O último debate presidencial antes do segundo turno das eleições de 2026, realizado pela TV Globo nesta sexta-feira (23), terminou com uma série de declarações dos candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) submetidas à verificação jornalística. Economia, dívida pública, programas sociais, inflação, infraestrutura, segurança e pandemia estiveram entre os assuntos discutidos. Com o encerramento do confronto, o Divinews ampliou o levantamento iniciado durante a transmissão e reuniu as classificações publicadas pela Agência Lupa até as 23h45. As verificações mostram afirmações corretas, informações falsas e dados utilizados sem o contexto necessário. O resultado permite compreender o conteúdo de cada declaração sem confundir opinião política com informação comprovável.
Checagem identifica diferentes tipos de incorreção nas declarações
A Agência Lupa classificou as afirmações em categorias como verdadeiro, falso, exagerado, subestimado e falta contexto.
Uma declaração classificada como verdadeira corresponde aos dados examinados. A classificação de falso indica contradição com informações verificáveis. Já uma afirmação exagerada ou sem contexto pode conter dados corretos, mas apresentá-los de maneira incompleta ou imprecisa.
A versão consultada da checagem da Lupa foi atualizada às 23h45 de 23 de outubro. Trata-se do levantamento disponível nesse horário, sujeito a revisões posteriores.
Painel das declarações verificadas
Flávio | Redução das barras de chocolate
Falso
Falso
Flávio | Lula teria defendido roubo de celular para comprar cerveja
Falso
Flávio | Interpretação dos vídeos de Bolsonaro imitando falta de ar
Falso
Flávio | 11,5 mil obras paradas atribuídas ao governo atual
Falta contexto
Flávio | Dívida pública de R$ 11 trilhões
Falta contexto
Flávio | Brasil estaria quebrado
Falta contexto
Flávio | Projeção de juros de 2022
Falta contexto
Flávio | R$ 400 bilhões supostamente gastos para reeleição
Exagerado
Flávio | Bolsa Família de R$ 600
Exagerado
Flávio | Conclusão da transposição do São Francisco
Exagerado
Flávio | Novo marco legal do saneamento
Verdadeiro
Flávio | Centro-Oeste na produção agropecuária
Verdadeiro
Flávio | Taxa Selic próxima de 14%
Verdadeiro
Flávio | Mais de 80 milhões de inadimplentes
Verdadeiro
Lula | Tigrinho criado no governo Bolsonaro em 2022
Falso
Lula | PIB não crescia acima de 3% desde 2010
Falso
Lula | BR-319 como rodovia que ninguém havia feito
Falta contexto
Lula | Pobreza de 40% na Argentina
Falta contexto
Lula | Fome encerrada em 2012
Exagerado
Lula | Seis mil obras paralisadas herdadas
Subestimado
Lula | 33 milhões de brasileiros passando fome em 2022
Verdadeiro
Lula | 700 novos mercados para o agronegócio
Verdadeiro
Lula | Recorde de exportações brasileiras
Verdadeiro
Lula | Flávio utilizou expressão bolsa-farelo
Verdadeiro
Classificações da Agência Lupa relativas ao debate da Globo de 23/10/2026. O painel não inclui todas as declarações feitas no programa, apenas as 25 verificações consultadas.
O que Lula disse e o que a checagem encontrou
Lula erra ao afirmar que a economia não crescia acima de 3% desde 2010
Classificação: FALSO
Lula afirmou que a economia brasileira não registrava crescimento superior a 3% desde que deixou a Presidência em 2010.
A declaração contraria os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Em 2011, durante o governo Dilma Rousseff, o PIB cresceu 3,9%. Em 2021, na administração Jair Bolsonaro, a economia avançou 4,8%, após a retração provocada pela pandemia em 2020.
Portanto, houve crescimento superior a 3% em governos posteriores à primeira passagem de Lula pela Presidência.
Lula exagera ao afirmar que acabou com a fome em 2012
Classificação: EXAGERADO
O presidente declarou que havia acabado com a fome no Brasil em 2012.
A saída brasileira do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas ocorreu em 2014, durante o governo Dilma Rousseff.
Além disso, sair do Mapa da Fome não significa eliminar completamente a insegurança alimentar grave.
O indicador considera critérios estatísticos internacionais e não corresponde à ausência absoluta de pessoas passando fome.
