Documentos obtidos pelo Estadão revelam que o governo de Donald Trump apresentou ao Brasil uma lista de 21 exigências durante as negociações para rever o tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros. Entre os pontos, estavam condições relacionadas às eleições de 2026, além de demandas comerciais, tecnológicas e envolvendo minerais críticos. Um dia antes da divulgação do conteúdo, Lula afirmou que pretende conversar com Trump e pedir que os Estados Unidos não interfiram nas eleições brasileiras.
Documento colocou eleições brasileiras nas negociações
A proposta americana foi apresentada em 16 de outubro de 2025, durante negociações entre os dois países. Segundo as reportagens que tiveram acesso ao documento, o governo Trump condicionou a revisão das tarifas a uma série de compromissos que ultrapassavam questões estritamente comerciais.
Entre as 21 demandas estava a previsão de que o Brasil se comprometesse com eleições presidenciais consideradas “livres e justas” em 2026 e não detivesse, prendesse ou limitasse arbitrariamente a participação de chamados “dissidentes políticos” no processo eleitoral.
O documento não cita nominalmente Jair Bolsonaro. No entanto, integrantes do governo brasileiro ouvidos nas reportagens interpretaram a referência aos “dissidentes políticos” como relacionada à situação do ex-presidente. Essa interpretação, portanto, deve ser atribuída aos interlocutores ouvidos, e não apresentada como uma identificação feita diretamente pelo documento.
Exigências iam além das eleições
Embora a questão eleitoral tenha chamado atenção, a maior parte das 21 demandas apresentadas pelos Estados Unidos tinha caráter econômico e comercial.
A lista também incluía pedidos relacionados ao acesso de empresas americanas a minerais críticos, regras para redes sociais, liberdade de expressão, sanções financeiras e condições para investimentos. A proposta ainda previa medidas envolvendo o setor de aviação e a compra de aeronaves da Boeing por empresas brasileiras.
Outro ponto mencionado nas negociações envolvia o comércio de etanol e veículos. Reportagens sobre as tratativas também registraram pedidos americanos para ampliar o acesso de produtos e empresas dos Estados Unidos ao mercado brasileiro.
Governo brasileiro considerou proposta inaceitável
Segundo as informações divulgadas sobre o documento, representantes do governo brasileiro consideraram as condições apresentadas pelos Estados Unidos inaceitáveis. A proposta, de acordo com os relatos, não serviu como base para um acordo nos termos pretendidos pelo governo Trump.
As negociações ocorreram em meio à disputa comercial entre Brasília e Washington. O tarifaço anunciado pelos Estados Unidos chegou a prever uma sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros, enquanto os dois governos buscavam alternativas para reduzir os impactos da medida e chegar a um entendimento.
Novas propostas continuaram em discussão
As tratativas não terminaram com a primeira proposta. Ao longo das negociações, os dois países discutiram outros pontos comerciais, enquanto o governo brasileiro mantinha a posição de que determinadas questões envolvendo soberania, mercado interno e minerais críticos não poderiam ser aceitas nos termos apresentados pelos Estados Unidos.
Em julho deste ano, por exemplo, a Folha informou que o governo americano havia solicitado a redução a zero de tarifas brasileiras sobre determinados bens industriais, químicos, aeroespaciais e automotivos, além de maior abertura de setores do mercado brasileiro.
A disputa comercial também envolveu temas como Pix, etanol, propriedade intelectual e decisões brasileiras relacionadas a plataformas digitais. Naquele momento, o governo americano mantinha uma investigação comercial que serviu de base para novas tarifas sobre produtos brasileiros.
Lula fala em não interferência nas eleições
Paralelamente às revelações sobre as exigências apresentadas em 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a falar sobre a relação com Trump e as eleições brasileiras.
Durante um ato em Ceilândia, no Distrito Federal, na quarta-feira (16), Lula afirmou que pretende conversar pessoalmente com Trump durante a reunião da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. Segundo o presidente, a conversa deve ocorrer na terça-feira (22).
Lula afirmou que pretende pedir ao presidente americano que não interfira nas eleições brasileiras. A declaração ocorreu no mesmo período em que veio a público o conteúdo das 21 exigências apresentadas pelo governo Trump, mas não há, nas informações disponíveis, indicação de que a fala de Lula tenha sido uma resposta direta ao documento revelado nesta quinta-feira.
Lula acusa Eduardo Bolsonaro
No mesmo discurso, Lula acusou o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro de estar nos Estados Unidos para tentar convencer Trump a interferir nas eleições brasileiras. O presidente também afirmou que Eduardo estaria agindo a mando de Flávio Bolsonaro, senador e candidato do PL à Presidência.
A acusação foi feita por Lula sem apresentação de provas, segundo a cobertura da Agência Estado. Por isso, a afirmação deve ser tratada como uma declaração do presidente, e não como um fato comprovado.
Eduardo Bolsonaro aparece, portanto, em um segundo eixo da notícia, relacionado às declarações de Lula sobre a possível atuação de integrantes da oposição junto ao governo americano. Esse episódio é distinto das 21 exigências documentadas nas negociações comerciais de 2025.
Relação entre Brasil e Estados Unidos segue marcada por negociações
A divulgação dos documentos acrescenta um novo elemento à relação entre os governos brasileiro e americano. As negociações que começaram em torno das tarifas passaram a envolver também temas como eleições, plataformas digitais, minerais críticos, comércio e investimentos.
Ao mesmo tempo, as declarações recentes de Lula mostram que a relação entre os dois governos continua sendo discutida também sob a perspectiva eleitoral. O presidente brasileiro afirma que pretende tratar diretamente com Trump sobre a não interferência americana no processo eleitoral.
Assim, os dois episódios têm como ponto em comum a relação entre Brasil e Estados Unidos, mas ocorreram em momentos diferentes e devem ser analisados separadamente: o documento revela as condições apresentadas pelo governo Trump durante uma negociação comercial em 2025, enquanto Lula, em setembro de 2026, fez declarações sobre a eleição e anunciou que pretende abordar o assunto com o presidente americano.






