O senhor esteve em São Paulo, vai aproveitar para ver o governador Serra?
Não, eu conversei ontem com o governador José Serra, marcamos um encontro para logo depois do Carnaval, eu retorno agora a Minas Gerais, o motivo dessa minha vinda foi hoje exclusivamente a visita ao presidente José Alencar, mas eu converso sempre com o governador José Serra. As pessoas tendem a achar que nós em determinados momentos estamos distantes. Ao contrário. Estamos sempre juntos, espero que possamos estar juntos nos próximos meses, até mesmo em algumas viagens pelo país, e tenho absoluta convicção de que vamos estar juntos também em 2010 apresentando um projeto novo para o Brasil, aproveitando os avanços que ocorreram no governo Fernando Henrique, que ocorreram também no governo do presidente Lula, mas que ainda precisam ocorrer no Brasil.
Ele se manifestou ser realmente favorável às prévias, governador?
Olha, ele reafirmou aquilo que já havia dito em Minas Gerais há alguns meses atrás, que jamais foi contrário às prévias. Isso é algo muito positivo. Existem duas formas de se ver as prévias. Alguns a compreendem como instrumento de desagregação, de divisão partidária. Eu não vejo dessa forma. Outros como eu, a veem como extraordinária oportunidade de mobilização do partido, de modernização, atualização do nosso discurso, e sobretudo de divulgação das propostas do PSDB. E para que isso fique patente, claro, eu fiz ao governador Serra esse convite. Vamos agora, antes mesmo das prévias, no primeiro semestre, visitar o Brasil. Acho que é uma forma até de nos contrapormos à movimentação que o outro lado vem fazendo sem muitos limites, sem muitos cuidados, isso está ficando cada vez mais claro. Portanto acho que é um grande momento para o PSDB, tanto o governador Serra como eu temos responsabilidade com o país, mas sabemos que é da nossa unidade que nascerá a nossa força, nós teremos viabilidade eleitoral se estivermos unidos, e vamos estar unidos. Da minha parte, o que me parece mais relevante é que essa unidade não seja uma unidade construída artificialmente. Seja uma unidade forjada no debate, nas conversas com a militância do partido, e do reencontro do PSDB com a sua própria história, que é de intérprete de sentimentos de parcela da sociedade brasileira que hoje se distanciaram do partido.
A Dilma disse que o PSDB e o DEM querem interditar o governo, com esse discurso de que ela está viajando, que é uma antecipação da campanha. Mas o senhor disse agora que o outro lado está viajando sem cuidado. É isso?
Na minha avaliação, tanto a ministra Dilma quanto qualquer ministro do governo tem todo o direito e, até mesmo o dever, de viajar pelo país. O cuidado do qual eu me refiro é não vincular essas andanças pelo país a uma corrida eleitoral. É preciso sim que o governo federal seja o primeiro a dar o exemplo de que uma questão, e essa é absolutamente legítima, os ministros saiam pelo país e propaguem as ações do governo, discutam outras ações com a sociedade. Mas quando isso passa pelo caráter iminentemente eleitoral, acho que interessa ao próprio governo dar o exemplo e estabelecer limites.
Nós estamos ainda no início de uma caminhada eleitoral e ainda é tempo de que esses limites sejam estabelecidos para que todos podem segui-lo. Repito mais uma vez, é ao governo federal que cabe, a meu ver, definir de forma mais clara e dar o exemplo da diferença entre ação governamental e ação eleitoral.
O senhor acha que eles extrapolaram?
É um sentimento que acho que todos nós temos de que houve ali algum excesso. Não acho nada extremamente grave, mas eu acho que aquele exemplo dos prefeitos pode servir de alerta. Acredito que pode se transformar em algo pedagógico, em um evento pedagógico. Porque no momento e que há uma mobilização tão grande do governo, numa campanha feita ali nas proximidades, um material de campanha distribuídos nas proximidades do evento, não convém à democracia. Eu vou dizer com muita franqueza. Acho que não interessa ao próprio presidente Lula essas críticas ou esse tipo de acusação. Acho que esse evento foi pedagógico. Percebo que algumas lideranças do governo compreendem isso. E, talvez daqui para frente nós tenhamos um ambiente mais tranqüilo para debatermos idéias. Eu disse algumas vezes, e reitero, a presença, não sei ainda se confirmada, mas a eventual presença da ministra Dilma na disputa é, ao meu ver, a garantia de um alto nível de debate. O que o PSDB deve fazer agora, além apenas de criticar e de contestar, é apresentar alternativas, mostrando o que nos difere do governo que está aí. O que nós vamos fazer que o governo do PT não fez e acho que a agenda é ampla nesse sentido. Mas isso não pode ser feito dos nossos palácios. Deve ser feito em contato com a militância do partido, com as bases do PSDB. Portanto, eu acho que é uma oportunidade que nós não deveríamos perder de nos movimentarmos um pouco, pegarmos os finais de semana e viajarmos pelo país. E nada exemplificaria ou sinalizaria de forma mais adequada para a nossa unidade do que o governador Serra, eu, e a direção do partido, estarmos viajando juntos, discutindo nossas propostas com cada uma das regiões brasileiras.
