O primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 colocou Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) novamente no centro da disputa nacional. Os dois candidatos foram os mais votados no país e disputarão o segundo turno em 25 de outubro.
Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com 99,99% das urnas apuradas, Flávio Bolsonaro recebeu 56.104.268 votos, o equivalente a 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula obteve 53.876.617 votos, ou 45,16%. A diferença nacional ficou em aproximadamente 2,23 milhões de votos.
O resultado também produziu um mapa político relevante em Minas Gerais. O estado, tradicionalmente observado como um importante indicador das disputas presidenciais, deu vantagem a Flávio Bolsonaro, embora Lula tenha vencido em um número maior de municípios mineiros. A força do candidato do PL, entretanto, concentrou-se especialmente nos municípios de maior eleitorado.
Em Divinópolis, o resultado foi ainda mais favorável a Flávio, que abriu vantagem de mais de 22 mil votos sobre Lula.
Minas Gerais: Flávio vence, mas Lula lidera em mais municípios
Minas Gerais terminou o primeiro turno com Flávio Bolsonaro na primeira colocação, com 5.775.965 votos, ou 48,25% dos votos válidos. Lula ficou em segundo, com 5.185.830 votos e 43,32%.
A diferença entre os dois foi de aproximadamente 590 mil votos.
O candidato do Avante, Escritor Augusto Cury, apareceu em terceiro, com 409.646 votos (3,42%), seguido por Renan Santos (Missão), com 247.176 (2,06%), Ronaldo Caiado (PSD), com 230.374 (1,92%), e Romeu Zema (Novo), com 98.399 votos (0,82%).
O resultado chama atenção porque Lula foi o candidato mais votado na maioria dos municípios mineiros, mas Flávio conseguiu uma vantagem mais expressiva nos centros urbanos e cidades de maior eleitorado. Essa característica ajuda a explicar por que o candidato do PL terminou o estado à frente mesmo sem vencer na maior parte dos municípios.
Minas Gerais teve 77,18% de comparecimento às urnas e 22,82% de abstenção. O TER-MG informou que foram utilizadas 52.062 urnas eletrônicas e apenas 156 precisaram ser substituídas, equivalente a 0,3% do total.
O peso da tradição mineira
O resultado de 2026 ganha importância adicional pela histórica fama de Minas Gerais como uma espécie de “fiel da balança” das eleições presidenciais.
Desde 1955, o candidato que venceu a eleição presidencial em Minas Gerais também acabou chegando à Presidência. A tradição atravessou diferentes períodos políticos e voltou a aparecer nas eleições recentes.
Em 2018, por exemplo, Jair Bolsonaro venceu Fernando Haddad no estado no primeiro turno. Já em 2022, Lula terminou à frente de Jair Bolsonaro tanto no primeiro quanto no segundo turno em Minas. No segundo turno daquele ano, a diferença foi de apenas 0,4 ponto percentual: 50,2% para Lula contra 49,8% para Bolsonaro.
Em 2026, portanto, o resultado mineiro representa uma mudança importante em relação ao desempenho presidencial de 2022. Flávio Bolsonaro conseguiu superar Lula no estado por uma margem superior a meio milhão de votos.
Isso não significa, por si só, uma definição do resultado nacional. A própria história mostra que a importância política de Minas está justamente na capacidade de refletir diferentes correntes eleitorais. Para o segundo turno, o estado passa a ser novamente um dos principais territórios de disputa.
Um estado que virou à direita nas eleições de 2026
A votação presidencial não foi um fenômeno isolado.
Nas eleições proporcionais, o PL tornou-se a maior bancada de Minas Gerais na Câmara dos Deputados, com 21 dos 53 deputados federais eleitos pelo estado. O PT ficou com 12 cadeiras.
Na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, o movimento foi semelhante: o PL elegeu 21 deputados estaduais, contra 13 da federação Brasil da Esperança.
O desempenho do PL também aparece no resultado para o Senado. Domingos Sávio (PL) foi eleito com 24,21% dos votos válidos, enquanto Marília Campos (PT) ficou com a outra vaga, com 19,44%.