Lula acerta ao mencionar 33 milhões de pessoas passando fome
Classificação: VERDADEIRO
Ao comentar a situação social que encontrou quando voltou ao governo, Lula mencionou aproximadamente 33 milhões de pessoas em situação de fome.
A informação corresponde ao levantamento da Rede Penssan divulgado em junho de 2022.
A pesquisa identificou 33,1 milhões de brasileiros em insegurança alimentar grave.
Lula acerta ao citar a abertura de 700 mercados internacionais
Classificação: VERDADEIRO
O presidente afirmou que seu governo abriu 700 novos mercados para produtos brasileiros.
O Ministério da Agricultura anunciou, em outubro de 2026, que o Brasil havia alcançado esse número de novas autorizações comerciais desde janeiro de 2023.
As autorizações envolvem produtos agropecuários destinados a 99 países e blocos econômicos.
Abertura de mercado significa autorização de acesso comercial, não exportação necessariamente realizada.
Lula acerta ao mencionar recorde de exportações
Classificação: VERDADEIRO
Lula afirmou que o Brasil nunca havia exportado tanto.
Dados oficiais mostram que as exportações brasileiras alcançaram US$ 348,3 bilhões em 2025, recorde da série histórica iniciada em 1997.
Entre janeiro e setembro de 2026, as exportações também apresentaram crescimento em relação ao mesmo período do ano anterior.
Lula acerta sobre expressão utilizada por Flávio Bolsonaro
Classificação: VERDADEIRO
Lula afirmou que Flávio Bolsonaro já havia se referido ao Bolsa Família como bolsa-farelo.
Registros de publicações realizadas pelo então deputado estadual em 2011 confirmam o uso da expressão.
As mensagens foram posteriormente apagadas, mas haviam sido registradas por veículos de imprensa.
Lula subestima o número de obras paralisadas herdadas
Classificação: SUBESTIMADO
O presidente afirmou que encontrou aproximadamente seis mil obras paradas quando voltou ao governo.
O painel do Tribunal de Contas da União registrava cerca de 8,6 mil obras paralisadas em agosto de 2022.
Assim, o número mencionado por Lula ficou abaixo daquele apresentado pelo levantamento oficial referente ao último ano da administração anterior.
Lula omite contexto ao apresentar obras da BR-319
Classificação: FALTA CONTEXTO
Lula afirmou que seu governo estava realizando uma rodovia entre Porto Velho e Manaus que ninguém havia tido coragem de fazer.
Entretanto, a BR-319 começou a ser construída em 1968 e foi inaugurada em 1976, durante o regime militar.
A rodovia sofreu deterioração e passou a necessitar de recuperação e reconstrução.
Portanto, as intervenções recentes não correspondem à construção original da estrada.
Lula e a pobreza na Argentina
Classificação: FALTA CONTEXTO
Lula afirmou que a pobreza na Argentina havia alcançado 40% durante o governo Javier Milei.
Os indicadores argentinos mostram que a taxa chegou a ultrapassar 50% em 2024, mas posteriormente apresentou redução.
No primeiro semestre de 2026, o índice divulgado foi de aproximadamente 32,3%.
A afirmação do presidente brasileiro utiliza um cenário anterior, sem esclarecer as mudanças posteriores.
Lula também erra ao atribuir criação do Tigrinho ao governo Bolsonaro
Classificação: FALSO
Lula afirmou que as apostas online conhecidas popularmente como Tigrinho haviam sido criadas durante o governo Jair Bolsonaro, em 2022.
A legislação brasileira que iniciou a autorização das apostas de quota fixa foi sancionada em 2018, no governo Michel Temer.
A gestão Bolsonaro não concluiu a regulamentação do setor. Em 2023, o governo Lula sancionou legislação posterior sobre as apostas.
Isso não significa que o jogo específico chamado Tigrinho tenha sido criado pela legislação de apostas esportivas; a classificação considera a afirmação feita no contexto da regulamentação do setor.
O que Flávio Bolsonaro disse e o que a checagem encontrou
Flávio erra ao atribuir a redução das barras de chocolate à inflação atual
Classificação: FALSO
Flávio Bolsonaro afirmou que barras de chocolate antes comercializadas com 120 gramas passaram a ter apenas 80 gramas em razão da inflação.
A redução dos tamanhos das embalagens não começou no atual governo.