Serra gostou dessa idéia?
Ele concordou. Ele me disse ontem à noite uma idéia interessante. Como eu disse, fiquei de fazer uma visita logo após o Carnaval para quem sabe já avançarmos na definição. Vou retribuir agora uma visita que ele fez recentemente a Minas.
Qual agenda dessas viagens, qual a proposta?
Não tenho ainda uma proposta acabada porque se eu tivesse seria uma imposição de uma agenda minha e agenda do governador Serra. Eu quero construir com ele, com a direção do partido uma agenda. Acho que seria algo absolutamente novo. As pessoas temem o novo, acham que o que não é tradicional não deve ser tentando. Eu disse um tempo atrás que a tradição do PSDB foram escolhas centralizadas. Os resultados nas duas últimas eleições, pelo menos, não foram positivas. Quem sabe nós rompemos essa tradição com coragem e vamos nos dispor um pouco sim a critica, as contestações ao debate com as bases partidárias, quem sabe não nasce um novo PSDB mais mobilizado, mais vigoroso e com idéias novas para o país. É isso que eu tenho proposto e acho que o governador Serra é aliado dessas idéias.
O senhor acha que a oposição agiu errado ao entrar na justiça contra o governo?
Não, eu não contesto essa estratégia. Ali é uma ação congressual do partido, legítima, porque certamente os que estão no Congresso e tem informações mais detalhadas e acompanharam mais de perto aquele evento. Acho que isso é absolutamente natural e o que me parece é que o próprio governo poderia tirar desse exemplo uma lição pedagógica para tomar cuidados para que outros eventos de governo não se transformem em eventos eleitorais. Porque, aí sim, há tendência de que hajam questionamento muito grave em relação a uma campanha que não começou ainda. Isso não é bom. Eu não quero fazer uma campanha política dentro do meu partido apenas questionando os atos de quem está do outro lado. Eu quero fazer uma campanha debatendo as idéias que estão do outro lado. Aí seria muito bom, principalmente para os que detêm máquinas administrativas, que comandam máquinas administrativas. Servem para nós também do ponto de vista regional. Temos que dar o exemplo e temos cuidados além daqueles que o governo federal vem tendo.
Um aliado seu, que é o presidente Itamar Franco, deu uma entrevista outro dia dizendo que já é hora de o senhor atravessar o rubicão, ou seja, que o senhor tem de se apresentar como candidato à presidência o quanto antes.
O presidente Itamar tem sido muito estimulador permanente num papel mais proeminente e mais vigoroso de Minas no cenário nacional. Acho isso adequado e é uma figura por quem eu tenho, acho que o Brasil tem, um enorme respeito. Ele simboliza algo que deve incorporar as propostas ou, na verdade, permear as propostas do nosso partido que é a questão da ética, dos princípios, dos valores, hoje muito deles esquecidos no país. Eu sempre ouço muito o presidente Itamar Franco. Agora, política não é uma corrida de cem metros. Política é uma maratona. E eu só acredito nos projetos que têm uma dose naturalidade. Nada imposto. Ninguém impõe uma candidatura. Você pode, como eu, estar disposto a discutir projetos e querer estabelecer fóruns para a discussão de projetos. O que me parece, as prévias, podem ser um desses fóruns. Mas a candidatura do PSDB ou dos grupos de partidos que estão ao nosso lado será aquela que, no momento da decisão, que não me parece seja esse agora, apresentar maior naturalidade e maior capacidade não apenas de vencer os indicadores de pesquisas, mas de aglutinar forças políticas para a vitória.
