A ex-primeira-dama do Brasil, Ruth Cardoso, faleceu às 20h40 desta terça-feira (24). Seu corpo já está na Sala São Paulo, zona sul da capital, onde ocorre o velório.
Já o enterro ocorrerá nesta quinta-feira, às 11h, no Cemitério da Consolação, de acordo com o ex-ministro da Justiça, José Gregory, que visitou a família da ex-primeira-dama. Ruth Cardoso, de 77 anos, morreu nesta terça-feira às 20h40, no apartamento da família, no bairro de Higienópolis, em São Paulo, vítima de enfarte fulminante.
| A DESPEDIDA DE DONA RUTH | |
| Foto: Agência Brasil | |
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Antropóloga, educadora, autora de vários livros, a ex-primeira-dama Ruth Cardoso morreu nesta terça-feira, aos 77 anos, em sua casa, na capital paulista, um dia depois de ter sido submetida a um cateterismo. A causa morte ainda não foi divulgada.
Esposa do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, dona Ruth esteve internada desde a quinta-feira no Hospital Sírio Libanês e na manhã de segunda-feira foi para o hospital da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) onde passou por um cateterismo e teve alta à noite. Ela sofria de angina e vinha sentindo dores no peito. A avaliação médica foi de que ela não necessitava passar por uma cirurgia.
Em nota à imprensa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva manifestou pesar e disse ter recebido com surpresa a notícia da morte de Ruth Cardoso."É difícil acreditar que aquela intelectual determinada que conheci muitas décadas atrás, com convicções firmes, gestos nobres e ao mesmo tempo sensibilidade para o drama da desigualdade social, tenha nos deixado", diz a nota.
"É uma grande perda para o país. Tenho certeza de que será sempre lembrada pelas sementes que plantou em sua brilhante carreira, por iniciativas como o Programa Comunidade Solidária entre tantas outras. Em meu nome e de Marisa, peço que Deus lhe dê a eterna felicidade e conforte o coração do amigo Fernando Henrique, seus filhos e netos", completa a nota assinada por Lula.
O governador de São Paulo, José Serra, lamentou a morte e decretou luto oficial de três dias no Estado. "A Ruth era uma pessoa muito especial para sua família, para seus amigos, para nosso país. Um exemplo de dignidade, delicadez, inteligência e carinho pelas pessoas. É uma dor imensa a que sinto nesse momento", disse Serra em nota oficial.
O PSDB, partido pelo qual a ex-primeira-dama militava ao lado do marido, cancelou as festividades marcadas para quarta-feira em comemoração aos seus 20 anos, disse o presidente da sigla, senador Sérgio Guerra (PE). "Estamos todos bastante atingidos por isso. Ela era uma pessoa que tinha muito prestigio no partido. Tinha muito respeito de todos", afirmou Guerra à Globonews. "Dona Ruth é uma espécie de consciência de todos nós… tinha conosco ampla autoridade. Vai nos fazer falta é uma perda irreparável", acrescentou.
Durante a permanência de Fernando Henrique no Palácio do Planalto, Ruth Cardoso presidiu o programa Comunidade Solidária, com o objetivo de unir governo, sociedade civil, universidades e empresas na tentativa de melhorar as condições de vida nas áreas mais pobres do país.
Natural de Araraquara, Ruth Vilaça Correia Leite Cardoso era doutora em antropologia pela Universidade de São Paulo, onde lecionou, foi pesquisadora e conheceu o marido, com quem era casada desde 1953. Teve três filhos. Ruth também deu aulas na Universidade do Chile, em Berkeley (Califórnia) e Columbia (Nova York) e escreveu livros relacionados a temas como cidadania, juventude e migração.
LUZ PRÓPRIA – A antropóloga Ruth Cardoso tinha luz própria. Ela foi um dos primeiros acadêmicos brasileiros a perceber a emergência dos movimentos sociais que abrigavam diversidades – como os feministas, étnico-raciais e de orientação sexual. Até a década de 70, a academia considerava que esses movimentos não tinham status para merecer a atenção da universidade, mas Ruth já os chamava de "novos movimentos sociais", conta a antropóloga Jacira Melo, aluna dela na USP nos anos 70.
Ela marcaria a sua carreira acadêmica pela inovação. Em meados da década de 50, quando o tema ainda era muito árido e distante, ela estudou a imigração japonesa para São Paulo, lembra o ex-ministro da Cultura Francisco Weffort, e a transformou em tese universitária. Depois do golpe de 1964 enfrentou o exílio ao lado do marido: no Chile, enquanto Fernando Henrique trabalhava na Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), ela foi professora da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), que recebia alunos de muitos países. Depois foram para a França e, de volta ao Brasil, fundaram o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), que marcaria a pesquisa social no Brasil.
No início dos anos 80, enquanto Fernando Henrique se envolvia na aventura política que o levaria ao Senado e mais tarde à Presidência da República, Ruth se aprofundou na vida acadêmica. No Cebrap, num tempo em que poucos perceberam a emergência dos movimentos sociais, ela montou uma primeira equipe para pesquisá-los, quando as organizações não-governamentais ainda eram desconhecidas. Depois diria que desde os anos 70, em plenos anos de chumbo, já percebia os sinais da construção de uma sociedade participativa no Brasil.
Ainda na fase de transição para a montagem do governo FHC, ela concebeu a criação do programa Comunidade Solidária. Separou como ninguém o público e o privado: só os amigos antigos tinham livre trânsito na residência presidencial, conta o ex-secretário da Presidência, Eduardo Jorge.
Ao mesmo tempo, revelou-se como o lado franco e progressista do governo. Quando alguém lhe perguntou sobre o então senador Antonio Carlos Magalhães, disse, sem meias medidas, que o PFL tinha dois lados e ACM era o lado ruim. Com a declaração, criou um contencioso que custou a ser resolvido pelo marido. O então ministro José Serra dizia que recebia ordens dela, mas não de FHC.
Vanguarda, eles já eram há muito tempo. Quando os filósofos Jean Paul Sartre e sua mulher Simone de Beauvoir vieram a São Paulo, em 1960, na primeira fila do auditório acadêmico que os ouvia estava um casal marcante de professores da USP – Fernando Henrique e Ruth Cardoso.
Nascida em Araraquara, ela e Fernando Henrique se conheceram na USP e se casaram em 1953. Apesar de sua aversão à prática política – "Partido não é comigo", disse uma vez, segundo registrou sua amiga Fátima Pacheco Jordão -, foi uma das principais conselheiras do marido, enquanto Fernando Henrique esteve no governo.
Era doutora pela USP e pós-doutora pela Universidade de Columbia, nos EUA. Presidiu o conselho assessor do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) sobre Mulher e Desenvolvimento e integrou a junta diretiva da Comissão da OIT (Organização Internacional do Trabalho) sobre as Dimensões Sociais da Globalização.
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