Ao mesmo tempo, Minas elegeu Cleitinho Azevedo (Republicanos) para o governo estadual ainda no primeiro turno, com 55,40% dos votos válidos. Natural de Divinópolis, o novo governador construiu sua campanha com forte presença nas redes sociais e discurso associado à renovação política e ao campo conservador.
O conjunto desses resultados mostra que a votação presidencial precisa ser analisada ao lado da composição das bancadas e das eleições majoritárias. Em Minas, o eleitorado de 2026 produziu uma forte representação de direita, mas também manteve presença relevante do PT e elegeu uma senadora petista.
O desempenho de Zema também chama atenção
Outro elemento político relevante foi o resultado de Romeu Zema (Novo).
Ex-governador de Minas Gerais por dois mandatos, Zema terminou apenas na sexta colocação no estado, com 98.407 votos e 0,82% dos votos válidos. O desempenho contrasta com sua votação para governador: em 2018, ele foi eleito no segundo turno com 71,8%, enquanto em 2022 foi reeleito no primeiro turno com 56,18%.
O resultado sugere que a presença de um nome identificado com a direita tradicionalmente forte em Minas não foi suficiente para fragmentar de maneira significativa os votos destinados a Flávio Bolsonaro.
Além disso, a eleição mostrou que o eleitorado mineiro distribuiu seus votos entre diferentes nomes do campo conservador e de centro-direita, mas a candidatura presidencial do PL concentrou parcela expressiva desse eleitorado.
Divinópolis: Flávio abre mais de 22 mil votos de vantagem
Em Divinópolis, o cenário foi ainda mais acentuado.
Com 100% das urnas apuradas, Flávio Bolsonaro recebeu 71.478 votos, correspondentes a 53,99% dos votos válidos.
Lula ficou com 49.403 votos, ou 37,31% dos votos válidos.
A diferença foi de 22.075 votos favoráveis ao candidato do PL.
Os demais candidatos tiveram desempenho bastante inferior. Escritor Augusto Cury recebeu 4.568 votos (3,45%); Renan Santos, 3.219 (2,43%); Ronaldo Caiado, 2.214 (1,67%); e Zema, 1.277 (0,96%).
A diferença percentual entre Flávio e Lula em Divinópolis, de 16,68 pontos, foi significativamente maior que a observada no conjunto de Minas Gerais.
O resultado de Divinópolis acompanha o cenário político local
A votação presidencial também pode ser analisada em conjunto com os resultados das eleições para o Congresso.
Divinópolis reelegeu ou elegeu nomes de diferentes campos políticos, mas os números mostram a força de candidatos associados à direita e à centro-direita.
Na votação para deputado federal, Gleidson Azevedo (Republicanos) foi o candidato mais votado no município, com 57.906 votos. Em seguida apareceu Nikolas Ferreira (PL), com 20.475 votos. A terceira posição ficou com Lohanna (PV), com 17.553 votos, enquanto Ana Elisa (PT) recebeu 9.356 votos.
O resultado tem uma particularidade: o candidato mais votado para deputado federal em Divinópolis pertence ao mesmo partido do governador eleito de Minas, Cleitinho Azevedo, enquanto o segundo colocado na cidade é uma das principais figuras nacionais do PL.
Ao mesmo tempo, o PT manteve representação eleitoral na cidade. Ana Elisa foi eleita deputada federal por Minas Gerais com 524.219 votos, ficando em segundo lugar na votação estadual, enquanto Nikolas Ferreira (PL) foi o deputado federal mais votado do estado, com impressionantes 3.119.318 votos.
Portanto, a fotografia eleitoral de Divinópolis não é de ausência de pluralidade, mas de predominância de candidaturas ligadas à direita e à centro-direita, acompanhada pela manutenção de uma base eleitoral petista.
A força da política local
O resultado de Divinópolis também precisa ser interpretado levando em consideração a influência de lideranças locais.