Eu estou muito tranqüilo e acho que esse processo vai caminhar este ano com naturalidade e, no que depender de mim, o PSDB vai buscar de novo nas ruas, nas várias regiões do país, a força que perdeu, a relação que perdeu com determinados setores da sociedade que já tiveram no passado muito próximos a nós para apresentarmos um novo projeto para o país, o que eu chamo de projeto Pós-Lula. De coragem política para fazer as reformas, de um novo modelo de gestão pública onde a eficiência seja a marca e não a ocupação pelos companheiros nos espaços públicos. Uma nova visão em relação à política internacional, mais atual e menos ideológica. Enfim, temos uma enorme agenda para discutir com o país e acho que este é o papel que julgo adequado desempenhar nesse momento. Levantar o partido, mobilizar o partido e seria muito bom se eu pudesse fazer isso, como acredito farei, ao lado do governador de São Paulo, José Serra.
O senhor acha que tem mais capacidade de aglutinar forças que o governador José Serra?
Eu não tenho essa pretensão. Eu acho que o governador Serra tem todos os pré-requisitos para ser candidato e para governar o país. Acho apenas que nós devemos ser cautelosos e não, como eu tenho dito, deitarmos, nos acomodarmos em berço esplêndido, achando que os indicadores de pesquisa que colocam os candidatos do PSDB, obviamente com níveis variáveis à frente nas pesquisas, nos garanta qualquer sucesso lá adiante. Eu acho que é bom aproveitar esse momento de proeminência dos nomes do PSDB para andarmos pelo Brasil. E acho que se lá na frente couber ao governador José Serra a candidatura do PSDB, é possível que isso ocorra, ele terá uma legitimidade ainda maior e, obviamente, terá uma densidade política e eleitoral ainda maior. Portanto, o que nós queremos não é disputar. O que nós queremos é unir as nossas forças, fortalecer o PSDB, renová-lo e readquirir a confiança da população brasileira.
Um ser vice do outro nem se discute?
Não, isso não tem um sentido prático, porque nem eu preciso de um espaço para eventualmente apoiar o governador José Serra e nem ele precisará de um espaço para eventualmente vir a me apoiar se essa for a decisão majoritária do partido. Eu acho que nós devemos abrir espaço sim para outras forças políticas, eventualmente, até representantes de outras regiões do país. Me pareceria algo talvez presunçoso o PSDB achar que sozinho, solitariamente, em um quadro partidário tão plural quanto o brasileiro, possa reunir as forças necessárias para vencer essas eleições.
O senhor já está em campanha?
Não, na verdade, eu sou o governador de Minas Gerais em tempo integral, mas nós estamos iniciando o processo de discussão partidária. O que acho é que não devemos repetir o equívoco das últimas eleições, quando definimos o nosso candidato no final do mês de março, muito próximo das eleições. Não acho também que devemos nos orientar pela agenda dos nossos prováveis adversários, que já anteciparam, em muito, o processo eleitoral.
Até o fato de o governador José Serra ser governador e de eu ser governador em Minas Gerais nos orienta a ter alguns cuidados. Acho que o final do ano é o momento do amadurecimento dessa decisão para que ela, quando tomada, seja uma decisão consensual que mais do que oriente o eleitorado do PSDB, mobilize e entusiasme o eleitorado do PSDB. Eu estou muito tranqüilo e o governador José Serra da mesma forma. Quem sabe nós estamos criando uma agenda nova para o país. Os nomes lembrados do partido juntos, discutindo projetos para o país. Essa será a grande diferença. Nós teremos propostas novas a apresentar ao Brasil e isso pode nos levar, quem sabe, a uma posição privilegiada na disputa.
O senhor acha que o governador José Serra teme o novo?
Não, não acho. O governador José Serra é muito sereno nessas questões, é um político extremamente experiente, tenho enorme respeito por ele. Não acho apenas que, solitariamente, uma decisão exclusivamente de algumas lideranças do partido, por mais respeitáveis que sejam, nos levará à vitória. Nós temos chances reais de vitória, mas não devemos nos acomodar. O que estou propondo é a mobilização do partido, a discussão de propostas novas para o país e o governador José Serra, certamente, estará participando dessa discussão. Ao final, eu posso garantir a vocês, para desencanto de muitos, que nós estaremos absolutamente unidos para vencer as eleições.
O senhor vê alguma alternativa às prévias?
Eu acho que a prévia é o melhor caminho. Se alguém apresentar uma solução mais criativa que essa, estou aberto para ouvir





