17hs – Chegada de Josef K. ao Pronto Socorro, para substituir a acompanhante de Clara K. (86 anos) internada à espera de vaga hospitalar para cirurgia de fêmur – a acompanhante tinha outros compromissos a partir das 18hs00. O porteiro, dizendo cumprir ordens, não permite a entrada de Josef K. alegando que somente às 18h30 é que permitiria o acesso, para cumprir o regulamento. Por mais que Josef K. tente explicar, não obtém resultado; o porteiro continua irredutível. O sistema é frágil e idiota, porque não há o menor motivo para barrar alguém que vai apenas substituir um acompanhante. Enquanto o porteiro tumultua, leva gols pela lateral da meta. Várias pessoas balançam-lhe as redes e escorregam tranquilamente para avistar seus parentes, fora do horário de visitas.
17hs15 – Verifica-se um início de barraco, com Josef K. dizendo que por direito teria de entrar. O porteiro, mal educado, grosseiro, leva o caso à assistente social de plantão. Esta, muito gentil, reconhece que os atendentes da portaria não recebem qualquer tipo de treinamento e não estão habilitados a atender o público. E libera, através de autorização escrita, a entrada de Josef K. Esse, por sua vez, aceita esperar pelo final de jornada do frangueiro, para que ficasse preservada a sua autoridade. A substituição ocorre às 18hs05 sem o menor problema.
17hs30 – A recepção ainda está muito tumultuada. A boiada cumpre o Protocolo de Manchester, (muito necessário, por sinal) com senhas coloridas que indicam, da menor, à maior urgência. Pacientes e familiares ficam do lado de fora dispostos em bancos de concreto, que jamais recebem qualquer tipo de limpeza ou assepsia. Somente bundaterapia. O mau-cheiro prejudica narinas as mais resistentes. As paredes externas estão sujas, mofadas e sem manutenção. O lixo está por toda parte da área de acesso. Situação deprimente.
18hs30 – O movimento começa a ficar mais aliviado. Os candidatos a consultas já estão do lado de dentro. Lá fora chega a polícia conduzindo um homem algemado, sangrando, com pequenos ferimentos, mas que dispensa qualquer tipo de atendimento. O rapaz é levado de volta. Começam a chegar os primeiros drogados e alcoólatras, que de imediato tomam boa parte dos assentos onde pretendem dormir. Cinco deles se alojam no perímetro do Pronto Socorro, ocupando os bancos de espera, afastando as famílias e pacientes que aguardam pela chamada. A segurança terceirizada vê tudo, mas nada faz. A PM idem. No terminal rodoviário a segurança resolveu esse mesmo problema. Crackeiro não pisa ali. Veículos dos bombeiros chegam e saem a todo instante, trazendo principalmente, acidentados. Esses são atendidos de imediato.
19hs00 – “Ele bebeu veneno de rato. E ainda não vomitou.” – diz resignadamente a irmã que empurra a maca, onde um rapaz geme e se contorce em dores. Na enfermaria, Clara K. tem espasmos de dor. Desespero. A fratura do fêmur cobra seu repto e Josef K. pede à enfermeira que ministre algum medicamento para aliviar a dor de Clara. Com atenção e zelo a auxiliar informa que o medicamento injetável indicado acabou, mas que vai substituí-lo por remédio oral.
20hs00 – Coincidentemente as pacientes da enfermaria feminina dormem a um só tempo. A maioria só desperta por volta das 6hs00 da manhã. Silêncio e respeito dentro da unidade. Atendentes e médicos circulam pelos corredores, preocupados em atender os mais de 50 pacientes internados e mais algumas poucas urgências que aparecem no decorrer da noite. Clara K. completa 48 horas desde a fratura do fêmur e continua à espera de uma vaga hospitalar. Do lado de fora os crackeiros dormem a sono solto, sem se incomodar com a opinião dos circunstantes. A sujeira e o lixo continuam se acumulando. Estão melhor acomodados que os acompanhantes, a noite inteira em cadeiras ao lado dos leitos, sem a menor possibilidade de se recostarem para um cochilo mais digno. O sofrimento é do doente e dos acompanhantes. O calor é sufocante. E a água mineral vendida do lado de fora é farta ao lado dos leitos.
5hs00 – Antes mesmo da alvorada começa o périplo dos usuários de drogas em direção aos pontos de venda localizados na região. São zumbis que vagueiam pela noite esperando pelo amanhecer, quando começam tudo de novo. Dedicadas auxiliares de enfermagem (essas profissionais deviam ter mais reconhecimento público) trocam as pacientes mais frágeis, as obrigadas a usar fraldão. Na doença é que a vida se mostra realmente com ela é, nua e crua. Os alcoólatras e usuários de drogas começam a acordar e recolher seus papelões. Daí a pouco se vão.
7hs00 –
Clara K. teve sorte; na manhã da segunda-feira, dia 08, foi transferida para Belo Horizonte, onde os parentes conseguiram a ansiada vaga em hospital de Belo Horizonte através da Central de Leitos. Se nada acontecer em contrário vai ser operada na próxima sexta-feira, exatos nove dias depois do acidente. Alguns levam mais tempo. O SUS em Divinópolis não conta com médicos de várias especialidades. A rede de hospitais da capital e região é que estão segurando a demanda local, o que contradiz a opinião dos mais resistentes afirmando que Divinópolis segura a onda da região. O SUS deixa muito a desejar, mas os planos de saúde também não ficam distantes da triste realidade. Não são planos de saúde, são cooperativas; os pacientes pagam por quase tudo.
O que eles disseram:
Itamar de Oliveira
Vivo a minha realidade quântica, na qual o universo é uno, indivisível e imaterial, ligado por vibrações, líquidos e fótons, que constituem a cerveja gelada. Eu sou você, você, eu, e nós, a energia. Saravá!
Radio City
Itamar de Oliveira
![]() Se beber, não dirija – Se dirigir, não beba |






