O escritor e pesquisador da história de Divinópolis, Flávio Ramos, fez uma revelação surpreendente durante uma live transmitida pelo Divinews na noite de quinta-feira. Ele destacou que o nome “Itapecerica”, cuja tradução do tupi-guarani é “lugar de pedra escorregadia junto à água” ou “caminho de pedras lisas na água” (Ita: pedra; Pe: caminho ou lugar; Y: água; Cerica: escorregadio, liso), foi originalmente atribuído à região de Divinópolis entre os anos de 1744 e 1882.
No entanto, em 19 de outubro de 1882, no século XIX, a Lei nº 2.995 alterou o nome da cidade de São Bento do Tamanduá para Itapecerica, sem o conhecimento dos moradores da então localidade conhecida como Arraial do Espírito Santo da Itapecerica (atual Divinópolis). Com isso, o arraial perdeu a designação “Itapecerica” e ficou apenas com o nome “Arraial do Espírito Santo”.
Anos mais tarde, Antônio Olímpio de Morais se inspiraria na denominação “Arraial do Espírito Santo, para propor a denominação do recém-emancipado município. Após a emancipação político-administrativa, Antônio Olímpio sugeriu à primeira Câmara Municipal que o município fosse chamado de “Divinópolis” (cidade do Divino), nome que permanece até os dias de hoje.
Durante a live ao Divinews, o escritor Flávio Ramos, autor do prestigiado romance histórico “Perfume de Sangue” – A disputa pelo crânio de Tiradentes”, demonstrou através de documentos e mapas cartográficos do século XVII e XVIII, que o local onde hoje está localizada a ponte do bairro Niterói e pontilhão da Rede que serve de paisagem recorrente para identificar o rio Itapecerica, era conhecido desde 1744 por “Passagem da Itapecerica”. O ponto servia de marco divisório de Pitangui.
Ramos contou que Divinópolis era ocupada em 1767 por cerca de 50 famílias moradoras do sertão dos rios Itapecerica e Pará, lideradas pelo fazendeiro João Pimenta Ferreira que, em 13 de janeiro daquele ano, apresenta uma Súplica ao Bispado de Mariana pedindo para construir a capela ao Divino Espírito Santo e São Francisco de Paula. O local, naquela época, recebeu o nome de “Paragem do Espírito Santo da Itapecerica.” Neste mesmo ano de 1767, o reverendo Gaspar Álvares Gondim, da Matriz de São Bento do Tamanduá (atual Itapecerica), institui a Capela do Espírito Santo e São Francisco de Paula na “Paragem do Espírito Santo da Itapecerica” (atual Divinópolis) atendendo ao pleito de João Pimenta Ferreira.
A “Passagem do Espírito Santo da Itapecerica”, destacou o pesquisador da história Flávio Ramos, praticamente ganha status de arraial em 24 de março de 1770 quando o sertanista Manoel Fernandes Teixeira fez uma doação de 40 alqueires de terras à igreja, destinadas a povoação.
A primeira vez que Divinópolis aparece num mapa foi em 1784 no “Mappa da Conquista do Mestre de Campo Regente Chefe da Legião, Ignacio Correya Pamplona”. Uma cópia do mapa encontra-se no Arquivo Histórico Ultramarino em Lisboa, Portugal. A Passagem da Itapecerica aparece no mapa com o nome de Itapecerica (atual Divinópolis).
Outro mapa que identifica a atual Divinópolis como sendo, naquela época, a localidade conhecida como “Itapecerica”, é a Planta Geral da Capitania de Minas Gerais, carta de 1800, arquivada na Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro. Este mapa mostra as duas localidades distintas: Tamanduá (atual Itapecerica) e Itapecerica (atual Divinópolis).
Flávio Ramos, que também é membro da Academia Divinopolitana de Letras e também ocupa uma Cadeira na Academia de Letras de São João del-Rei, atualmente exercendo a Presidência da Associação das Academias de Letras de Minas Gerais – Asalemg, com estreita ligação com a Academia Mineira de Letras – AML, na live ao Divinews, apresentou a seguinte sequência histórica dos acontecimentos que fizeram com que São Bento do Tamanduá tomasse para si o nome de Itapecerica que antes pertencia ao “Arraial do Espírito Santo da Itapecerica” (atual Divinópolis):
“Em 1839 é criado o “Distrito do Espírito Santo do Itapecerica” pela Lei Provincial de nº 138 de 03 de abril daquele ano.
