Paredão Contábil elimina a Americanas do BBB23, em seu lugar entra o Mercado Livre; entenda a eliminação


Após a revelação do rombo contábil, a Americanas abandonou o patrocínio do BBB23 – Ela era uma das três marcas que pagaram pela cota mais cara de patrocínio do programa, a chamada “cota Big” – O que levou a Americanas para o paredão e posterior eliminação” foi a inconsistência encontrada em seu balanço, com um buraco de R$ 20 bilhões no caixa da empresa – Com isso, logo, o Mercado Livre se dispôs a ocupar a vaga pagando o valor de tabela do patrocínio, que é de R$ 105,1 milhão. 

Em nota, a Americanas enviou o seguinte comunicado para o mercado:  “A Americanas S.A. informa que cancelou sua participação no BBB23. Neste momento, a companhia está focada na gestão do negócio e no propósito de oferecer a melhor experiência a seus clientes, parceiros e fornecedores. A TV Globo segue como relevante parceira na estratégia de marketing e comunicação da Americanas S.A.”

ENTENDA O QUE ACONTECEU COM A AMERICANAS 

A Americanas surpreendeu o mercado após revelar que tinha cerca de US$ 20 bilhões em dívidas não registradas em seu balanço.

A identificação das chamadas “inconsistências contábeis”, segundo a própria empresa, pode acarretar no vencimento antecipado e imediato de dívidas em montante aproximado de R$ 40 bilhões.

O rombo gerou um choque entre investidores da companhia pela sua magnitude. A quantia é relevante principalmente se considerar o patrimônio líquido, de cerca de R$ 14,7 bilhões em setembro de 2022

Com isso, as ações da Americanas chegaram a cair 77% em um único dia, perdendo o equivalente a R$ 8,4 bilhões em valor de mercado.

A origem do rombo está em um tipo de operação que é comum no varejo, chamada de “adiantamento a fornecedores”, ou “forfait”. No entanto, ainda é incerto a maneira como essa operação entrou no balanço financeiro de forma inadequada (ou se ela deixou de entrar).

COMO O ROMBO DA AMERICANAS FOI DESCOBERTO

A crise envolvendo a Americanas teve início na quarta-feira (11), após comunicado de que o CEO Sergio Rial renunciava ao comando da empresa apenas dez dias após assumir o cargo.

Junto com Rial, saiu também André Covre, diretor de relações com investidores.

Ainda não se sabe como os executivos identificaram em tão pouco tempo o problema. Tampouco está claro desde quando ocorre tal conduta contábil na varejista.

Em conversa com investidores, o agora ex-CEO disse que operações de “risco sacado”, quando uma empresa contrata um banco para realizar a antecipação de recebíveis a fornecedor, foram registradas incorretamente por anos.

Especialistas consultados pelo jornal paulista Folha disseram ser improvável que um rombo desse tamanho tenha passado despercebido. O próprio Rial havia indicado que este assunto já deveria ser de conhecimento da gestão anterior.

QUAL A CONSEQUÊNCIA DE UM ROMBO DE R$ 20 BILHÕES

Além do dano na imagem, um escândalo contábil como esse traz problemas financeiros para a companhia. Um dos principais é o acesso a crédito.

Agências de classificação de risco, como Fitch e S&P, rebaixaram as notas de crédito da Americanas após a revelação das inconsistências contábeis.

Além disso, a XP Investimentos calculou como deve ficar o endividamento da Americanas caso os R$ 20 bilhões sejam reconhecidos de uma só vez no balanço.

Segundo os analistas, a dívida líquida subiria dos R$ 5,3 bilhões ao final de setembro de 2022 para R$ 25,3 bilhões. Neste caso, a relação entre dívida líquida e Ebitda (resultado operacional) da Americanas passaria de 1,7 vez para 8 vezes.

Na prática, essa informação mostra ao mercado a capacidade de pagamento das dívidas por uma empresa. Por isso, é comum que contratos de crédito tenham cláusulas que limitem esse nível de endividamento, para proteger os credores.