Há registros de barras de 80 gramas comercializadas desde 2022, durante a administração Jair Bolsonaro, e o processo de redução das embalagens ocorre há décadas.
Flávio erra ao atribuir a Lula a origem do Tigrinho
Classificação: FALSO
Flávio chamou Lula de responsável pela criação do Tigrinho.
A legislação que abriu caminho para apostas de quota fixa foi sancionada em 2018, no governo Michel Temer.
O governo Bolsonaro não concluiu sua regulamentação e o governo Lula aprovou novas regras em 2023.
A afirmação de que Lula teria criado originalmente o setor foi classificada como falsa.
Flávio erra sobre suposta defesa do roubo de celulares por Lula
Classificação: FALSO
Flávio Bolsonaro afirmou que Lula teria defendido pessoas que roubam celulares para comprar cerveja.
A checagem identificou que a alegação deriva de uma montagem de declarações feitas por Lula em entrevista de 2017.
Na ocasião, ele relacionou a criminalidade à falta de oportunidades econômicas e, em outro trecho da conversa, utilizou a imagem de torcedores que poderiam tomar cerveja juntos depois de uma partida de futebol.
A junção desses trechos foi utilizada para produzir uma interpretação diferente das falas originais.
Flávio erra ao contestar a repercussão dos vídeos de Jair Bolsonaro imitando falta de ar
Classificação: FALSO
Durante o debate, Flávio Bolsonaro afirmou que vídeos de seu pai imitando pessoas com dificuldade para respirar haviam sido interpretados de maneira equivocada.
A checagem confirmou que Jair Bolsonaro realizou as imitações em duas transmissões ao vivo de 2021, durante a pandemia.
Naquelas ocasiões, o ex-presidente criticava orientações médicas relacionadas à procura de atendimento e defendia o chamado tratamento precoce, associado a medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19.
A verificação não determina a intenção subjetiva do ex-presidente, mas confirma as imitações e o contexto em que foram realizadas.
Flávio exagera sobre os R$ 400 bilhões em medidas governamentais
Classificação: EXAGERADO
Flávio afirmou que Lula teria gasto mais de R$ 400 bilhões para tentar garantir a reeleição.
Levantamento citado pela Agência Lupa identifica aproximadamente R$ 405 bilhões em medidas de impacto orçamentário no ano eleitoral.
Entretanto, o total inclui renúncias fiscais, despesas previstas no orçamento e outros instrumentos que não representam necessariamente dinheiro já desembolsado.
Além disso, o valor total não comprova que todas as medidas tenham sido adotadas exclusivamente por motivação eleitoral.
Flávio exagera sobre os R$ 600 do Bolsa Família
Classificação: EXAGERADO
O candidato afirmou que Jair Bolsonaro havia elevado o valor mínimo do benefício para R$ 600.
O pagamento chegou a esse valor em 2022, mas a proposta inicial do Auxílio Brasil estabelecia R$ 400.
A ampliação para R$ 600 foi prevista até o fim daquele ano. A proposta orçamentária encaminhada para 2023 previa novamente R$ 400.
Portanto, o pagamento existiu, mas sua apresentação como benefício permanente não corresponde ao planejamento orçamentário original.
Flávio exagera sobre a conclusão da transposição do São Francisco
Classificação: EXAGERADO
Flávio afirmou que Jair Bolsonaro havia concluído a transposição do Rio São Francisco.
Durante o governo Bolsonaro, foram inaugurados trechos importantes, incluindo etapas do Eixo Norte.
Entretanto, o projeto começou a ser executado em governos anteriores e ainda possuía intervenções em andamento.
Dessa forma, não é correto atribuir a conclusão integral da transposição à administração Bolsonaro.
Flávio apresenta dado sem contexto sobre 11,5 mil obras paradas
Classificação: FALTA CONTEXTO
O candidato declarou que existiam mais de 11,5 mil obras paralisadas no atual governo.
O levantamento do TCU referente a 2024 apontou 11.944 empreendimentos parados, mas o conjunto inclui projetos iniciados em diferentes administrações.
Além disso, dados consolidados em abril de 2026 indicavam 4.215 obras paralisadas.
Portanto, o número mencionado não representa exclusivamente obras iniciadas ou interrompidas pelo governo Lula.
Flávio apresenta contexto incompleto sobre dívida de R$ 11 trilhões
Classificação: FALTA CONTEXTO
Flávio afirmou que o governo atual estaria deixando uma dívida de aproximadamente R$ 11 trilhões.
