reconhecimento como patrimônio cultural imaterial da humanidade pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura – UNESCO, no ano de 2014. Todavia, existe um espaço que a capoeira ainda não conquistou, os Jogos Olímpicos.
Então, a capoeira pode ser uma modalidade olímpica? Segundo as normas do Comitê Olímpico Internacional – COI, um esporte para ser considerado olímpico deve ser praticado em 75 países para o masculino, e 40 países para o feminino, estando em no mínimo três continentes. Itens básico que a capoeira possui com sobra, sendo praticada em mais de 150 países por homens, mulheres e crianças, presente nos cinco continentes.
Além desses, o esporte precisa ter atratividade dos veículos de comunicação, ter relação com o país sede (oportunidade não conquistada em 2016), acrescentar valor para população, ter apelo com a juventude, igualdade de gênero, ter baixos custos operacionais e regido por uma federação internacional que seja o núcleo da modalidade. Contudo, mesmo cumprindo esses requisitos existe a premissa de que um esporte só pode entrar no programa dos Jogos Olímpicos caso outro saia.
Então, o que pode ser feito? Um recurso seria se organizar melhor tornando-se um esporte mais atrativo e firmando-se como um modalidade competitiva. Neste sentido, houve uma tentativa da Federação Internacional e Capoeira – FICA fundada em 1999 com sede em Atibaia no Estado de São Paulo. A FICA integrava 38 federações nacionais, realizou três fóruns mundiais para discutir parâmetros técnicos, culturais, administrativos, desportivos e educacionais, conseguiu estabelecer um dia mundial para capoeira (05 de julho), mas não está mais em atividade.
Por outro lado, a Federação Internacional de Capoeira – WCF, fundada no 3º Fórum Mundial de Capoeira ocorrido em Baku, no Azerbaijão em 2011, unificou as instituições envolvidas com a capoeira. Com sede na Estônia, seu objetivo é promover a capoeira como esporte mundial, se intitula como o único instituto internacional de capoeira que organiza eventos em todo mundo.
O trabalho da WCF tem permeado ações de organização de campeonatos mundiais com medalhas, eventos de capoeira na Europa, promoção de cursos de capacitação para árbitros internacionais e qualificação em capoeira coaching, ranking próprio por categorias de acordo com peso e gênero, desenvolvimento de regulamentações para campeonatos e arbitragem.
A opção seguida pela WCF está em conduzir a competição da capoeira pelo contexto do seu jogo com habilidade, destreza e ritmo dos participantes, afinal seria um tanto estranho assistir um jogo de capoeira robotizado com jogadores dotados de protetores individuais como no boxe e o taekwondo. Há também a preocupação em não descaracterizar a faceta luta, porém, evitando a violência direta, assim, as rasteiras e golpes desiquilibrantes com técnica estão inclusos e são permitidos.
Entretanto, a capoeira ainda esbarra em seus próprios dilemas. Mesmo com ações dessa natureza ainda não é possível encontrar uniformidade na nomenclatura de golpes e movimentos; nos estilos e formas de jogo; nos toques de berimbau seguidos; na simples maneira de organizar os instrumentos na roda. As graduações são com cordas, cordéis, cordões de diferentes tipos, tamanhos e cores, sem falarmos nos termos usados para classificar os títulos obtidos. As escolas defendem suas próprias bandeiras, realizam competições e festivais internos, há tensões e rivalidades comuns em qualquer luta, contudo, tal conjectura fortalece a individualidade e enfraquece o coletivo.
Não é uma crítica a comunidade da capoeira, mas esta composição foi uma maneira que encontrada para o desenvolvimento da capoeira que aos poucos foi se organizando com escolas, grupos, constituindo entendimentos, normas, tradições diferentes, surgindo mestres, novos discípulos, fazendo com que se tornasse um fenômeno sociocultural que a fizeram chegar aonde está.
Talvez a união entre os capoeiras e uma padronização para solidificar uma esportivização seja um recurso para dar mais sustentabilidade e elegibilidade para a capoeira tornar-se oficialmente um esporte dos jogos olímpicos. (Artigo escrito pelos professores Vicente Ambrósio e Rômulo Reis)






