Cuca e a cultura de impunidade no futebol: O que sua volta ao Atlético-MG revela?

Treinador foi apresentado na manha desta segunda-feira (13), com um histórico controverso que a sociedade prefere esquecer

Publicado por: Redação

Na manhã desta segunda-feira (13), Cuca foi apresentado oficialmente como treinador do Atlético-MG para a temporada de 2025. Esse é o quarto retorno do técnico ao clube, e a empolgação é visível entre os torcedores que lembram das grandes conquistas sob seu comando, como a histórica Libertadores de 2013 e os títulos de Campeonato Brasileiro e Copa do Brasil em 2021. No entanto, por trás do entusiasmo, há uma questão crucial que muitos preferem ignorar: o tratamento dado pelo futebol a figuras como Cuca, que parecem ter permissão para deixar o passado sombrio para trás, sem que se faça uma reflexão mais profunda sobre o que realmente aconteceu.

Logo após a apresentação, Cuca abordou a acusação de estupro que o envolveu em 1987, durante uma excursão do Grêmio à Suíça. Na ocasião, ele e outros jogadores foram acusados de abusar de uma garota de 13 anos. Embora a condenação de Cuca tenha sido anulada em 2024 por falhas no processo judicial, isso não apaga o fato de que ele foi envolvido em um crime grave. Na época, a Justiça da Suíça informou que havia sido encontrado sêmen do técnico no corpo da víima. No entanto, ao falar sobre o caso, Cuca minimizou a situação, tratando-a como um erro comum da juventude e ressaltando que, desde então, “tem trabalhado para ser uma pessoa melhor”. Essa abordagem, porém, levanta um ponto importante: como é possível tratar uma acusação tão séria de forma tão leviana?

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O que se observa é uma tentativa de normalizar um comportamento inaceitável. Ao dizer que cometeu um “erro comum”, Cuca tenta reduzir a gravidade de sua atitude, quando o que ocorreu foi um crime. Mesmo com a anulação da condenação, não podemos esquecer que o que aconteceu foi um abuso. Ao minimizar isso, Cuca segue um padrão preocupante no futebol, onde figuras públicas, especialmente as bem-sucedidas, são muitas vezes tratadas com tolerância, enquanto suas falhas pessoais são ignoradas, como se o sucesso no campo fosse uma desculpa para comportamentos questionáveis fora dele.

Essa “normalização do absurdo” é algo que, infelizmente, se repete no futebol. Cuca não é o único exemplo de como o esporte tende a desconsiderar o que acontece fora das quatro linhas, desde que o ídolo tenha um bom desempenho no campo. É como se as conquistas esportivas de um jogador ou treinador fossem mais importantes do que os valores e os direitos das pessoas. No caso de Cuca, a situação se torna ainda mais desconfortável, pois ele não tem apresentado resultados consistentes nos últimos anos, então a direoria e torcida nem pode se escorar no critério de uma escolha puramente técnica. Após a passagem por outros clubes, como Athletico Paranaense, Cuca não conseguiu replicar o sucesso de seu primeiro ciclo no Atlético-MG. Até mesmo nas últimas passagens pelo Galo, o desempenho não foi dos melhores. Mesmo assim, ele é tratado como uma solução garantida, apenas por causa de um saudosismo pelo passado vitorioso.

O mais angustiante nessa situação, no entanto, é o impacto que esse retorno tem na ala feminina da torcida. Para muitas mulheres que acompanham o futebol, ver um acusado de um crime tão grave sendo recebido com entusiasmo é uma afronta. Como podem se sentir respeitadas em um ambiente que, aparentemente, dá mais valor ao sucesso esportivo do que à dignidade e aos direitos das mulheres? A normalização de comportamentos como os de Cuca passa a enviar uma mensagem muito perigosa: a de que o que importa é o que acontece dentro de campo, e que o comportamento moral e ético de um ídolo pode ser deixado de lado, desde que ele tenha um (suposto) bom desempenho como treinador ou jogador.

A volta de Cuca ao Atlético-MG é um reflexo de como a sociedade, muitas vezes, prefere ignorar o que está errado, em nome de uma visão distorcida de sucesso. Para muitas mulheres, essa “normalização” é um golpe profundo, e o futebol – sendo uma poderosa ferramenta de influência – tem a responsabilidade de ser um reflexo dos valores que queremos ver na sociedade. E isso inclui tratar com seriedade e responsabilidade comportamentos que são inaceitáveis, não importa o quão grande seja a memória do ídolo. A ética, o respeito e a justiça precisam ser tão importantes quanto os títulos.

No final, toda esta situação nos faz repensar o que estamos dispostos a aceitar em nome do sucesso esportivo. O futebol não pode continuar a proteger ou minimizar figuras que cometeram atos graves, simplesmente porque são “bons” no que fazem. Para que o esporte realmente evolua e se torne mais inclusivo, é preciso que olhemos além das vitórias e questionemos os valores que ele transmite. O que está em jogo não são apenas conquistas dentro de campo, mas a construção de um ambiente pautado pelo respeito, justiça e igualdade e, enquanto não houver uma reflexão genuína sobre esses princípios, o futebol continuará a falhar não apenas como esporte, mas também como um reflexo da sociedade que queremos construir.

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