A dívida bruta do governo geral alcançou R$ 11,1 trilhões em agosto de 2026, segundo o Banco Central.
Entretanto, o indicador reúne obrigações federais, estaduais e municipais, além do INSS.
O montante não corresponde a uma dívida criada integralmente durante o mandato atual.
Flávio afirma que o Brasil está quebrado
Classificação: FALTA CONTEXTO
Ao questionar a situação fiscal, Flávio afirmou que Lula estaria deixando o país quebrado.
A dívida pública e os déficits fiscais representam informações relevantes sobre as contas brasileiras.
Entretanto, a afirmação de insolvência não decorre automaticamente desses indicadores.
O país também apresentou crescimento econômico, redução do desemprego e outros resultados que precisam integrar uma avaliação da situação fiscal.
Flávio utiliza projeção antiga de juros sem esclarecer seu significado
Classificação: FALTA CONTEXTO
Flávio afirmou que projeções realizadas em outubro de 2022 apontavam juros próximos de 7%, enquanto a taxa atual estaria ao redor de 14%.
O Boletim Focus realmente apresentava expectativa de redução da Selic.
Entretanto, a projeção representava uma estimativa de mercado, não uma garantia de que a taxa teria aquele comportamento caso Jair Bolsonaro permanecesse na Presidência.
Também foi omitido que a Selic estava em 13,75% ao ano em outubro de 2022.
Flávio acerta sobre a taxa Selic
Classificação: VERDADEIRO
O candidato afirmou que a taxa básica de juros brasileira estava próxima de 14%.
O percentual confirmado pela checagem era de 13,75% ao ano.
A aproximação apresentada por Flávio corresponde ao indicador oficial.
Flávio acerta ao citar mais de 80 milhões de inadimplentes
Classificação: VERDADEIRO
Flávio afirmou que mais de 80 milhões de brasileiros estavam com contas atrasadas.
Segundo dados da Serasa, o país registrava 83,9 milhões de inadimplentes em agosto de 2026.
A informação corresponde a aproximadamente 51% da população adulta brasileira.
Flávio acerta sobre o novo marco legal do saneamento
Classificação: VERDADEIRO
Flávio atribuiu ao governo Jair Bolsonaro a aprovação do novo marco legal do saneamento básico.
A legislação foi sancionada em 2020, a partir de projeto apresentado pelo Poder Executivo em 2019.
O marco revisou normas anteriores e estabeleceu metas nacionais de ampliação dos serviços de água e esgoto.
Flávio acerta sobre a produção agropecuária do Centro-Oeste
Classificação: VERDADEIRO
Flávio afirmou que o Centro-Oeste é a região brasileira com maior produção agropecuária.
A checagem confirmou que a região apresentava o maior Valor Bruto da Produção Agropecuária, estimado em R$ 431,2 bilhões.
Mato Grosso aparece como principal responsável pela participação regional nesse indicador.
Essas são as classificações registradas na atualização consultada da Agência Lupa, inclusive as publicadas após o início da primeira cobertura do Divinews.
O que a conclusão da checagem revela
O debate da Globo foi marcado por diferentes tipos de afirmação que exigem análise cuidadosa.
Entre os temas mais recorrentes estiveram a situação econômica brasileira, as políticas sociais, o histórico de obras públicas e as responsabilidades atribuídas aos governos anteriores.
Um dos exemplos é a discussão sobre o Tigrinho. Os dois candidatos receberam classificação de falso ao atribuir incorretamente a origem das apostas online ao governo adversário.
Outro exemplo envolve o crescimento econômico. Lula apresentou uma afirmação incompatível com dados históricos do PIB, enquanto Flávio utilizou projeções antigas de juros sem esclarecer que eram expectativas do mercado, não resultados garantidos.
A análise dos números também exige cuidado: a quantidade de declarações verificadas não corresponde à totalidade das falas dos candidatos. As agências selecionam afirmações passíveis de comprovação documental, e os resultados dependem desse recorte.
A checagem não determina quem venceu o debate. Ela esclarece quais afirmações específicas encontram respaldo nos dados e quais apresentam erros, exageros ou omissões.
Para o eleitor, a distinção entre números corretos e informações incompletas permite compreender melhor o conteúdo das declarações feitas no último confronto presidencial antes da votação de domingo (25).






