Uma declaração do presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais (FIEMG), Flávio Roscoe, está gerando indignação em sindicatos, políticos e cidadãos nas redes sociais. Em entrevista concedida ao jornal Folha de São Paulo na semana passada, Roscoe afirmou que “idiota é quem trabalha com carteira assinada”, justificando sua frase com a ideia de que seria mais vantajoso ficar desempregado e receber benefícios sociais do que trabalhar formalmente – No X, ex-Twitter existem posts que o chamam de “dono do Nikolas Ferreira”.
O empresário afirmou que, na sua visão, vale mais a pena para o trabalhador permanecer 20 anos recebendo o Bolsa Família e se aposentar aos 45 anos, do que trabalhar os mesmos 20 anos com carteira assinada e garantir aposentadoria oficial. Segundo ele, o sistema da CLT gera apenas falsas expectativas e prejudica a competitividade das indústrias.
A fala estapafúrdia de Roscoe repercutiu imediatamente e foi comparada à opinião do empresário Ricardo Faria, conhecido como “Rei do Ovo”, que dias antes havia reclamado de dificuldades para contratar pessoas por causa do Bolsa Família. Na mesma linha, Roscoe responsabilizou o governo federal pela suposta “falta de mão de obra” na indústria mineira, ignorando os baixos salários e condições precárias que afastam trabalhadores qualificados de muitos setores fabris.
A entrevista publicada pela Folha (link abaixo) rapidamente viralizou no X (antigo Twitter), onde Roscoe passou a ser chamado por ativistas de “patrão arrogante” e até de “dono do deputado Nikolas Ferreira”, insinuando que o jovem deputado mineiro seria manipulado pelas elites empresariais de perfil ultraliberal, nas quais Roscoe se enquadra.
No campo político, a fala do presidente da FIEMG provocou reações pesadas de parlamentares de centro e da esquerda, que classificaram as declarações como um ataque frontal ao trabalhador brasileiro e à dignidade de quem constrói o país com suor e dedicação. Lideranças sindicais também apontaram que essa mentalidade expõe o real objetivo de parte do empresariado: precarizar ainda mais os direitos trabalhistas e legitimar jornadas informais sem segurança mínima para o trabalhador.
Em nota, centrais sindicais criticaram o tom de desprezo e classificaram a frase como “absolutamente ofensiva”. Para a CUT-MG, Roscoe desrespeita não só a classe trabalhadora, mas a história da Consolidação das Leis do Trabalho, que garante direitos conquistados a duras penas desde a década de 1940.
Roscoe, que em outras ocasiões já defendeu a extinção de encargos trabalhistas e maior flexibilização da legislação, parece reforçar a agenda de um setor empresarial que enxerga a proteção trabalhista como inimiga dos lucros. Sua visão, no entanto, contrasta com os dados do próprio mercado de trabalho, que mostram que trabalhadores formais ainda representam a base de arrecadação do INSS e sustentam grande parte da economia local, especialmente no interior mineiro.
As falas do presidente da FIEMG podem aprofundar o desgaste de sua imagem, principalmente entre trabalhadores da indústria que, em sua maioria, dependem justamente da carteira assinada para garantir dignidade, benefícios e aposentadoria.
Entrevista para a Folha
Flávio Roscoe comanda a Fiemg, a federação das indústrias de Minas Gerais. Ele diz que, apesar de o estado ter sido decisivo para a eleição de Lula, em 2022, hoje há chances de vitória para um candidato de direita. Isso porque, na sua avaliação, o governo concentrou-se em medidas populistas em vez de atacar problemas estruturais.
Na indústria, falta mão de obra por culpa do governo. Para ele, há mais vantagens em ficar desempregado por vinte anos, preso ao Bolsa Família, para aposentar-se aos 45 anos, do que trabalhar 20 anos com carteira assinada e se aposentar.
Minas Gerais definiu a eleição de Lula. No cenário atual, esse apoio tende a ser mantido?