Ao ultrapassar o limite, os credores da Americanas podem, por exemplo, pedir antecipação do vencimento das dívidas.

A AMERICANAS PODE SER PUNIDA

No Brasil, assim como em outros países, as empresas de capital aberto precisam informar ao mercado como estão suas finanças. Tal processo possui regras e companhias que falsificam dados ou declarar valores diferentes dos verdadeiros podem sofrer processos em várias instâncias.

Na esfera tributária, por exemplo, uma companhia pode ser cobrada por impostos que deixou de pagar ao declarar um faturamento menor. No âmbito civil, pode ser processada por investidores que perderam dinheiro por causa do erro.

Credores também podem alegar na Justiça que foram enganados e cobrar indenizações.

Cabe às autoridades do mercado financeiro, como a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) investigar e punir eventual má conduta.

No caso da Americanas, o órgão já abriu pelo menos dois processos após a revelação do caso na quarta.

Na sexta (13), a Abradin, associação que reúne minoritários de empresas de capital aberto, apresentou denúncia para pedir apuração de responsabilidades da varejista.

A associação pede que os gestores da Americanas sejam punidos pelas supostas fraudes. “Crimes não faltam, a começar pelo crime de indução de investidor ao erro”, afirma a denúncia.

O QUE A PWC TEM A VER COM O CASO DA AMERICANAS?

A empresa de auditoria PwC era a firma encarregada de analisar os balanços contábeis da Americanas. Por isso, ela entrou na mira daqueles que buscam responsabilização.

A denúncia feita pela Abradin, por exemplo, pede que as apurações englobem a consultoria.

O presidente da associação, Aurélio Valporto, disse que chama a atenção a “absoluta imperícia da empresa auditora”, e lembrou que a PwC também auditava a Petrobras à época do escândalo da Lava Jato.

Firmas de auditoria não estão imunes a processos judiciais. Inclusive, é comum que elas reservem recursos em seus balanços para pagar multas referentes a possíveis erros.

A AMERICANAS VAI FECHAR, FALIR OU VAI SOBREVIVER

Ainda não é possível saber o que acontecerá com a companhia. O que se sabe até o momento é que, na sexta, a 4ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro atendeu o pedido de tutela de urgência cautelar pedido pela Americanas.

A medida permite que a empresa impeça que seus ativos sejam bloqueados a pedido de credores, por exemplo.

A varejista também fica desobrigada de pagar suas dívidas até que um eventual pedido de recuperação judicial seja feito à Justiça. Para tanto, a empresa precisa decidir sobre o pedido em até 30 dias. Se não o fizer, a tutela perde a eficácia.

Contudo, a Americanas afirmou em comunicado que a tutela de urgência não representa um procedimento de recuperação.

O objetivo do pedido seria preservar a continuidade da oferta de serviços a seus clientes dentro dos compromissos assumidos, preservar o valor da companhia e assegurar a manutenção da continuidade do negócio e sua função social.

Já na avaliação de analistas, a Americanas terá um estouro no seu endividamento, o que pode levá-la a entrar em “modo sobrevivência”, cortando investimentos e empregos.

DEVO PARAR DE COMPRAR NA AMERICANAS OU CANCELAR UM PEDIDO

A Americanas não indica que vai interromper suas operações. Em comunicado no site, a varejista diz que “seguirá trabalhando duro para trazer a todos vocês, a melhor experiência no tempo e no preço que cada consumidor busca.”

No entanto, também não está claro se o rombo e as consequências do mercado podem impactar as vendas e se consumidores podem ser afetados.

Para esclarecer isso, o Procon-SP (Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor de São Paulo) notificou a Americanas. O objetivo é saber até que ponto ficam comprometidas as compras efetuadas pelos consumidores. A empresa tem até o próximo dia 17.

 

Com Folha de São Paulo

Comentários

O seu endereço de e-mail não será publicado.

66  +    =  72