Na última sexta-feira (6), diversas mulheres relataram serem vítimas de violência sexual cometida pelo ex padre Bernardino Batista dos Santos, durante uma audiência pública da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Elas pediram reparação e o fim da impunidade para esses casos e outros semelhantes.
O ex padre, de 77 anos, teve a prisão preventiva decretada em 23 de outubro, mas foi solto em 28 de novembro, pouco mais de um mês após a detenção. Atualmente, ele usa tornozeleira eletrônica e está sendo monitorado em casa.
A denúncia que levou à abertura do inquérito policial refere-se a um abuso cometido em 2016 contra uma menina de quatro anos em Tiros, no Alto Paranaíba. No entanto, há muitas outras denúncias de violência sexual contra o ex pároco em Tiros e Belo Horizonte, conforme destacou a advogada Ana Carolina Campos, que representa mais de 60 mulheres vítimas de Bernardino Batista dos Santos. Os abusos começaram em 1975 e o último registrado ocorreu em 2016.
“São décadas de casos e denúncias de violência contra mulheres. Muitos foram levados ao conhecimento da Arquidiocese de Belo Horizonte, que nada fez”, afirmou Ana Carolina Campos. Representantes da arquidiocese foram convidados para a audiência, mas não compareceram.
Relatos emocionantes
As mulheres, hoje adultas, compartilharam histórias emocionantes de violência traumática cometida por alguém em quem suas famílias confiavam. Os abusos ocorreram na Paróquia Nossa Senhora Medianeira e Santa Luzia, no Bairro Paraíso, em Belo Horizonte, onde Bernardino foi pároco por cerca de 30 anos, e em Tiros, onde ele tinha um sítio e levava crianças para excursões.
A advogada Marcia Gonçalves relatou que sofreu abusos no final dos anos 70 e início dos anos 80. “Ele conquistava a confiança das famílias e se infiltrava nos lares. Participava dos almoços de domingo nas casas. Era uma presença constante”, disse.
Fernanda Azevedo, engenheira ambiental, contou que foi abusada em 2000, aos nove anos. “Ele celebrou o casamento dos meus pais e meu Batismo e Primeira Comunhão. Eu só pensava por que ele fez isso comigo”, relatou.
Carolina Rocha de Freitas, também advogada, foi abusada aos oito anos. “Sempre frequentei a paróquia, onde fiz a Primeira Comunhão. Continuamos sendo vítimas, pois a Arquidiocese de Belo Horizonte não nos dá respostas”, afirmou.
Impacto duradouro
A professora de história Aline Moreira relatou que foi abusada em 1987, aos nove anos, quando era coroinha. “A sensação é que, por sermos mulheres, o crime parece ser menor. Eu era uma criança e não sabia o que era sexualidade”, disse.
Outras vítimas, como a empresária Cibele Itaboray Frade e Ana Paula Costa, também compartilharam suas experiências traumáticas. Ana Paula, abusada aos 11 anos, disse que a violência afetou seus relacionamentos e a fez perder a fé. “Esse monstro atrapalhou minha relação com Deus”, desabafou.
Importância da denúncia
Ana Carolina Campos destacou que muitos crimes já prescreveram, mas que continua trabalhando no direito civil para buscar indenizações. “É importante que as vítimas se juntem ao grupo para proteção”, afirmou.
Deputadas manifestam apoio e cobram justiça
A deputada Bella Gonçalves (Psol), que solicitou a audiência, enfatizou a busca por justiça. “Mulheres vitimadas há décadas falaram pela primeira vez em um espaço institucional sobre a violência que viveram”, disse.
A deputada Ana Paula Siqueira (Rede), presidente da comissão, ressaltou o impacto duradouro dos casos. “O espaço religioso deveria ser seguro, assim como nossos lares. É necessário que a justiça seja feita”, defendeu.
Rigor na punição
A delegada Danúbia Soares, chefe da Divisão Especializada em Atendimento à Mulher, ao Idoso e à Pessoa com Deficiência e Vítimas de Intolerância, criticou a conversão da prisão do ex padre em medidas alternativas. “A prisão deveria ser a regra nesse tipo de caso. O mínimo que essas mulheres merecem é que ele encerre a vida na cadeia”, afirmou.
Danúbia Soares defendeu mudanças legislativas para aumentar o tempo de prescrição de crimes sexuais, permitindo que mais casos sejam investigados e punidos.






