A influenciadora digital e estudante de História Laura Sabino viveu momentos que marcariam sua vida para sempre. Enquanto estudava em seu quarto, foi surpreendida pelo próprio irmão, que a atacou com ao menos nove facadas e ainda tentou incendiá-la viva. O episódio, segundo a vítima, não foi um caso isolado, mas o desfecho de uma longa trajetória de ameaças, machismo, perseguição política e negligência institucional.
Apesar de já ter registrado cinco boletins de ocorrência, estar incluída no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos e contar com uma medida protetiva concedida cinco dias antes do crime, Sabino não conseguiu escapar da violência. Os documentos consultados pela reportagem confirmam que o sistema falhou em proteger a influenciadora.
Com quase um milhão de seguidores e conhecida por seus posicionamentos políticos à esquerda, Laura Sabino publica conteúdos desde 2019. Seus vídeos frequentemente viralizam, como o que rebateu declarações do deputado Nikolas Ferreira sobre o INSS. Ela tem 25 anos e estuda na UFMG, onde seu pai — professor da instituição — também leciona, após décadas na rede pública.

Foto: Laura Sabino fala de história e política há mais de 6 anos, em suas redes sociais e canal no Youtube. – Reprodução/internet
Na véspera do ataque, Laura comprou bolo e suco para receber o pai, recém-chegado de um pós-doutorado em Portugal. Dois dias antes, no entanto, uma fake news publicada por um influenciador de direita viralizou, ligando seu nome a drogas e maus-tratos — acusações que ela nega veementemente. Desde então, passou a receber uma avalanche de mensagens de ódio. Para Sabino, o ataque do irmão está diretamente relacionado à perseguição online.
Não era a primeira vez que sofria violência. Há anos ela denuncia agressões e difamações virtuais, que incluem até a disseminação de vídeos pornográficos falsamente atribuídos a ela. Os alertas às autoridades, no entanto, foram ignorados. Temendo pela própria segurança, passou a viver de forma itinerante entre casas de amigos e parentes.
O irmão, que já havia demonstrado comportamento violento e ofensivo, intensificou os ataques verbais. Em áudios obtidos pela reportagem, ele a xinga, ameaça invadir sua casa e reproduz falas machistas e homofóbicas. Em uma das mensagens, chega a dizer que “alguém podia tanto te matar”.
Mesmo após a concessão de medida protetiva em 10 de março, ele só foi notificado pela Justiça na semana seguinte ao crime. No dia do ataque, o agressor pulou o muro da casa, pegou duas facas da cozinha e a golpeou diversas vezes. “Achei que estava levando socos, até ver o sangue escorrendo”, lembra Sabino. Ela só sobreviveu porque conseguiu correr até o quintal e pedir ajuda.

Foto: Irmão de Laura Sabino a ameaça em conversa por aplicativo de mensagem, após inúmeras tentativas de ligações não atendidas por ela. – Reprodução/Redes sociais
Preso em flagrante, o autor segue detido preventivamente em Belo Horizonte, aguardando julgamento. À polícia, disse que pretendia matar a irmã e se suicidar em seguida, como forma de atingir o pai. Entretanto, mensagens anteriores revelam outro lado: ele esperava herdar bens e dinheiro, afirmando que “não queria trabalhar” e sonhava com “a herança do meu velho”.
O histórico de abandono do tratamento psiquiátrico, somado à deterioração da convivência familiar, agravou o quadro do agressor. A família havia tentado, sem sucesso, interná-lo pelo sistema público.
Sabino cresceu em Ribeirão das Neves, região metropolitana de BH, considerada uma das piores cidades do país para mulheres, segundo o Ipea. Desde jovem, atua em iniciativas contra a violência de gênero, mesmo antes de reconhecer-se como vítima. Após a tentativa de feminicídio, reduziu sua presença pública e sua atuação social, mas segue firme em suas convicções.
Ela só decidiu contar sua história quase três meses após o crime, após voltar a ser alvo de comentários cruéis nas redes. “Preferi falar com um veículo sério antes que a extrema direita distorça os fatos”, disse. Para ela, a violência sofrida escancara o risco real que enfrentam mulheres politicamente engajadas.
Segundo levantamento das organizações Terra de Direitos e Justiça Global, quase metade dos ataques políticos registrados entre 2022 e 2024 foram direcionados a mulheres, muitos dos quais começaram nas redes sociais. O caso de Sabino reforça essa realidade.
Em nota, o Programa de Proteção a Defensores dos Direitos Humanos de Minas Gerais afirmou que sua história evidencia a necessidade urgente de ações concretas para garantir a segurança de ativistas.
A influenciadora e seu pai seguem tentando reconstruir a rotina, enquanto enfrentam o luto e o trauma. “Tem dias mais tranquilos, outros são mais difíceis. Quando deito, tudo volta”, desabafa.
Com informações da Agência Pública – Reportagem Amanda Audi e edição de Mariama Correia