Prever a eleição é uma ficção científica. Falta um ano e muita coisa pode acontecer. Depende também do candidato que vai contra [Lula]. Mas eu diria que a propensão à vitória hoje é menor do que foi no passado.
Hoje a popularidade está menor e o grande problema do governo é o cenário econômico.
Não é a polarização?
Há uma percepção clara de deterioração macroeconômica. Por que o Congresso se rebelou agora com o IOF? Porque todo dia o governo apresenta uma conta nova para a sociedade sem ter feito o seu “para casa” [dever escolar]. Não dá para ficar jogando para a sociedade e, consequentemente, para o Congresso um novo imposto [o IOF] quando estamos batendo recorde de arrecadação. Deputado não foi eleito para ficar criando imposto de três em três meses.
Mas o governo afirma que as emendas impositivas do Congresso estrangulam o Orçamento. Resta saída?
O governo tem uma política pública equivocada. Não fez a eficiência da máquina pública [reforma administrativa] para compensar e fica criando projetos populistas que custam e precisam de novas fontes de receita.
O senhor mencionou a deterioração macroeconômica. Como explica registrarmos a menor taxa de desemprego recordes de arrecadação?
Esse dado é da perspectiva de quem está procurando emprego. Olhando a população economicamente ativa desocupada, [a taxa] é uma das maiores do mundo. Temos uma grande parte da população apta ao trabalho, mas dependurada em programas sociais, como o Bolsa Família, que não dialogam com o mercado de trabalho. O governo que, em tese, prega a formalização é o maior incentivador da precarização do trabalho.
Como assim?
Temos aí a sensação de pleno emprego, mas as empresas não encontram pessoas para trabalhar . O trabalhador tem a opção de ficar em programa social fazendo bico. Porque ele sabe fazer conta. O brasileiro não é idiota. Ele pensa: “vou ganhar mil e poucos reais do governo, não vou ter vínculo [de trabalho] com ninguém e faço diárias de R$ 200”.
O idiota é quem trabalha com carteira assinada, porque ganha R$ 2 mil, paga imposto, e ainda vai se aposentar com a regra até os 65 anos. O cara que está há 20 anos no programa social se aposenta aos 45 anos. Quem trabalha 20 anos, não se aposenta. Ora, está tudo errado.
Temos aí a sensação de pleno emprego, mas as empresas não encontram pessoas para trabalhar. O percentual da população desocupada é enorme e muito maior que a do restante dos países, porque o incentivo que o estado vem dando é “não faça nada, fique em casa”. No Bolsa Família, 40% das pessoas são perfeitamente aptas a trabalhar.
Na França, que tem programas sociais fortes, se um desocupado inscrito em banco de trabalho recebe três ofertas de emprego e nega, perde o benefício.
O senhor defende, por exemplo, o fim da CLT e a livre negociação?
Não digo acabar, mas reinventar. Como ela está, não cumpre o papel social. Haja vista que existem mais trabalhadores informais do que com carteira assinada. Está claro que temos um problema aí e a gente não vê que ele está endereçado pelo governo.
Tenho boa relação com o ministro do Trabalho. Desde a primeira reunião ele me deu o razão. Não falta diagnóstico. Volto a dizer, não sou contra os programas sociais. Sou contra a maneira como eles hoje se antagonizam com o mercado formal.
sso prejudica mais a indústria?
Alguns setores da economia contratam diaristas. A indústria não consegue. Não posso colocar um cara para operar uma máquina de US$ 1 milhão. A chance de me dar um prejuízo no primeiro dia é enorme. Tem de ser formalizado.
Acha que nomes ligados à direita poderão resolver esse problema?
Há viabilidade para um candidato de direita, mas o que prejudica o cenário é o fato de, a cada dia, a eleição estar mais perto. E isso torna mais difícil qualquer movimento em favor de uma solução para o problema.