Em 04 de outubro de 1862, pela Lei n°1.148, aprovada pela Assembleia Legislativa da Província de Minas Gerais, a denominação de Vila de São Bento do Tamanduá foi mudada para cidade, continuando o nome, São Bento do Tamanduá.
Em 19 de outubro de 1882, por meio da Lei nº 2.995, a cidade de São Bento do Tamanduá teve seu nome alterado para Itapecerica. Durante esse processo, a localidade anteriormente conhecida como “Arraial do Espírito Santo da Itapecerica” passou a ser chamada simplesmente de “Arraial do Espírito Santo”.”
O escritor Flávio Ramos aproveitou a live do Divinews para contar como se deu a sequência das denominações até se chegar ao momento que definiu-se por batizar o nosso município com o nome que leva até hoje: “Em 30 de abril de 1890, sob a administração do presidente estadual João Pinheiro da Silva, Divinópolis teve inaugurada a Estação Ferroviária que lhe deu grande impulso civilizatório, criando condições para a emancipação. Em 30 de agosto de 1911, o governador Júlio Bueno Brandão promulgou a Lei Provincial nº 556, elevando o distrito do Espírito Santo à categoria de Vila Henrique Galvão, incluindo-o no rol dos municípios emancipados. Esse marco foi o resultado da luta incansável do farmacêutico Pedro X. Gontijo, que, junto ao padre Matias Lobato, ao advogado Francisco Ribeiro de Carvalho, ao comerciante Antônio Olímpio de Moraes e ao Francisco Machado Gontijo, conhecido como “o Patriarca”, dedicou- se à conquista da autonomia de nossa localidade.”
Flávio Ramos levanta uma polêmica adicional à história de Divinópolis ao defender a necessidade de uma nova abordagem por parte das autoridades, da imprensa e dos historiadores sobre a data de 1º de junho, atualmente celebrada como o marco da emancipação político-administrativa da cidade. Segundo ele, com base em uma legislação recentemente descoberta, mas até então ignorada, “a emancipação de Divinópolis ocorreu um ano antes, em 30 de agosto de 1911, conforme a Lei Provincial nº 556, desmembrando-o de Itapecerica. Essa lei, além de alterar o nome da localidade, incluiu a Vila Henrique Galvão (atual Divinópolis) entre os municípios emancipados. O evento de 1º de junho de 1912 marcou, na verdade, a instalação do município com a posse da primeira Câmara Municipal da Vila de Henrique Galvão, presidida por Antônio Olímpio de Moraes”.
Um debate intenso marcou a escolha do nome da cidade recém-criada. Diversas sugestões foram apresentadas, e os vereadores submeteram a Antônio Olímpio de Moraes três opções: Alexandria, Palmeiras e Cachoeira de Ouro. No entanto, devido à falta de consenso entre os parlamentares, o então presidente da Câmara e também prefeito, Antônio Olímpio de Moraes, rejeitou as propostas e sugeriu um novo nome, que foi aceito por unanimidade: Divinópolis (Cidade do Divino), inspirado na denominação que acompanhou a localidade desde 1744. Três meses após a instalação do novo município, em 3 de setembro de 1912, o governo do estado promulgou a Lei nº 590, que oficializou a mudança do nome da localidade de Vila Henrique Galvão para Vila Divinópolis.
No dia 18 de setembro de 1915, o governador Delfim Moreira elevou o município à condição de cidade, e em 7 de setembro de 1923, há 102 anos, pela Lei Estadual nº 843, do governador de Minas Gerais, Raul Soares, anexa o território do distrito de Ermida de Campos ao município de Divinópolis, perfazendo o atual contorno territorial.”
Flávio Ramos destacou que muitas dessas legislações que eram desconhecidas e foram descobertas por outro pesquisador da história de Divinópolis e região centro-oeste, o seu xará Flávio Flora, a quem ele sempre recorre para a confirmação de informação.







Muito importante esse documentário.
Olá. O Flávio Ramos esqueceu-se de dizer que esses dados e informações que ele se apropria, anteriormente, foram pesquisados e narrados pelo historiador Flávio Flora, cujos trabalhos foram publicados pela revista A Prova, entre os anos de 1989 e 2002. Flávio Ramos repete uma historia que contei a ele, e que faz parte de uma nova edição da revista A Prova, que está para ser lançada.
É lamentável essa atitude de desrespeito para com o trabalho de pesquisa que realizei em fontes primárias para a Câmara Municipal, nos 17 anos que trabalhei naquela Casa, e que agora ele mostra de maneira sensacionalista, sem creditar o verdadeiro autor dessas descobertas.