Cleitinho, natural do município, foi eleito governador com mais de 55% dos votos em Minas. Gleidson Azevedo, ex-prefeito de Divinópolis, foi eleito deputado federal e obteve na cidade uma votação muito superior à dos demais candidatos.
Esse contexto ajuda a explicar a forte presença de uma agenda política identificada com a direita no eleitorado local.
Há, entretanto, uma diferença importante entre a eleição municipal e a presidencial. Na disputa presidencial, os candidatos não dependem apenas das estruturas políticas municipais. A votação é fortemente influenciada pelo cenário nacional, pela avaliação do governo federal, pela polarização entre os principais grupos políticos e pela capacidade das campanhas de mobilizar eleitores.
Em Divinópolis, esses elementos se encontraram com uma estrutura local favorável ao campo político que apoiou Flávio Bolsonaro.
PL e PT saem fortalecidos, mas em posições diferentes
O primeiro turno deixa uma situação curiosa para os dois principais partidos da disputa.
O PL, partido de Flávio Bolsonaro, terminou o primeiro turno com o candidato presidencial à frente em Minas e em Divinópolis e também conquistou a maior bancada da Câmara dos Deputados e da Assembleia Legislativa de Minas Gerais. No plano nacional, a legenda também elegeu a maior bancada da Câmara, com 121 deputados, enquanto o PT ficou em segundo, com 70.
O PT, por sua vez, não apenas levou Lula ao segundo turno como também manteve uma bancada expressiva em Minas e elegeu Marília Campos para o Senado, além de 12 deputados federais e 15 deputados estaduais no estado.
A leitura política, portanto, não pode ser reduzida a uma simples vitória de um partido sobre o outro. O primeiro turno mostrou fortalecimento simultâneo das duas principais forças que disputarão a Presidência, mas com vantagem eleitoral do PL em Minas Gerais.
Segundo turno transforma Minas novamente em território estratégico
Com a disputa entre Flávio Bolsonaro e Lula definida, Minas Gerais volta ao centro das atenções.
O estado possui um dos maiores eleitorados do país e, historicamente, apresenta capacidade de produzir disputas bastante equilibradas. Em 2026, entretanto, Flávio conseguiu uma vantagem importante no primeiro turno.
Para o segundo turno, o desafio das duas campanhas passa a ser diferente. Flávio Bolsonaro terá de preservar a vantagem conquistada em Minas e, ao mesmo tempo, buscar ampliar sua votação em regiões onde Lula teve desempenho superior. O candidato petista, por sua vez, precisará reduzir a diferença acumulada no estado e recuperar eleitores que optaram por outras candidaturas no primeiro turno.
Em Minas, aproximadamente 9,2 milhões de votos foram destinados aos demais candidatos presidenciais, além dos votos brancos e nulos. A redistribuição dos votos dos candidatos que ficaram pelo caminho será, portanto, uma das questões centrais da segunda etapa da disputa.
Divinópolis entra no segundo turno com um cenário definido
Em Divinópolis, a fotografia do primeiro turno é mais clara: Flávio Bolsonaro terminou 16,68 pontos percentuais à frente de Lula.
A força eleitoral demonstrada pelo campo político de direita nas eleições proporcionais, somada à eleição de Cleitinho para o governo estadual e à vitória de Gleidson Azevedo para deputado federal, cria um ambiente político local em que o PL e partidos aliados chegam ao segundo turno com uma base eleitoral relevante.
Isso, porém, não elimina a presença do PT. A votação de Lula, superior a 49 mil votos no município, demonstra que existe uma parcela expressiva do eleitorado divinopolitano identificada com o atual presidente.
O segundo turno, portanto, deverá mostrar se a vantagem registrada no primeiro turno será mantida, ampliada ou reduzida.
A votação de 25 de outubro será, nesse sentido, não apenas uma nova disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, mas também um novo capítulo da longa tradição de Minas Gerais como território decisivo nas eleições presidenciais brasileiras.






